{"id":279,"date":"2015-07-31T13:53:27","date_gmt":"2015-07-31T13:53:27","guid":{"rendered":"http:\/\/sindicatos.cgtp.pt\/hotelaria-sul\/?p=279"},"modified":"2015-07-31T14:05:55","modified_gmt":"2015-07-31T14:05:55","slug":"historia-do-sindicato-de-hotelaria","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sindicatos.cgtp.pt\/hotelaria-sul\/2015\/07\/31\/historia-do-sindicato-de-hotelaria\/","title":{"rendered":"HIST\u00d3RIA DO SINDICATO DE HOTELARIA"},"content":{"rendered":"<div>\n<hr align=\"left\" size=\"1\" width=\"33%\" \/>\n<p align=\"center\"><a href=\"https:\/\/sindicatos.cgtp.pt\/hotelaria-sul\/wp-content\/blogs.dir\/54\/files\/sites\/54\/2015\/07\/Hist\u00f3ria-do-sindicato.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-281 alignleft\" alt=\"Hist\u00f3ria do sindicato\" src=\"https:\/\/sindicatos.cgtp.pt\/hotelaria-sul\/wp-content\/blogs.dir\/54\/files\/sites\/54\/2015\/07\/Hist\u00f3ria-do-sindicato-166x240.jpg\" width=\"166\" height=\"240\" srcset=\"https:\/\/sindicatos.cgtp.pt\/hotelaria-sul\/wp-content\/blogs.dir\/54\/files\/sites\/54\/2015\/07\/Hist\u00f3ria-do-sindicato-166x240.jpg 166w, https:\/\/sindicatos.cgtp.pt\/hotelaria-sul\/wp-content\/blogs.dir\/54\/files\/sites\/54\/2015\/07\/Hist\u00f3ria-do-sindicato.jpg 411w\" sizes=\"auto, (max-width: 166px) 100vw, 166px\" \/><\/a><\/p>\n<\/div>\n<div>\n<div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p><b><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">INDICE<\/span><\/b><\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<p><b><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">NOTA PR\u00c9VIA<\/span><\/b><\/p>\n<p><b><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">A FUNDA\u00c7\u00c3O DO SINDICATO (1907 \u2013 1913)<\/span><\/b><\/p>\n<p><b><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">ASSEMBLEIA CONSTITUINTE, SEDE E ESTATUTOS<\/span><\/b><\/p>\n<p><b><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">DEIXAR DE PAGAR PARA TRABALHAR \u2013 AS PRIMEIRAS GREVES<\/span><\/b><\/p>\n<p><b><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">A LUTA PELO DESCANSO SEMANAL \u2013 UMA VIAGEM AO NORTE<\/span><\/b><\/p>\n<p><b><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">A CLASSE E A REP\u00daBLICA<\/span><\/b><\/p>\n<p><b><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">A VIT\u00d3RIA DOS BIGODES<\/span><\/b><\/p>\n<p><b><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">UM SINDICALISMO REIVINDICATIVO E REVOLUCION\u00c1RIO NA REP\u00daBLICA<\/span><\/b><\/p>\n<p><b><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">UM JORNAL COMO ARMA<\/span><\/b><\/p>\n<p><b><span style=\"font-size: medium\"><span style=\"color: #000000\"><span style=\"font-family: Arial\">\u00a0<\/span>DISSOLVENTES, INTRIGA, EXPULS\u00d5ES, E UMA LUZ AO FUNDO DO T\u00daNEL<\/span><\/span><\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-size: medium\"><span style=\"color: #000000\"><b>O CONGRESSO DE TOMAR \u2013 A GUERRA \u2013 O REFORMISMO NO SINDICATO <\/b>(<span style=\"font-family: Arial\"><b>1914 \u2013 1921) <\/b><\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p><b><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">SABER FALAR COM OS PATR\u00d5ES, MUDAN\u00c7A DE ORIENTA\u00c7\u00c3O E DESENVOLVIMENTO<\/span><\/b><\/p>\n<p><b><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">GUERRA \u00c0 GUERRA, O AGRAVAMENTO DA CARESTIA DE VIDA<\/span><\/b><\/p>\n<p><b><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">EXCLU\u00cdDOS DO HOR\u00c1RIO DE TRABALHO, O FIM DA PAGA PELO TRABALHO<\/span><\/b><\/p>\n<p><b><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">UMA ASSOCIA\u00c7\u00c3O DE CLASSE DE MULHERES, O MOVIMENTO CONTRA O LIVRETE<\/span><\/b><\/p>\n<p><b><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">GREVE, GREVE GERAL REVOLUCION\u00c1RIA, PELA ABOLI\u00c7\u00c3O DA GORJETA \u2013 OS ANARQUISTAS NO SINDICATO (1922 \u2013 1925)<\/span><\/b><\/p>\n<p><b><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">O COME\u00c7O DA NOITE FACISTA (1926 \u2013 1935)<\/span><\/b><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h3><strong><span style=\"color: #000000;font-family: Arial\">TRAIDORES, CISIONISTAS, \u00abNACIONAIS\u00bb E FASCISTAS<\/span><\/strong><\/h3>\n<h3><strong><span style=\"color: #000000;font-family: Arial\">A PROIBI\u00c7\u00c3O DA GORGETA, O FIM DA CONDI\u00c7\u00c3O LEGAL DE <\/span><\/strong><\/h3>\n<h3><strong><span style=\"color: #000000;font-family: Arial\">DOM\u00c9STICOS<\/span><\/strong><\/h3>\n<h3><strong><span style=\"color: #000000;font-family: Arial\">UNIR FOR\u00c7AS E REORGANIZAR PARA RESISTIR \u2013 A INTER-SINDICAL<\/span><\/strong><\/h3>\n<h3><strong><span style=\"color: #000000;font-family: Arial\">A CLASSE NA GREVE GERAL DE 18 DE FEVEREIRO DE 1934, A COOPERATIVA COMO REF\u00daGIO, A CLANDESTINIDADE<\/span><\/strong><\/h3>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">NOTA PR\u00c9VIA<\/span><\/b><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Hesitou-se inicialmente entre a elabora\u00e7\u00e3o de uma resenha hist\u00f3rica reduzida, que alinhasse datas, factos e acontecimentos, sem contextualiza\u00e7\u00e3o nem interpreta\u00e7\u00f5es ou considera\u00e7\u00f5es, e uma vers\u00e3o mais longa que assinalasse as principais lutas e reivindica\u00e7\u00f5es dos trabalhadores em cada \u00e9poca, alguns elementos dos contextos socio-pol\u00edticos em que ocorrem, as vit\u00f3rias, as derrotas, e os resultados obtidos em direitos e na melhoria das condi\u00e7\u00f5es de vida dos trabalhadores e das suas fam\u00edlias.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Porque o material dispon\u00edvel para o efeito assim o permitia optou-se por fazer as duas coisas. Uma cronologia. E para que os trabalhadores e activistas sindicais da hotelaria interessados no conhecimento mais aprofundado do percurso da sua organiza\u00e7\u00e3o de classe, elaborou-se tamb\u00e9m um texto mais desenvolvido para o per\u00edodo que vai de 1907 a 1935.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Assim, ser\u00e3o feitas refer\u00eancias \u00e0 constitui\u00e7\u00e3o de associa\u00e7\u00f5es, seus fins, respectiva linha ideol\u00f3gica, \u00e1s suas altera\u00e7\u00f5es organizativas, de orienta\u00e7\u00e3o politica e de poder.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Ficar\u00e1 demonstrado que desde a funda\u00e7\u00e3o da primeira associa\u00e7\u00e3o de classe houve sempre continuidade de organiza\u00e7\u00e3o. Mesmo em momentos de rotura no regime politico, como em 1910, 1926 e 1974. A massa associativa, parte dos militantes sindicais, e componentes da estrutura sindical, transitaram para as formas organizativas que se seguiram. Demonstrando que o nosso sindicato e outros dos que existem actualmente, n\u00e3o nasceram com a atribui\u00e7\u00e3o do alvar\u00e1 corporativo, como por vezes tende a pensar-se, devido ao apag\u00e3o hist\u00f3rico de mais de quatro d\u00e9cadas provocado pela censura do regime fascista.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">No fim, poderemos verificar que valeu e vale a pena lutar.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p><b><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">A FUNDA\u00c7\u00c3O DO SINDICATO (1907 \u2013 1913)<\/span><\/b><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Em 1907, Portugal era um pais rural, atrasado, pobre, com a maioria da popula\u00e7\u00e3o analfabeta e a viver da agricultura de subsist\u00eancia.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Nos campos e na constru\u00e7\u00e3o civil o trabalho era de sol a sol.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">No servi\u00e7o dom\u00e9stico, onde se inclu\u00edam os que trabalhavam nos hot\u00e9is, caf\u00e9s, restaurantes e similares, na pequena industria e no pequeno com\u00e9rcio, o hor\u00e1rio de trabalho n\u00e3o tinha limites.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">O trabalho por empreitada ou \u00e0 pe\u00e7a nos alfaiates, sapateiros, modistas, carpinteiros, marceneiros e nas fainas agr\u00edcolas, era a regra.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">S\u00f3 em redor das duas grandes cidades, Lisboa, Porto, e no distrito de Set\u00fabal, encontr\u00e1vamos alguns p\u00f3los industriais em desenvolvimento.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Nos centros urbanos, ao lado dos oper\u00e1rios metal\u00fargicos, ferrovi\u00e1rios, da constru\u00e7\u00e3o civil, conserveiros, corticeiros, tabaqueiros, Manipuladores de p\u00e3o e tip\u00f3grafos, germinavam pequenos comerciantes, caixeiros, professores, funcion\u00e1rios p\u00fablicos, escritur\u00e1rios, viajantes, soldados e marinheiros, carroceiros e estivadores.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Em pal\u00e1cios, casas particulares e hot\u00e9is, caf\u00e9s e restaurantes de Lisboa, trabalhavam alguns milhares de criados e criadas, desligados da movimenta\u00e7\u00e3o oper\u00e1ria reivindicativa e intensa da \u00e9poca.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">As suas condi\u00e7\u00f5es de trabalho eram aviltantes. As criadas e criados de casas particulares estavam ao dispor das patroas, 24 horas por dia, em regra apenas a troco de comida e dormida. Os criados, cozinheiros e mo\u00e7os de cozinha de caf\u00e9s, restaurantes e hot\u00e9is, trabalhavam entre 15 e 18 horas por dia, sete dias por semana.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Em v\u00e1rios caf\u00e9s da Baixa, os criados de mesa encerravam as portas do estabelecimento \u00e1s duas da manh\u00e3, colocavam enxergas de palha sobre as mesas em que tinham servido os clientes durante o dia, ali dormiam quatro ou cinco horas, findas as quais arrumavam as enxergas, limpavam as mesas e o ch\u00e3o e recome\u00e7avam o servi\u00e7o. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">A remunera\u00e7\u00e3o dos criados de mesa era constitu\u00edda por comida, nos restaurantes e nos caf\u00e9s que serviam refei\u00e7\u00f5es, e pelas gorjetas, das quais ainda tinham que retirar uma parte a fim de pagar uma esp\u00f3rtula ao patr\u00e3o, a t\u00edtulo de limpezas. A farda, libr\u00e9, fraque ou palet\u00f3, cal\u00e7a preta ou de fantasia, conforme a categoria da casa, era por conta do trabalhador.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">No Hotel Francfort, os criados entram \u00e0s 7 da manh\u00e3 e saem \u00e1s 10 da noite. Se adoecem, quando regressam para reocupar o lugar, t\u00eam de pagar 800 r\u00e9is por cada dia faltado. N\u00e3o podem ir \u00e0 rua durante o dia, n\u00e3o podem falar com pessoas nem receber correspond\u00eancia. At\u00e9 para se despedirem, t\u00eam dificuldades, pois o patr\u00e3o \u201cguarda-lhes\u201d o ordenado de alguns meses.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Os mo\u00e7os de cozinha ganham entre 100 e 150 r\u00e9is por dia.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">No Caf\u00e9 Suisso, cada um dos empregados \u00e9 obrigado a pagar 9oo r\u00e9is por dia. Uma m\u00e9dia de 50% do que obt\u00eam em gorjetas <\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">No Caf\u00e9 Martinho, alem do pagamento de verbas semelhantes, os empregados de mesa s\u00e3o obrigados a pagar todos os materiais partidos ou desaparecidos fosse quem fosse que os partisse ou fizesse desaparecer.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Cerca de metade dos criados e cozinheiros de Lisboa eram galegos que se sujeitavam a tudo para mandar algum dinheiro para a terra. Dizia-se na altura, que os portugueses preferiam trabalhar na constru\u00e7\u00e3o civil e outras ind\u00fastrias do que sujeitar-se a estas condi\u00e7\u00f5es de servid\u00e3o. N\u00e3o ser\u00e1 por acaso que ainda hoje ouvimos dizer de quem trabalha muito, \u2018<i><span style=\"font-family: Arial\">trabalha que nem um galego\u2019<\/span><\/i>.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Naquele dia a dia, os paquetes que atracavam no Porto de Lisboa, despejavam na cidade gente de fora. Passageiros, tripulantes, aventureiros e turistas. No Sud-Express, chegavam \u00e0 Esta\u00e7\u00e3o do Rossio, em 1\u00aa classe, burgueses, latifundi\u00e1rios, banqueiros, diplomatas, escritores e artistas, vindos de Paris. Os mais abastados entravam directamente da Esta\u00e7\u00e3o, para o luxuoso Hotel Avenida Palace. Edif\u00edcio imponente, de salas e quartos amplos. O \u00fanico em Lisboa que tinha sido constru\u00eddo de raiz para ser hotel, explorado pela companhia Wagons Lits que tinha ali ao seu servi\u00e7o mais de cem empregados. Os restantes eram simples adapta\u00e7\u00f5es de pr\u00e9dios residenciais.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Em frente do Avenida Palace, no actual Largo D. Jo\u00e3o da C\u00e2mara, no lugar hoje ocupado por bancos, estavam o Caf\u00e9 Suisso e o Caf\u00e9 Martinho<\/span><a title=\"\" href=\"#_ftn1\"><span style=\"color: #0066cc\">[1]<\/span><\/a><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">. O primeiro a ter uma sala s\u00f3 para senhoras, e por onde passaram Herculano, Garrett e Ces\u00e1rio Verde. Caf\u00e9 em que Pessoa se senta diariamente a beber o seu caf\u00e9 e baga\u00e7o, e onde o jovem escritor Aquilino Ribeiro, tamb\u00e9m vai, embora prefira frequentar as tert\u00falias do Caf\u00e9 Gelo, poiso de oper\u00e1rios, empregados de com\u00e9rcio, funcion\u00e1rios p\u00fablicos e jornalistas. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: medium\"><span style=\"color: #000000\">A menos de cinquenta metros, na rua 1\u00ba de Dezembro, situa-se o requintado Le\u00e3o de Ouro, restaurante predilecto de E\u00e7a e de outros dos Vencidos da Vida.<\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Servir Burgueses, intelectuais e pol\u00edticos, permitia aos criados de mesa um conv\u00edvio que lhes abria os olhos para horizontes cada vez mais vastos. A confraterniza\u00e7\u00e3o com oper\u00e1rios socialistas, anarquistas e revolucion\u00e1rios, nos bairros e na rua, acirrava-lhes o esp\u00edrito de revolta contra a explora\u00e7\u00e3o a que estavam sujeitos.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Numa das muitas tabernas e casas de pasto que circundavam os caf\u00e9s da Baixa frequentados pela pequena e m\u00e9dia burguesia, come\u00e7aram a juntar-se regularmente alguns \u2018<i><span style=\"font-family: Arial\">criados\u2019,<\/span><\/i> onde pontificavam Manuel Fernandes Lopes, Jos\u00e9 de Almeida Duarte e Luciano Gil Montes, criados de mesa, Fel\u00edcio Rodrigues, Gerente, e Manuel Rodrigues Correia, cozinheiro, invulgarmente bem informado e culto para a m\u00e9dia da classe. Para ele, estava claro que a classe tinha de seguir o exemplo dos outros oper\u00e1rios. Criar um jornal que defendesse os seus interesses, e constituir uma associa\u00e7\u00e3o de classe que unisse todos os trabalhadores.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">As associa\u00e7\u00f5es constitu\u00eddas at\u00e9 \u00e0 data pelos trabalhadores dos hot\u00e9is, caf\u00e9s e restaurantes, s\u00e3o limitadas.<\/span><\/p>\n<p><b><span style=\"text-decoration: underline\"><span style=\"font-size: medium\"><span style=\"color: #000000\"><span style=\"font-family: Arial\">\u00a0<\/span>A Associa\u00e7\u00e3o dos Cozinheiros, a primeira a ser criada em Lisboa, em Janeiro de 1890<\/span><\/span><\/span><\/b><a title=\"\" href=\"#_ftn2\"><span style=\"text-decoration: underline\"><span style=\"text-decoration: underline\"><span style=\"color: #0066cc\">[2]<\/span><\/span><\/span><\/a><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">, mutualista, est\u00e1 praticamente desactivada.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: medium\"><span style=\"color: #000000\"><b><span style=\"text-decoration: underline\">A Associa\u00e7\u00e3o dos Criados de Mesa, Soc. Cooperativa Lda, constitu\u00edda a 22 de Maio de 1904,<\/span><\/b> ap\u00f3s mais de dois anos de canseiras, dilig\u00eancias e cunhas para obter autoriza\u00e7\u00e3o, levadas a cabo por um<i><span style=\"font-family: Arial\"> \u2018criado\u2019<\/span><\/i> galego do Pa\u00e7o Real, Francisco Bustos, e por outros criados em pal\u00e1cios de Lisboa, tamb\u00e9m tem apenas o fim mutualista de precaver o direito a um pequeno <i><span style=\"font-family: Arial\">socorro pecuni\u00e1rio<\/span><\/i> na velhice, e ajudar os associados o encontrar trabalho.<\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: medium\"><span style=\"color: #000000\"><b><span style=\"text-decoration: underline\">A 7 de Agosto de 1907<\/span><\/b>, no in\u00edcio da ditadura de Jo\u00e3o Franco, quando este ainda se afirmava democrata, como ironizava o sindicalista anarquista Manuel Joaquim de Sousa, <span style=\"font-family: Arial\"><b><span style=\"text-decoration: underline\">sai a lei do descanso semanal obrigat\u00f3rio.<\/span><\/b><\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">A conquista do dia de descanso semanal, significou para aqueles que puderam usufruir dela desde logo, uma redu\u00e7\u00e3o de 12 a 14 horas por semana no hor\u00e1rio de trabalho. E, embora a generaliza\u00e7\u00e3o deste direito apenas tenha sido feita durante a Republica, o princ\u00edpio estava adquirido, e foi sem margem para d\u00favidas uma grande vit\u00f3ria da luta dos trabalhadores.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Mas, como todas as leis, esta tamb\u00e9m vinha cheia de buracos. De tal modo que, na hotelaria, todo o patronato se furtou ao seu cumprimento. E, viria a ser necess\u00e1ria mais de uma d\u00e9cada de lutas, para que a maioria dos trabalhadores desta actividade tivessem o seu dia de descanso semanal.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Manuel Rodrigues Correia e os companheiros, na sua maioria criados de mesa, que constitu\u00edam o n\u00facleo mais combativo da classe, conclu\u00edram que tinha chegado o momento de avan\u00e7arem com o projecto que vinham amadurecendo.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Ap\u00f3s o regresso, <b><span style=\"text-decoration: underline\"><span style=\"font-family: Arial\">em Outubro<\/span><\/span><\/b>, dos camaradas que tinham ido trabalhar para Vidago, Figueira da Foz e outras praias e termas, reiniciaram reuni\u00f5es, <b><span style=\"text-decoration: underline\"><span style=\"font-family: Arial\">constitu\u00edram o Grupo de Propaganda e Defesa dos Interesses dos Empregados dos Hot\u00e9is, Restaurantes e Caf\u00e9s, quotizaram-se para fazer face \u00e1s primeiras despesas, alugaram um 1\u00ba andar na rua do Po\u00e7o do Borrat\u00e9m,<\/span><\/span><\/b> e iniciaram a campanha pr\u00f3-associa\u00e7\u00e3o de classe atrav\u00e9s da propaganda do associativismo. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">O Grupo de Defesa falou com gerentes e alguns patr\u00f5es na tentativa de os levar a cumprir o direito ao descanso semanal, mas as diligencias foram totalmente infrut\u00edferas. Na \u00f3ptica dos propriet\u00e1rios, fechar ao Domingo ou a qualquer outro dia, era impens\u00e1vel. E, dar descanso com a casa aberta, implicava a admiss\u00e3o de mais empregados. Alem disso, os empregados dos caf\u00e9s e hot\u00e9is, eram dom\u00e9sticos, e a lei, s\u00f3 se aplicava ao com\u00e9rcio e industria e remetia a sua regulamenta\u00e7\u00e3o para a c\u00e2mara municipal, diziam.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: medium\"><span style=\"color: #000000\"><span style=\"font-family: Arial\">\u00a0<\/span>Entretanto, o ano chegava ao fim. As festas luxuosas no Pal\u00e1cio Real, os cortejos e os grandes almo\u00e7os com a alta sociedade levavam ao rubro a indigna\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o informada. A discuss\u00e3o sobre o esc\u00e2ndalo dos adiantamentos \u00e0 Casa Real exaltava os \u00e2nimos da pequena e m\u00e9dia burguesia. A monarquia estava cada dia mais desacreditada. A oposi\u00e7\u00e3o republicana e a Carbon\u00e1ria conspiravam. Respirava-se um ambiente pr\u00e9-revolucion\u00e1rio. Em Novembro, Jo\u00e3o Franco obt\u00e9m a assinatura do rei D. Carlos no decreto que lhe permite prender e deportar os seus opositores. A 21 de Janeiro de 1908, fracassa mais uma tentativa revolucion\u00e1ria republicana que resultou em in\u00fameras pris\u00f5es.<\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">No dia 1 de Fevereiro, o rei e o seu filho Lu\u00eds Filipe s\u00e3o abatidos no atentado do Terreiro do Pa\u00e7o, a tiros de carabina, por Alfredo Costa e Manuel Bu\u00ed\u00e7a, que logo ali foram mortos pela pol\u00edcia, pagando com a vida o acto regicida.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Os criados de mesa eram testemunhas privilegiadas das acesas discuss\u00f5es politicas de caf\u00e9, muitas vezes participando nelas. O descontentamento e a revolta da classe multiplicavam-se perante a posi\u00e7\u00e3o retr\u00f3grada do patronato relativamente ao descanso semanal.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div>\n<p><a title=\"\" href=\"#_ftnref1\">[1]<\/a> N\u00e3o confundir com o actual Martinho da Arcada, do mesmo dono e que s\u00f3 mais tarde viria a ter as prefer\u00eancias de Fernando Pessoa.<\/p>\n<\/div>\n<div>\n<p><a title=\"\" href=\"#_ftnref2\">[2]<\/a> Fonseca, Carlos<ins cite=\"mailto:PC\" datetime=\"2005-01-13T18:26\">,<\/ins> <i>Hist\u00f3ria do Movimento Oper\u00e1rio,<\/i> \u00abEstudos e Documentos\u00bb<i> <\/i>Vol. I, Europa<ins cite=\"mailto:PC\" datetime=\"2005-01-13T18:26\"><\/ins>-Am\u00e9rica<\/p>\n<\/div>\n<div><\/div>\n<p><b><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">ASSEMBLEIA CONSTITUINTE, SEDE E ESTATUTOS<\/span><\/b><\/p>\n<p><b><span style=\"text-decoration: underline\"><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Num Domingo de Fevereiro de 1908, num 1\u00ba andar do n\u00famero 12 da Rua Luz Soriano, em Lisboa, re\u00fane-se um grande grupo de militantes oper\u00e1rios, parte deles ligados ao Partido Socialista e aos grupos anarquistas, com o objectivo criar um di\u00e1rio de car\u00e1cter sindicalista<\/span><a title=\"\" href=\"#_ftn3\"><b><span style=\"text-decoration: underline\"><span style=\"color: #0066cc\">[3]<\/span><\/span><\/b><\/a><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">.<\/span><\/span><\/b><\/p>\n<p><b><span style=\"text-decoration: underline\"><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Manuel Rodrigues Correia e Jos\u00e9 de Almeida Duarte, do Grupo de Defesa dos Interesses dos Trabalhadores de Hotelaria, e que viriam a ser Redactor Principal e Editor, do primeiro jornal porta-voz da classe, estiveram presentes nesta hist\u00f3rica reuni\u00e3o do sindicalismo portugu\u00eas.<\/span><\/span><\/b><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Estava-se perante a primeira tentativa s\u00e9ria de unir o movimento sindical e de estabelecer uma coordena\u00e7\u00e3o geral da sua ac\u00e7\u00e3o. Socialistas, anarquistas e sindicalistas revolucion\u00e1rios, puseram-se rapidamente de acordo e constitu\u00edram um <i><span style=\"font-family: Arial\">\u00abGrupo de Propaganda Social\u00bb <\/span><\/i>com representantes das correntes politicas e ideol\u00f3gicas presentes, para no dia 18 de Mar\u00e7o, no anivers\u00e1rio da Comuna de Paris, fazerem sair o primeiro n\u00famero do jornal que acabavam de aprovar.<\/span><\/p>\n<p><b><span style=\"text-decoration: underline\"><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">O Grupo de Defesa,<\/span><\/span><\/b><span style=\"color: #000000;font-size: medium\"> apoiado por alguns activistas sindicais mais experientes, de que se destacava Pedro Muralha<\/span><a title=\"\" href=\"#_ftn4\"><span style=\"color: #0066cc\">[4]<\/span><\/a><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">, <b><span style=\"text-decoration: underline\"><span style=\"font-family: Arial\">passou quase todo o ano de 2008<\/span><\/span><\/b>, no pouco tempo em que conseguiam libertar-se do trabalho, <b><span style=\"font-family: Arial\"><span style=\"text-decoration: underline\">a discutir o projecto de estatutos da Associa\u00e7\u00e3o de Classe, a recolher pr\u00e9-ades\u00f5es, e a organizar os aspectos administrativos m\u00ednimos necess\u00e1rio<\/span>s<\/span><\/b> ao seu funcionamento.<\/span><\/p>\n<p><b><span style=\"text-decoration: underline\"><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">No dia 5 de Novembro de 1908<\/span><\/span><\/b><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">, foram os trabalhadores dos hot\u00e9is Francfort, Inglaterra, Pension, Porto e Hotel das Na\u00e7\u00f5es, a que mais tarde se juntaram trabalhadores de restaurantes e caf\u00e9s, os que mais contribu\u00edram para que a sala estivesse repleta no <\/span><b><span style=\"text-decoration: underline\"><span style=\"color: #000000;font-family: Arial;font-size: medium\">acto formal da constitui\u00e7\u00e3o da Associa\u00e7\u00e3o de Classe<\/span><a title=\"\" href=\"#_ftn5\"><b><span style=\"text-decoration: underline\"><span style=\"color: #0066cc\">[5]<\/span><\/span><\/b><\/a><span style=\"color: #000000;font-family: Arial;font-size: medium\"> dos Empregados dos Hot\u00e9is e Restaurantes, cuja primeira sede foi na rua do Po\u00e7o Borrat\u00e9m, n\u00ba 33, 1\u00ba, em Lisboa<\/span><a title=\"\" href=\"#_ftn6\"><b><span style=\"text-decoration: underline\"><span style=\"color: #0066cc\">[6]<\/span><\/span><\/b><\/a><span style=\"color: #000000;font-family: Arial;font-size: medium\">.<\/span><\/span><\/b><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Na Assembleia constituinte falaram sobre a origem das associa\u00e7\u00f5es de classe e a sua import\u00e2ncia na defesa dos interesses dos trabalhadores, Thomaz J\u00fadice Bicker e Agostinho Jos\u00e9 da Silva<\/span><a title=\"\" href=\"#_ftn7\"><span style=\"color: #0066cc\">[7]<\/span><\/a><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">. E, Manuel Rodrigues Correia, cozinheiro e l\u00edder do Grupo de Defesa, sobre as condi\u00e7\u00f5es de trabalho e de explora\u00e7\u00e3o a que a classe estava sujeita.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Nos seus estatutos, a associa\u00e7\u00e3o define como \u00e2mbito geogr\u00e1fico a cidade e arredores de Lisboa, atribui todos os poderes \u00e0 assembleia-geral e \u00e0 Comiss\u00e3o Executiva, prev\u00ea a constitui\u00e7\u00e3o de Comiss\u00f5es de Vigil\u00e2ncia e de Melhoramentos, a idade de admiss\u00e3o para s\u00f3cio aos 16 anos, podendo 10 associados requerer a convoca\u00e7\u00e3o da assembleia-geral.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: medium\"><span style=\"color: #000000\">O artigo 3\u00ba dos estatutos define que <span style=\"font-family: Arial\"><i>\u201c<b>a associa\u00e7\u00e3o tem por fim melhorar a situa\u00e7\u00e3o da classe, pelo estudo e defesa dos seus interesses econ\u00f3micos e morais e poder\u00e1 ter escolas, gabinete de leitura, e fomentar conferencias\u201d.<\/b><\/i><\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: medium\"><span style=\"color: #000000\"><span style=\"font-family: Arial\">\u00a0<\/span>Em fase posterior, com a associa\u00e7\u00e3o j\u00e1 consolidada, num dos muitos apelos \u00e0 filia\u00e7\u00e3o que regularmente eram feitos no jornal, numa concep\u00e7\u00e3o que nada deve \u00e1s melhores que hoje existem, pode ler-se: \u00ab\u00e9 necess\u00e1ria a associa\u00e7\u00e3o de todos os membros da classe, sem restri\u00e7\u00e3o, sejam Maitres de Hotel ou Chefes de Cozinha, Criadas de Quartos ou Mo\u00e7os de Recados\u00bb.<\/span><\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div>\n<p><a title=\"\" href=\"#_ftnref3\"><span style=\"color: #0066cc\">[3]<\/span><\/a> Vieira, Alexandre, <i>Para a Hist\u00f3ria do Sindicalismo em Portugal<\/i>, Lisboa, Seara Nova, 1970 p. 29<\/p>\n<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div>\n<p><a title=\"\" href=\"#_ftnref4\"><span style=\"color: #0066cc\">[4]<\/span><\/a> Ant\u00f3nio Pedro Muralha, tip\u00f3grafo impressor, veio a ficar conhecido como jornalista e publicista. Foi director do di\u00e1rio socialista, <i>A Vanguarda<\/i>.<\/p>\n<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div>\n<p><a title=\"\" href=\"#_ftnref5\"><span style=\"color: #0066cc\">[5]<\/span><\/a> Os nomes Associa\u00e7\u00e3o de Classe, Sindicato ou simplesmente Associa\u00e7\u00e3o, aparecem ao longo deste trabalho com o mesmo significado.<\/p>\n<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div>\n<p><a title=\"\" href=\"#_ftnref6\"><span style=\"color: #0066cc\">[6]<\/span><\/a> <i>A Defesa,<\/i> n\u00ba 1 de 1 de Janeiro de 1910 fl. 1<\/p>\n<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div>\n<p><a title=\"\" href=\"#_ftnref7\"><span style=\"color: #0066cc\">[7]<\/span><\/a> Companheiros de Azedo Gneco na ala Marxista do Partido Socialista.<\/p>\n<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">DEIXAR DE PAGAR PARA TRABALHAR \u2013 AS PRIMEIRAS GREVES<\/span><\/b><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Estavam fartos de pagar para trabalhar. Os $900 r\u00e9is que os sete criados de mesa pagavam por dia a D. Pedro Torres, um galego rico dono do Caf\u00e9 Suisso, somados, davam por m\u00eas de 189$000 r\u00e9is. Era muito dinheiro. No princ\u00edpio de Agosto de 1909, quando o gerente do caf\u00e9, conhecido entre os trabalhadores como o\u2018<i><span style=\"font-family: Arial\">Salmonete\u2019,<\/span><\/i> os intimou a pagar mais 1$700 r\u00e9is cada um, relativos a lavagem de roupa, de tr\u00eas dias, recusaram-se a faze-lo.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: medium\"><span style=\"color: #000000\"><span style=\"font-family: Arial\">\u00a0<\/span>A receptividade que tivera o manifesto a reclamar que n\u00e3o os obrigassem a pagar 50% do produto das gorjetas, distribu\u00eddo em Julho nos caf\u00e9s da Baixa de Lisboa, a clientes e trabalhadores, tinha-os animado. <span style=\"font-family: Arial\"><b><span style=\"text-decoration: underline\">\u00c1s tr\u00eas da manh\u00e3, hora de encerramento do Suisso, combinaram todos n\u00e3o ir trabalhar no dia seguinte. Dito e feito. Nenhum falhou.<\/span><\/b><\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Logo de manh\u00e3 foram para a Associa\u00e7\u00e3o e pediram a sua interven\u00e7\u00e3o no conflito. Foi eleita uma comiss\u00e3o constitu\u00edda por tr\u00eas elementos da direc\u00e7\u00e3o da Associa\u00e7\u00e3o e tr\u00eas dos trabalhadores e pediram uma reuni\u00e3o com D. Pedro. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Era a primeira vez que os dirigentes e activistas presentes se confrontavam cara a cara com um patr\u00e3o para negociar. Que sustentavam conversa, e fundamentavam raz\u00f5es, com um burgu\u00eas. Mas, sem chegarem a acordo.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: medium\"><span style=\"color: #000000\">Face ao impasse negocial, a Comiss\u00e3o saiu das negocia\u00e7\u00f5es e dirigiu-se aos jornais di\u00e1rios de Lisboa onde contou as suas raz\u00f5es. Tiveram mais apoio do que esperavam. Torna-se publico que os patr\u00f5es das casas com algum luxo, n\u00e3o s\u00f3 t\u00eam quem os sirva de gra\u00e7a como ainda quem lhes pague certas despesas e reparta com eles a generosidade dos clientes. Muitos jornais publicaram artigos a condenar D. Pedro e o seu ac\u00f3lito \u2018<span style=\"font-family: Arial\"><i>Salmonete\u2019. <\/i><\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Entretanto, a classe foi convocada para reunir e decidir que medidas de ac\u00e7\u00e3o colectiva e de solidariedade levar a cabo. Ao mesmo tempo, a Associa\u00e7\u00e3o voltou a oficiar D. Pedro, instando-o a encontrar-se uma solu\u00e7\u00e3o honrosa.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Alguns grevistas foram substitu\u00eddos devido \u00e0 trai\u00e7\u00e3o de alguns companheiros.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">\u00c0s oito e meia da noite do segundo dia de greve j\u00e1 era grande a aflu\u00eancia de trabalhadores na sede da Associa\u00e7\u00e3o, e a reuni\u00e3o ia come\u00e7ar, quando chegou a resposta de D. Pedro a pedir uma delega\u00e7\u00e3o da Associa\u00e7\u00e3o e outra dos empregados em greve para que se possa falar e chegar a um acordo.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Os trabalhadores remeteram ent\u00e3o uma decis\u00e3o sobre a \u00faltima proposta para a Associa\u00e7\u00e3o que, atendendo a que j\u00e1 havia seis traidores a trabalhar no caf\u00e9, prop\u00f4s um compromisso que implicava n\u00e3o haver repres\u00e1lias sobre os trabalhadores, e a entrada ao servi\u00e7o nas condi\u00e7\u00f5es da \u00faltima proposta do patr\u00e3o, que propunha que em vez de 900 r\u00e9is por dia os trabalhadores pagassem apenas 400. <b><span style=\"text-decoration: underline\"><span style=\"font-family: Arial\">Foi redigido um documento, com as condi\u00e7\u00f5es acordadas, e assinado pelas partes. Terminou assim, a primeira greve e a primeira negocia\u00e7\u00e3o colectiva dos trabalhadores de hotelaria, em Lisboa<\/span><\/span><\/b>.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Regressada \u00e0 sede da Associa\u00e7\u00e3o, a Comiss\u00e3o Negociadora foi ali recebida por uma multid\u00e3o de s\u00f3cios que n\u00e3o tinham arredado p\u00e9, satisfeitos com o resultado da luta.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Passados oito dias, D. Pedro, que pusera a sua assinatura num acordo em que se comprometia a n\u00e3o exercer vingan\u00e7as, falta \u00e0 palavra dada, e despede um trabalhador.<\/span><\/p>\n<p><b><span style=\"text-decoration: underline\"><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Os trabalhadores voltaram \u00e0 greve, desta vez pela readmiss\u00e3o do trabalhador despedido. <\/span><\/span><\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-size: medium\"><span style=\"color: #000000\"><b><span style=\"text-decoration: underline\">A luta no Caf\u00e9 Suisso prolongou-se at\u00e9 ao fim do ano,<\/span><\/b> com a continua\u00e7\u00e3o de muitas manifesta\u00e7\u00f5es de solidariedade. Na maior de todas elas, concentraram-se mais de mil trabalhadores frente ao caf\u00e9, que n\u00e3o ficou com um \u00fanico cliente l\u00e1 dentro, apesar de estar bem guardado pela pol\u00edcia, que seguiu os trabalhadores com um piquete armado, na volta que deram ao Rossio, e que terminou no Largo de S. Domingos, ap\u00f3s interven\u00e7\u00f5es dos dirigentes sindicais.<\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Foram recebidas mensagens de solidariedade da Associa\u00e7\u00e3o de Classe dos Empregados dos Hot\u00e9is, Caf\u00e9s e Restaurantes do Porto. Do Comit\u00e9 Nacional dos Camareros, Cosineros, Reposters e Similares de Madrid, que informavam o que se passava em Espanha com o mesmo patr\u00e3o. Do Centro Cosmopolita do Rio de Janeiro<\/span><a title=\"\" href=\"#_ftn8\"><span style=\"color: #0066cc\">[8]<\/span><\/a><span style=\"color: #000000;font-size: medium\"> e de in\u00fameras associa\u00e7\u00f5es de Lisboa cujos dirigentes se deslocavam diariamente junto dos grevistas.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Os trabalhadores foram reintegrados no princ\u00edpio de 1910. Anos depois, este caf\u00e9 foi dos primeiros a deixar de cobrar parte das gratifica\u00e7\u00f5es aos seus trabalhadores.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: medium\"><span style=\"color: #000000\"><b><span style=\"text-decoration: underline\">Ainda estava fresca na mem\u00f3ria a luta do Suisso, os trabalhadores do Caf\u00e9 Martinho abandonam colectivamente o servi\u00e7o<\/span><\/b>, numa ac\u00e7\u00e3o em que os pr\u00f3prios dizem ser de despedimento, os patr\u00f5es apelidam de greve, e a Associa\u00e7\u00e3o considera um conflito de trabalho.<\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">O motivo foi o aumento da parte das gorjetas que teriam de dar ao patr\u00e3o, e a imposi\u00e7\u00e3o da polival\u00eancia aos Empregados de Mesa, exigindo-se-lhes que fizessem tamb\u00e9m o trabalho de mo\u00e7os de copa.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Este conflito, cheio de perip\u00e9cias, que inclu\u00edram a contrata\u00e7\u00e3o de pessoal no estrangeiro a quem o propriet\u00e1rio, al\u00e9m de deixar ficar com as gorjetas, ainda teve de pagar ordenado, contribuiu para aumentar o clima de agita\u00e7\u00e3o na vida dos caf\u00e9s da Baixa.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: medium\"><span style=\"color: #000000\"><span style=\"font-family: Arial\">\u00a0<\/span>A interven\u00e7\u00e3o en\u00e9rgica da associa\u00e7\u00e3o de classe em defesa dos trabalhadores, trouxe-lhe prest\u00edgio e fez aumentar acima das tr\u00eas centenas o n\u00famero de associados.<\/span><\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><a title=\"\" href=\"#_ftnref8\">[8]<\/a> Associa\u00e7\u00e3o de Classe dos Trabalhadores dos Hot\u00e9is, Caf\u00e9s e Restaurantes do Rio De Janeiro.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">A LUTA PELO DESCANSO SEMANAL \u2013 UMA VIAGEM AO NORTE<\/span><\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-size: medium\"><span style=\"color: #000000\"><b><span style=\"text-decoration: underline\">A lei do descanso semanal, de 7 de Agosto de 1907<\/span><\/b>, elaborada por um governo desp\u00f3tico que apenas quis esvaziar a contesta\u00e7\u00e3o social e ao mesmo tempo, tentar atrair, de momento, as boas gra\u00e7as dos trabalhadores, sem preju\u00edzo dos patr\u00f5es, acabou por se revelar uma burla. Na hotelaria, contam-se pelos dedos os que t\u00eam um dia descanso por semana. Em regra, s\u00f3 por favor e a pedido, \u00e9 que se consegue de tempo a tempo, um dia, para tratar de quest\u00f5es pessoais urgentes. Nas duas ou tr\u00eas casas onde j\u00e1 se cumpre o descanso semanal, este s\u00f3 \u00e9 concedido aos empregados de mesa. Aos cozinheiros, mo\u00e7os e copeiros, a quem os patr\u00f5es t\u00eam de pagar um pequeno sal\u00e1rio, o descanso n\u00e3o \u00e9 concedido.<\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Na assembleia ordin\u00e1ria da Associa\u00e7\u00e3o de Classe onde foram aprovadas as contas e eleitos os corpos gerentes para o ano de 1910, foi decidido que este ano seria um ano de luta pelo descanso semanal. Por isso, foram tamb\u00e9m eleitas na assembleia uma Comiss\u00e3o de Melhoramentos, para proceder \u00e0 ac\u00e7\u00e3o reivindicativa e Comiss\u00f5es de Vigil\u00e2ncia, para cada um dos quatro bairros de Lisboa, a fim de fazerem a fiscaliza\u00e7\u00e3o da aplica\u00e7\u00e3o da lei. <\/span><\/p>\n<p><b><span style=\"text-decoration: underline\"><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">No dia 15 de Agosto de 1910, realiza-se em Lisboa uma Reuni\u00e3o Magna<\/span><a title=\"\" href=\"#_ftn9\"><b><span style=\"text-decoration: underline\"><span style=\"color: #0066cc\">[9]<\/span><\/span><\/b><\/a><span style=\"color: #000000;font-size: medium\"> com o objectivo de discutir a maneira de levar \u00e0 pr\u00e1tica o cumprimento de lei de 7 de Agosto de 1907. Nessa reuni\u00e3o, muito participada, \u00e9 aprovada por aclama\u00e7\u00e3o uma peti\u00e7\u00e3o a ser entregue ao Ministro do Reino<\/span><\/span><\/b><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">. Foi tamb\u00e9m aprovada a ida de uma delega\u00e7\u00e3o ao Porto e a Braga para discutir com os camaradas do Norte a sua participa\u00e7\u00e3o na luta.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">No dia 21 Agosto, realiza-se a Reuni\u00e3o Magna de Braga com a participa\u00e7\u00e3o dos delegados idos de Lisboa, que foram convidados a presidir. Tamb\u00e9m ali a peti\u00e7\u00e3o foi aprovada por unanimidade. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: medium\"><span style=\"color: #000000\">Dia 22, quando a delega\u00e7\u00e3o chegou \u00e0 sede da associa\u00e7\u00e3o do Porto, na rua dos Lavadouros, n\u00ba 12, 1\u00ba,eram quase 2 horas da manh\u00e3, num vasto sal\u00e3o todo iluminado a electricidade, que deslumbrou os lisboetas, esperava-os uma grande assembleia. Nessa assembleia, estavam dirigentes das associa\u00e7\u00f5es dos Tintureiros, das costureiras e Alfaiates e da UGT do Porto, que intervieram. Foi lida a peti\u00e7\u00e3o j\u00e1 aprovada em Lisboa e Braga, e Ant\u00f3nio da Cunha Magalh\u00e3es, Presidente da Associa\u00e7\u00e3o do Porto, foi ovacionado quando terminou a sua interven\u00e7\u00e3o, dizendo: <span style=\"font-family: Arial\"><i>\u2018Lutaremos enquanto tivermos for\u00e7a, porque lutando, sentimo-nos \u2018 felizes\u2019.<\/i><\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">A peti\u00e7\u00e3o foi aprovada por aclama\u00e7\u00e3o, e no fim, os dirigentes de Lisboa foram feitos s\u00f3cios de m\u00e9rito da associa\u00e7\u00e3o do Porto.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">A assembleia terminou \u00e0s 4 e 35 da manh\u00e3.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">No texto da peti\u00e7\u00e3o, demonstra-se que o cumprimento do descanso semanal dar\u00e1 trabalho a muitos desempregados e que uma das raz\u00f5es porque os patr\u00f5es n\u00e3o d\u00e3o o descanso, \u00e9 precisamente para n\u00e3o terem de admitir mais trabalhadores. Pede-se a interven\u00e7\u00e3o do ministro.<\/span><\/p>\n<p><b><span style=\"text-decoration: underline\"><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">No dia 31 de Agosto, a carta com a Peti\u00e7\u00e3o, \u00e9 entregue ao Conselheiro Teixeira de Sousa, Presidente do Conselho de Ministros do Reino.<\/span><\/span><\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-size: medium\"><span style=\"color: #000000\"><b><span style=\"text-decoration: underline\">O advento da Rep\u00fablica a 5 de Outubro, aumentou as expectativas sobre a solu\u00e7\u00e3o do problema <\/span><\/b>e passados os primeiros dias de euforia, os activistas reiniciaram a via-sacra das dilig\u00eancias, junto do novo poder.<\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">A 22 de Novembro, entregam ao Governo Provis\u00f3rio uma peti\u00e7\u00e3o para que a classe seja inequivocamente abrangida pela nova lei do hor\u00e1rio e do descanso, em prepara\u00e7\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Ao Ministro do Interior da Rep\u00fablica, levam uma exposi\u00e7\u00e3o onde esclarecem as raz\u00f5es porque \u00e9 que a lei de Jo\u00e3o Franco tem sido letra morta para a classe. E voltam \u00e0 carga com a den\u00fancia do roubo de parte das gorjetas pelos patr\u00f5es.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Prop\u00f5em que na nova lei em prepara\u00e7\u00e3o, se pro\u00edba o desconto do sal\u00e1rio, da dormida e da comida, relativo ao dia de descanso, e que lhes seja concedida licen\u00e7a para ir casa nesse dia.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Aos deputados constituintes e \u00e0 Comiss\u00e3o de Trabalho da Assembleia da Rep\u00fablica, prop\u00f5em que os estabelecimentos hoteleiros sejam obrigados a encerrar \u00e0s 2 horas, para que n\u00e3o tenham de trabalhar at\u00e9 \u00e0s tr\u00eas quatro da manh\u00e3, sem receber qualquer compensa\u00e7\u00e3o por isso. Avan\u00e7am ainda com a ideia revolucion\u00e1ria de os estabelecimentos poderem encerrar alternadamente, por bairros, elaborando-se para o efeito um mapa controlado pelas autoridades.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">O patronato tamb\u00e9m se movimentava afanosamente, para evitar que a lei os venha a abranger. Numa reuni\u00e3o realizada na rua do Arsenal, com mais de 400 participantes, discutem as formas de fazer oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 sua aplica\u00e7\u00e3o no sector. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Os primeiros meses de 1911 foram meses de intensa actividade. As repres\u00e1lias do patronato come\u00e7avam a fazer-se sentir sobre os dirigentes da Associa\u00e7\u00e3o. Manuel Rodrigues Correia e Joaquim de Almeida Duarte, companheiros de luta desde h\u00e1 quatro anos, foram v\u00edtimas de persegui\u00e7\u00e3o por causa do descanso semanal. Impuseram-no nas casas onde trabalhavam, e acabaram por ser despedidos. Mas isso n\u00e3o os impedia de continuarem a luta.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">No dia 26 de Janeiro, a Associa\u00e7\u00e3o promoveu uma grande Reuni\u00e3o Magna de trabalhadores no vasto sal\u00e3o da Juventud Galicia<\/span><a title=\"\" href=\"#_ftn10\"><span style=\"color: #0066cc\">[10]<\/span><\/a><span style=\"color: #000000;font-size: medium\"> com o objectivo de fazer propaganda do dia de descanso. Nesta reuni\u00e3o foi eleita uma comiss\u00e3o de 21 elementos, para se entender com as Juntas de Par\u00f3quia, para que estas indiquem os estabelecimentos existentes nas respectivas \u00e1reas a fim de serem fiscalizados.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Foi tamb\u00e9m aprovada a realiza\u00e7\u00e3o de um grande com\u00edcio p\u00fablico para nele se demonstrar porque \u00e9 que os trabalhadores de hotelaria n\u00e3o podiam a ser considerados \u2018<i><span style=\"font-family: Arial\">dom\u00e9sticos\u2019.<\/span><\/i> Porque dizer <i><span style=\"font-family: Arial\">\u2018criado\u2019,<\/span><\/i> era o mesmo que dizer escravo. Era preciso rejeitar o ep\u00edteto e a condi\u00e7\u00e3o. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: medium\"><span style=\"color: #000000\"><b><span style=\"text-decoration: underline\">A nova Lei do descanso semanal da Republica foi publicada a 9 de Mar\u00e7o de 1911. <\/span><\/b>Saiu defeituosa, com partes omissas, escaninhos por onde sorrateiramente os manhosos, os burgueses, podiam fugir. Remetia a sua regulamenta\u00e7\u00e3o para as c\u00e2maras municipais, o que era um perigo.<\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Mesmo assim, era melhor que a anterior. Dava compet\u00eancia \u00e1s associa\u00e7\u00f5es de classe para a fiscalizarem e remeterem as respectivas contraven\u00e7\u00f5es para o ju\u00edzo competente, podendo constituir-se em parte acusadora. Introduzia o princ\u00edpio de a ren\u00fancia ao descanso n\u00e3o poder produzir efeito em ju\u00edzo.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: medium\"><span style=\"color: #000000\"><b><span style=\"text-decoration: underline\">No dia 10 de Mar\u00e7o, a C\u00e2mara municipal de Lisboa aprova a regulamenta\u00e7\u00e3o para o seu \u00e2mbito<\/span><\/b>, e alguns patr\u00f5es combinam encerrar para descanso do pessoal, no primeiro Domingo ap\u00f3s a entrada da lei em vigor. Nesse dia hist\u00f3rico, apenas os Restaurantes Estrela de Ouro e Vigia, cumprem a palavra. Os restantes estabelecimentos mantiveram-se abertos.<\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: medium\"><span style=\"color: #000000\"><b><span style=\"text-decoration: underline\">A 20 de Mar\u00e7o, dia de Greve Geral em Lisboa, de solidariedade para com os trabalhadores de Set\u00fabal, v\u00edtimas da repress\u00e3o policial que causou dois mortos, v\u00e1rios feridos, e fez v\u00e1rias pris\u00f5es,<\/span><\/b> os activistas do sindicato de hotelaria distribu\u00edam um suplemento do jornal sobre o descanso semanal, no Chiado, quando um oficial do ex\u00e9rcito prendeu um deles e o levou para o Governo Civil. <\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">A jovem Rep\u00fablica iniciava a sua sanha persecut\u00f3ria contra os trabalhadores.<\/span><\/p>\n<p><i><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">\u00abOs Governos, incapazes, pela sua condi\u00e7\u00e3o de classe, de reconhecer a verdadeira natureza de todo o conflito social, viam na agita\u00e7\u00e3o popular o surto de conjuras contra a Rep\u00fablica, caluniavam militantes oper\u00e1rios de conluios com os mon\u00e1rquicos e reprimiam todos os movimentos reivindicativos ou de protesto com uma brutalidade que, por vezes, imprimia \u00e0s lutas de classes aspectos de guerra civil.\u00bb<\/span><a title=\"\" href=\"#_ftn11\"><b><span style=\"color: #0066cc\">[11]<\/span><\/b><\/a><\/i><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">No dia 30, os patr\u00f5es rejubilam. A C\u00e2mara Municipal de Lisboa cede \u00e0 press\u00e3o e altera o regulamento, para que em vez de 24 horas seguidas para o descanso semanal, como prev\u00ea a lei, passe a poder ser repartido em per\u00edodos de 12 horas, nos restaurantes, casas de pasto e de comidas e bebidas.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">O Hotel Avenida Palace cumpre a lei, e j\u00e1 admitiu mais tr\u00eas <i><span style=\"font-family: Arial\">criados <\/span><\/i>para o conseguir<i><span style=\"font-family: Arial\">.<\/span><\/i> Outros hot\u00e9is se lhe seguiram. Alguns caf\u00e9s fazem o mesmo.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Arial\"><span style=\"font-size: medium\"><span style=\"color: #000000\">\u00a0<b><span style=\"text-decoration: underline\">Na Associa\u00e7\u00e3o elabora-se uma escala que garante a perman\u00eancia di\u00e1ria na sede, de um dirigente, das 3 \u00e1s 5 da tarde e das 9 \u00e1s 11 da noite, para dar esclarecimentos sobre a lei.<\/span><\/b><\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">\u00c9 um corrupio de trabalhadores a quererem saber como proceder para terem direito ao descanso. Mas, ap\u00f3s informados, verifica-se tamb\u00e9m que h\u00e1 muitos que dizem n\u00e3o querer o descanso semanal.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">O facto de o \u00fanico vencimento de muitos ser a comida, a dormida, e as gorjetas, e de se verem perante a circunst\u00e2ncia de no dia de descanso virem a ficar sem aquelas remunera\u00e7\u00f5es, justifica a ren\u00fancia, embora pesarosa, ao direito.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Em Lisboa, Campos Lima<\/span><a title=\"\" href=\"#_ftn12\"><span style=\"color: #0066cc\">[12]<\/span><\/a><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">, grande defensor da causa oper\u00e1ria, \u00e9 nomeado advogado da Associa\u00e7\u00e3o, com o ordenado de 100$000 r\u00e9is por ano.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: medium\"><span style=\"color: #000000\"><b><span style=\"text-decoration: underline\">As principais casas j\u00e1 se vergaram, mas h\u00e1 muitos conflitos. Em 8 de Agosto, d\u00e1-se o primeiro julgamento, relativo ao caso de um Marcador de Bilhares, num botequim da Rua do Jardim Regedor, propriedade de D. Pedro Gonzalez Torres, o c\u00e9lebre dono do Suisso. O sindicato ganha a causa. <\/span><\/b>O regulamento da CML permite o descanso em duas partes de 12 horas para os restaurantes e casas de pasto, mas n\u00e3o para botequins. A sala do tribunal, repleta de s\u00f3cios, regozija com a decis\u00e3o do juiz.<\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Em Setembro de 1911, \u00e9 aprovado em Assembleia-geral o primeiro Caderno Reivindicativo formal da Associa\u00e7\u00e3o, em seis pontos:<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">1 \u2013 N\u00e3o permitir que os patr\u00f5es possam locupletar-se com as gorjetas.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">2 \u2013 Exigir que a alimenta\u00e7\u00e3o seja obrigat\u00f3ria, bem condimentada, fresca e abundante.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">3 \u2013 Que os dormit\u00f3rios re\u00fanam condi\u00e7\u00f5es higi\u00e9nicas, e que cada empregado tenha a sua cama e seja asseada.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">4 \u2013 Que a lei do descanso semanal seja fielmente cumprida.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">5 \u2013 Que as repreens\u00f5es por faltas, sejam feitas com recato e nunca \u00e0 frente dos fregueses.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">6 \u2013 Que nas casas onde as gorjetas sejam individuais passem a ser distribu\u00eddas colectivamente. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Nos peri\u00f3dicos de Lisboa, sai a not\u00edcia da constitui\u00e7\u00e3o da Associa\u00e7\u00e3o dos propriet\u00e1rios de Hot\u00e9is Restaurantes e Caf\u00e9s. Quatro anos depois dos trabalhadores, os patr\u00f5es organizam-se em associa\u00e7\u00e3o. Mas a conquista do princ\u00edpio do dia de descanso semanal pelos trabalhadores \u00e9 irrevers\u00edvel.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div>\n<p><a title=\"\" href=\"#_ftnref9\">[9]<\/a> Assembleia de import\u00e2ncia m\u00e1xima para onde s\u00e3o convocados s\u00f3cios e n\u00e3o s\u00f3cios da Associa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<\/div>\n<div>\n<p><a title=\"\" href=\"#_ftnref10\">[10]<\/a> Colectividade galega muito activa e progressista \u00e0 \u00e9poca.<\/p>\n<\/div>\n<div>\n<p><a title=\"\" href=\"#_ftnref11\">[11]<\/a> Canais Rocha, Francisco, \u00ab<i>Luta de Classes na I Rep\u00fablica\u00bb <\/i>in O<i> Electr\u00e3o<\/i>, Jornal dos Trabalhadores das Industrias El\u00e9ctricas, de Outubro a Dezembro de 2004<\/p>\n<\/div>\n<div>\n<p><a title=\"\" href=\"#_ftnref12\">[12]<\/a> Campos Lima, Jo\u00e3o Evangelista \u2013 Pertenceu \u00e0 Comiss\u00e3o Organizadora do Congresso Cooperativista e Sindicalista de 1909. \u00c9 autor de diversas obras, entre as quais, <i>A Quest\u00e3o Social<\/i>, <i>e O Movimento Oper\u00e1rio em Portugal<\/i>. Recusou ser Governador Civil de Braga e Ministro da Justi\u00e7a.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<\/div>\n<p><b><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">A CLASSE E A REP\u00daBLICA<\/span><\/b><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Em Setembro de 1910, a cintura industrial de Lisboa estava em ebuli\u00e7\u00e3o, paralisada por greves dos corticeiros, dos tanoeiros, garrafeiros e de outras classes. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">A opini\u00e3o p\u00fablica espantava-se com a capacidade de organiza\u00e7\u00e3o dos trabalhadores em luta. Sabiam utilizar o tel\u00e9grafo e as comunica\u00e7\u00f5es permitidas pelo comboio para se manterem em contacto e coordenar a sua ac\u00e7\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Os corticeiros, entre outras reivindica\u00e7\u00f5es, exigiam o fim da exporta\u00e7\u00e3o da corti\u00e7a em bruto e milhares de oper\u00e1rios de 30 f\u00e1bricas de corti\u00e7a concentraram-se no Terreiro do Pa\u00e7o, frente ao Gabinete do Chefe do Governo do Reino, Conselheiro Teixeira de Sousa, que acabou por ceder \u00e0s exig\u00eancias dos grevistas. Pouco depois foram os tanoeiros do Po\u00e7o do Bispo que ocuparam o Terreiro do Pa\u00e7o, obtendo parte das suas reivindica\u00e7\u00f5es, incluindo a exigida protec\u00e7\u00e3o alfandeg\u00e1ria.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">A luta dos trabalhadores atingia um grau de politiza\u00e7\u00e3o at\u00e9 a\u00ed in\u00e9dito em Portugal.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">No Barreiro, a Companhia Uni\u00e3o Fabril (CUF) parou totalmente, o com\u00e9rcio fechou, e os grevistas passaram \u00e0 ac\u00e7\u00e3o directa mais aguda. Destru\u00edram tr\u00eas quil\u00f3metros de linha-f\u00e9rrea, deitaram fogo a dep\u00f3sitos de corti\u00e7a e obrigaram a policia a refugiar-se na esta\u00e7\u00e3o dos correios. A vila esteve por algum tempo nas m\u00e3os dos grevistas.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Em Lisboa, os oper\u00e1rios da Carris e da electricidade arrancavam para a greve. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">A Classe, na hotelaria, com uma associa\u00e7\u00e3o ainda muito jovem, e com muito menor grau de organiza\u00e7\u00e3o e unidade, em compara\u00e7\u00e3o com o operariado coeso dos corticeiros e dos tanoeiros, por exemplo, apesar das suas caracter\u00edsticas mais dispersas por caf\u00e9s restaurante e hot\u00e9is da cidade, encontrava-se profundamente empenhada e mobilizada na luta pela conquista do descanso semanal.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Com a implanta\u00e7\u00e3o da Republica, no dia 5 de Outubro de 1910, Teophilo Braga, antigo tip\u00f3grafo na juventude, e agora eminente professor e escritor, \u00e9 nomeado Chefe do Governo Provis\u00f3rio e do Estado, at\u00e9 a nova constitui\u00e7\u00e3o definir a estrutura do poder pol\u00edtico.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: medium\"><span style=\"color: #000000\"><span style=\"font-family: Arial\">\u00a0<\/span>Ant\u00f3nio Jos\u00e9 de Almeida \u00e9 o Ministro do Interior, que logo no dia 6 de Outubro recebe uma comiss\u00e3o que lhe pede para formar uma Guarda Republicana para defender a Republica, o que ele faz rapidamente a partir da Guarda Municipal existente.<\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Afonso Costa ocupa a pasta da Justi\u00e7a, de onde logo no dia 8 saiem os decretos a extinguir as ordens religiosas. Os republicanos atribu\u00edam \u00e0 Igreja Cat\u00f3lica grande parte da responsabilidade pelo atraso de Portugal, e o anti-clericalismo era grande entre a pequena burguesia e as massas populares urbanas. Com a lei do div\u00f3rcio e da separa\u00e7\u00e3o entre a Igreja e o Estado, entre outras medidas de sua iniciativa, e o seu estilo h\u00e1bil e en\u00e9rgico, Afonso Costa tornar-se-ia rapidamente o politico mais influente da Primeira Republica<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: medium\"><span style=\"color: #000000\"><i>\u2018A Rep\u00fablica, Enfim<\/i>. \u2018 \u00c9 com este t\u00edtulo que o jornal da classe, <i><span style=\"font-family: Arial\">A Defesa,<\/span><\/i> de 15 Outubro de 1910, assinala a implanta\u00e7\u00e3o da Rep\u00fablica. N\u00e3o se pode dizer que o entusiasmo seja excessivo. Dizem os camaradas de ent\u00e3o no editorial do seu jornal:<\/span><\/span><\/p>\n<p><i><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">\u00abSe bem que a classe trabalhadora n\u00e3o tenha no campo pol\u00edtico afirmado as suas ideias por qualquer partido burgu\u00eas, \u00e9 com justificado jubilo que recebemos o advento da Rep\u00fablica, porque ela marca uma primeira \u201c\u00e8tape\u201dpara as aspira\u00e7\u00f5es da emancipa\u00e7\u00e3o humana.<\/span><\/i><\/p>\n<p><i><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Os trabalhadores devem por enquanto dar o seu apoio \u00e0 consolida\u00e7\u00e3o da Republica. Afastados os inimigos, daqui a alguns meses, criar um forte partido. Fazendo aos governos republicanos o que os republicanos foram para a Monarquia.<\/span><\/i><\/p>\n<p><i><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Construir s\u00f3lidos sindicatos, agrup\u00e1-los numa grande confedera\u00e7\u00e3o que estabele\u00e7a rela\u00e7\u00f5es com organiza\u00e7\u00f5es oper\u00e1rias estrangeiras que trabalhem em comum para o aniquilamento do capital e o in\u00edcio de uma sociedade sem famintos.<\/span><\/i><\/p>\n<p><i><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">\u2026N\u00e3o esperar de bra\u00e7os cruzados\u2026A Rep\u00fablica \u00e9 um Estado Burgu\u00eas, por mais perfeito que seja, esmaga os pequeninos, dando aos ricos o melhor quinh\u00e3o no banquete da vida. <\/span><\/i><\/p>\n<p><i><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Preparem os trabalhadores, aquilo que Marx disse. N\u00e3o ser\u00e3o os catedr\u00e1ticos que os emancipar\u00e3o do capitalismo.\u00bb<\/span><\/i><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">N\u00e3o h\u00e1 qualquer outra refer\u00eancia \u00e0 Revolu\u00e7\u00e3o do 5 de Outubro neste n\u00famero do jornal que continua a tratar dos assuntos que v\u00eam de tr\u00e1s da mesma forma.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: medium\"><span style=\"color: #000000\"><span style=\"font-family: Arial\">\u00a0<\/span>Por esta altura, est\u00e1 em prepara\u00e7\u00e3o avan\u00e7ada a festa do segundo anivers\u00e1rio da Associa\u00e7\u00e3o, a 5 de Novembro.<\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Estiveram presentes nas comemora\u00e7\u00f5es e intervieram, representantes das associa\u00e7\u00f5es dos Caixeiros, Manipuladores de P\u00e3o, Vendedores de Leite, Costureiras e Ajuntadeiras, Uni\u00e3o da Constru\u00e7\u00e3o Civil, Tip\u00f3grafos e da Juventud Galicia. As associa\u00e7\u00f5es cong\u00e9neres do Porto e de Braga enviam sauda\u00e7\u00f5es.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">O camarada dos tip\u00f3grafos apresentou uma mo\u00e7\u00e3o que sa\u00fada o ex-colega The\u00f3filo Braga, lembrando-lhe a lacuna do 1\u00ba de Maio, na rela\u00e7\u00e3o dos feriados obrigat\u00f3rios.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Foi tamb\u00e9m saudada a participa\u00e7\u00e3o do amigo Pedro Muralha, na Comiss\u00e3o nomeada pelo Ministro do Interior, Ant\u00f3nio Jos\u00e9 de Almeida, que at\u00e9 \u00e1s Cortes Constituintes tem como miss\u00e3o analisar os conflitos entre trabalhadores e patr\u00f5es.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">O Presidente da Associa\u00e7\u00e3o fez um apelo ao Presidente da Rep\u00fablica para que a classe fosse abrangida pela nova lei do hor\u00e1rio e do descanso semanal, e terminou com vivas \u00e0 unidade da classe oper\u00e1ria.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">A sess\u00e3o solene foi abrilhantada pelo Sexteto Mozart, que participou gratuitamente.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">A orquestra tocou pela primeira vez os hinos da Associa\u00e7\u00e3o e de <i><span style=\"font-family: Arial\">A Defesa, <\/span><\/i>terminando tudo eram quatro da manh\u00e3.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Algum entusiasmo moment\u00e2neo pela Republica resfriaria rapidamente entre os trabalhadores passado um m\u00eas ap\u00f3s o advento.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Quando Manuel de Arriaga foi eleito primeiro presidente constitucional da Rep\u00fablica, o coment\u00e1rio escrito da Associa\u00e7\u00e3o \u00e9 elucidativo. Dizem os camaradas: \u00abN\u00e3o nos importava que o Presidente fosse Sancho ou Pan\u00e7a. O que era preciso era terminar com a graciosa farsa em que o elogio de um candidato \u00e9 o amesquinhamento de todos os outros. A Rep\u00fablica n\u00e3o pode sobreviver sem valorizar o trabalho e esse n\u00e3o \u00e9 o caminho que leva.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">J\u00e1 houve a lei de imprensa, do inquilinato e a do div\u00f3rcio. Uma quantidade de coisas. Mas condi\u00e7\u00f5es de trabalho, protec\u00e7\u00e3o \u00e1s mulheres e menores, assist\u00eancia p\u00fablica, nem v\u00ea-las. Apenas a esburacada lei do descanso semanal.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Nada h\u00e1 a esperar dos camaradas que sonham com as cadeiras ministeriais, mas sim das nossas pr\u00f3prias for\u00e7as.\u00bb<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p><b><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">A VIT\u00d3RIA DOS BIGODES<\/span><\/b><\/p>\n<p><b><span style=\"text-decoration: underline\"><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">O anseio de liberta\u00e7\u00e3o do estigma de \u2018<i><span style=\"font-family: Arial\">criado dom\u00e9stico, <\/span><\/i>de dignifica\u00e7\u00e3o profissional, e de eleva\u00e7\u00e3o no estatuto social, j\u00e1 tinha levado alguns empregados de mesa a fazer greve, e outros a deixar de se empregar por os quererem obrigar a cortar o bigode.<\/span><\/span><\/b><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Foi por isso natural que a leitura de <i><span style=\"font-family: Arial\">El Syndicato <\/span><\/i>\u2013 \u00f3rg\u00e3o dos criados de mesa de Buenos Aires \u2013 onde os camaradas denunciam <i><span style=\"font-family: Arial\">\u00abalguns maricas que assentam em cortar o bigode para servir certas pessoas nobres que agora visitam a Argentina\u00bb<\/span><\/i> tivesse servido de fa\u00edsca para a tomada de medidas na Associa\u00e7\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">A quest\u00e3o foi debatida, seguida da elei\u00e7\u00e3o de uma comiss\u00e3o para ir conferenciar com todos os propriet\u00e1rios de hotel, no sentido de os levar a abdicar da humilhante exig\u00eancia do corte do bigode aos seus empregados.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Na assembleia seguinte, a Comiss\u00e3o informa que os hot\u00e9is Continental, Duas Na\u00e7\u00f5es, Europa, Borges, Alian\u00e7a, Bragan\u00e7a, Central e Durand<i><span style=\"font-family: Arial\">, <\/span><\/i>aceitam que os empregados possam usar bigode. Acrescentam ainda que a propriet\u00e1ria do Durand, uma cidad\u00e3 francesa, fora de uma delicadeza extrema para com a Comiss\u00e3o, dizendo-lhes que ao \u00fanico empregado que tinha sem bigode, mandaria nesse mesmo dia que o passasse a usar.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: medium\"><span style=\"color: #000000\"><b><span style=\"text-decoration: underline\">Ao fim de dois meses de negocia\u00e7\u00f5es, a Comiss\u00e3o do Bigode apresentou-se na Assembleia-geral e comunicou que tinha chegado a acordo com todos os hot\u00e9is de Lisboa,<\/span><\/b> incluindo os renitentes Avenida Palace e Fracfort. A Partir do dia 20 de Dezembro de 1910, todos podem passar a usar bigode.<\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">\u00c9 proposto o envio de uma carta a todas as empresas a dar conhecimento do acordo colectivo, s\u00e3o felicitados os camaradas que j\u00e1 usam bigode, e feito um apelo \u00e0 unidade daqueles que ainda o n\u00e3o usam, incitando-os a passar a usufruir desta nova regalia conquistada pela classe.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Pouco tempo depois, os camaradas do Grand Hotel de It\u00e1lia, no Monte Estoril, escrevem \u00e0 Associa\u00e7\u00e3o a saudar a grande vit\u00f3ria alcan\u00e7ada em Lisboa, e pedem a sua interven\u00e7\u00e3o no Estoril, onde ainda persiste a <i><span style=\"font-family: Arial\">maldita praxe<\/span><\/i> do bigode rapado. S\u00f3 no Grand Hotel de It\u00e1lia \u00e9 que todos usam bigode, dizem: nesta quadra de frio e vento, t\u00eam 70 h\u00f3spedes, enquanto os demais t\u00eam 7 ou 8. J\u00e1 se v\u00ea pois, que n\u00e3o \u00e9 pelo facto de os criados usarem bigode que os h\u00f3spedes deixam de frequentar as casas. N\u00e3o tendo que estar sob o regime humilhante, nem de se disfar\u00e7ar de <i><span style=\"font-family: Arial\">\u2018manequins\u2019 <\/span><\/i>para servir os clientes.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Em Maio desse ano de 1911, na \u00e9poca das contrata\u00e7\u00f5es para as termas e praias, chegou aos ouvidos da Associa\u00e7\u00e3o, que o Sr. Conselheiro, dono do Hotel Palace de Vidago, exigia em contrato, que os criados de mesa cortassem o bigode.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: medium\"><span style=\"color: #000000\"><span style=\"font-family: Arial\">\u00a0<\/span>Em reuni\u00e3o com o grupo que se preparava para ir trabalhar para o Sr. Conselheiro, os elementos da Comiss\u00e3o do Bigode, esclareceram a posi\u00e7\u00e3o da Associa\u00e7\u00e3o: &#8211; Sabemos que alguns camaradas se t\u00eam recusado a fazer contrato para n\u00e3o terem de cortar o bigode. N\u00e3o queremos fazer grande cavalo de batalha sobre o assunto, visto que, depois de uma regalia adquirida para uma classe, os que foram beneficiados, n\u00e3o devem em princ\u00edpio, desistir dessa regalia, que tantos esfor\u00e7os custaram \u00e0 Associa\u00e7\u00e3o.<\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Vidago n\u00e3o \u00e9 assim uma mina t\u00e3o invej\u00e1vel que seja preciso fazer-se t\u00e3o grande sacrif\u00edcio, para se ser um simples empregado de mesa de uma empresa cujos lucros s\u00e3o para aqueles que, retorcendo o seu grande bigode, e repimpados na sua poltrona, n\u00e3o querem conceder aos empregados o uso de um adorno com que a natureza os dotou. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Pela nossa parte, aconselhamos todos a n\u00e3o aceitar a imposi\u00e7\u00e3o. Porque ser\u00e1 assim que vencer\u00e3o a causa. E ent\u00e3o, veremos os h\u00f3spedes do Palace Hotel ser servidos por um criado sem bigode, chamado \u2018<i><span style=\"font-family: Arial\">Conselheiro\u2019<\/span><\/i>.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: medium\"><span style=\"color: #000000\">Hoje, em tempos em que a cara rapada leva a palma ao uso do bigode, podemos achar ex\u00f3tico, tanto ardor e luta pelo uso do famoso adorno capilar. A verdade \u00e9 que naquele tempo foi uma conquista que dignificou os trabalhadores e a sua associa\u00e7\u00e3o de classe. Deu origem ao segundo processo de negocia\u00e7\u00e3o colectiva conhecido, em Lisboa. E,<span style=\"font-family: Arial\"><b><span style=\"text-decoration: underline\"> nos anos que se seguiram, sempre que era caso de enumerar as regalias conquistadas, l\u00e1 estava nos primeiros lugares a regalia do bigode.<\/span><\/b><\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b><i><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">UM SINDICALISMO REIVINDICATIVO E REVOLUCION\u00c1RIO NA REP\u00daBLICA<\/span><\/i><\/b><\/p>\n<p><b><span style=\"text-decoration: underline\"><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Entre os activistas fundadores do sindicato existiam elementos de todas as correntes politico-ideol\u00f3gicas da \u00e9poca, como \u00e9 natural. Socialistas, ligados ao Partido Socialista, Sindicalistas Revolucion\u00e1rios, adeptos dos princ\u00edpios estabelecidos na Carta de Amiens pelos sindicalistas franceses em 1906, e Anarquistas.<\/span><\/span><\/b><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Claro que a maioria dos trabalhadores e mesmo muitos activistas, n\u00e3o tinham partido nem ideologia definida. Acompanhavam os que a tinham e que predominavam em cada situa\u00e7\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">No per\u00edodo da funda\u00e7\u00e3o, o que escreviam, as discuss\u00f5es e reivindica\u00e7\u00f5es que faziam e na ac\u00e7\u00e3o que desenvolviam, predominavam as ideias de revolu\u00e7\u00e3o social, de combate ao capital e \u00e0s institui\u00e7\u00f5es burguesas<b><i><span style=\"font-family: Arial\">. <\/span><\/i><\/b>O ideal de uma sociedade sem explorados nem exploradores.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: medium\"><span style=\"color: #000000\"><b><span style=\"text-decoration: underline\">Karl Marx era o te\u00f3rico mais citado e <\/span><\/b>o que permanece ao longo do tempo, mas tamb\u00e9m Kropotkine, de quem publicam no jornal, em folhetins, \u00abAs Pris\u00f5es\u00bb. E ainda, Bakunine, Malatesta, Bebel, Victor Hugo e Em\u00edlio Zola, entre outros.<\/span><\/span><\/p>\n<p><b><span style=\"text-decoration: underline\"><span style=\"font-size: medium\"><span style=\"color: #000000\">O n\u00ba 1 do jornal da classe, <i><span style=\"font-family: Arial\">A Defesa, <\/span><\/i>de 1 de Janeiro de 1910, imprime como divisa, no rodap\u00e9 da primeira p\u00e1gina, a defini\u00e7\u00e3o de Marx: <span style=\"font-family: Arial\"><i>\u2018o capital \u00e9 o trabalho n\u00e3o pago\u2019.<\/i><\/span><\/span><\/span><\/span><\/b><\/p>\n<p><b><span style=\"text-decoration: underline\"><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">A linha mais influente no sindicato, entre 1907 e 1914, foi a dos sindicalistas revolucion\u00e1rios, com uma pitada de anarquismo e outra de reformismo. Foram desde o in\u00edcio avessos \u00e0 participa\u00e7\u00e3o dos partidos enquanto tal na vida sindical. <\/span><\/span><\/b><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">O cooperativismo e o mutualismo tamb\u00e9m est\u00e3o presentes desde o in\u00edcio, e entram mesmo pelo per\u00edodo fascista adentro. As cooperativas s\u00e3o apresentadas, quer como formas de organizar a solidariedade quer como formas de liberta\u00e7\u00e3o e de transforma\u00e7\u00e3o da sociedade. E, \u00e1s vezes, sob a forma utilit\u00e1ria de arranjar trabalho para os perseguidos por quest\u00f5es sociais, ou de combate \u00e0 especula\u00e7\u00e3o e ao a\u00e7ambarcamento de g\u00e9neros. Foram constitu\u00eddas algumas a longo do tempo, embora sem grande sucesso.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">A educa\u00e7\u00e3o como caminho para a liberta\u00e7\u00e3o era outra ideia constante: Da divulga\u00e7\u00e3o da instru\u00e7\u00e3o entre a classe nascer\u00e1 a consci\u00eancia colectiva que saber\u00e1 defender e defender\u00e1 os direitos. Entre esses direitos avulta o descanso semanal. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">A solidariedade de classe e humana s\u00e3o um tra\u00e7o forte e permanente nas pr\u00e1ticas da Associa\u00e7\u00e3o. Em Janeiro de 1910, solidarizam-se com os trabalhadores da C\u00e2mara Municipal de Lisboa que lutam contra o trabalho \u00e0 tarefa e de empreitada, por ser prec\u00e1rio, e fazem uma subscri\u00e7\u00e3o de fundos para enviar aos pescadores da Afurada cujos barcos foram destru\u00eddos por um vendaval. Os trabalhadores do Hotel Borges angariam 5$200 r\u00e9is para um camarada doente. Em Junho, vendem bilhetes de solidariedade a 100 r\u00e9is, para um sarau na sala dos tip\u00f3grafos, a favor dos tecel\u00f5es do Porto, em greve.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Para os corticeiros de Almada em greve e com um dirigente preso, a Assembleia-geral decide enviar dinheiro e comida.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Mais adiante, solidarizam-se com o Dr. Kotoku, sua companheira e mais doze camaradas, executados no Jap\u00e3o por espalharem doutrinas de emancipa\u00e7\u00e3o humana, e com dezasseis marinheiros que no Brasil se revoltam contra os castigos corporais, e foram assassinados pela fome em masmorras imundas.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">As pr\u00e1ticas associativas s\u00e3o tamb\u00e9m as de todo o movimento sindical da \u00e9poca. Realizam assembleias-gerais quase todos os meses, onde participam regularmente entre 60 e 90 associados. E, grandes reuni\u00f5es magnas de protesto, ou para decidir as lutas, abertas a todos os trabalhadores, mesmo n\u00e3o associados, em que chegam a participar centenas.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">H\u00e1 elei\u00e7\u00f5es para os corpos gerentes e para a comiss\u00e3o de melhoramentos, todos os anos em Janeiro. A rota\u00e7\u00e3o \u00e9 grande. Por vezes os activistas mais prestigiados na classe n\u00e3o fazem parte dos \u00f3rg\u00e3os eleitos, mas continuam a exercer a sua influ\u00eancia atrav\u00e9s da participa\u00e7\u00e3o nas assembleias e do que escrevem no jornal.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: medium\"><span style=\"color: #000000\">Foi pois sem grande conflituosidade entre si, que <span style=\"font-family: Arial\"><b><span style=\"text-decoration: underline\">em 4 de Julho de 1909, abandonaram a Sala Algarve da Sociedade de Geografia, onde decorria a sess\u00e3o inaugural do Congresso Nacional Oper\u00e1rio, presidido por Azedo Gneco. Como sindicalistas, discordavam da participa\u00e7\u00e3o de delegados pertencentes ao Partido Socialista e entendiam que s\u00f3 deveriam participar delegados das associa\u00e7\u00f5es de classe e das cooperativas e mutuas no congresso.<\/span><\/b><\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p><b><span style=\"text-decoration: underline\"><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Por isso, sa\u00edram com a corrente minorit\u00e1ria e vieram a participar no Congresso Sindical e Cooperativista de 1909, cuja \u00faltima sess\u00e3o, a vig\u00e9sima, se realizou na sede da Caixa Econ\u00f3mica Oper\u00e1ria, \u00e0 Gra\u00e7a, em Lisboa, a 6 de Janeiro de 1910.<\/span><\/span><\/b><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Os ideais de emancipa\u00e7\u00e3o, a melhoria das condi\u00e7\u00f5es materiais e de bem-estar, a educa\u00e7\u00e3o e a solidariedade, a luta directa sem interpostas pessoas para realizar estes fins, o refor\u00e7o associativo e as formas de organiza\u00e7\u00e3o, associa\u00e7\u00f5es de classe ou sindicatos, federa\u00e7\u00f5es de ind\u00fastria e de of\u00edcios, uni\u00f5es de sindicatos e Confedera\u00e7\u00e3o Geral do Trabalho, constam das teses aprovadas neste congresso. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">\u00abDe facto, o embri\u00e3o de princ\u00edpios e fins pol\u00edticos, ideol\u00f3gicos e de organiza\u00e7\u00e3o e ac\u00e7\u00e3o, que ainda hoje prevalecem no movimento sindical portugu\u00eas, com naturais desenvolvimentos e aperfei\u00e7oamentos, evidentemente\u00bb.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Ao apreciar as teses do congresso, em reuni\u00e3o da Comiss\u00e3o Executiva da Associa\u00e7\u00e3o, considera-se terem sido discutidas quest\u00f5es importantes para a classe, mas ao mesmo tempo, lamenta-se de forma corrosiva, que n\u00e3o tenha deixado de ser como outros congressos que se t\u00eam realizado no pa\u00eds: congressos um pouco <i><span style=\"font-family: Arial\">sport<\/span><\/i>, em que se exibem determinados cabotinos e outros <i><span style=\"font-family: Arial\">parvenus<\/span><\/i>, sedentos de celebridade social, e de verem estampados os seus obscuros nomes nas gazetas de grande circula\u00e7\u00e3o, salvo as excep\u00e7\u00f5es, claro.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Estavam magoados com alguns camaradas oper\u00e1rios, que os consideram burgueses: s\u00f3 se fosse por usarem <i><span style=\"font-family: Arial\">smoking<\/span><\/i> e luvas brancas no trabalho. Eram aprecia\u00e7\u00f5es parvas e muito injustas que iriam combater. O facto de n\u00e3o usarmos fato de macaco n\u00e3o faz com que sejamos menos oper\u00e1rios do que eles, dizem.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Quando a Rep\u00fablica foi proclamada no dia 5 de Outubro de 1910, Lisboa e os seus arredores estavam numa grande ebuli\u00e7\u00e3o social provocada pelas greves e manifesta\u00e7\u00f5es oper\u00e1rias, que exigiam melhores sal\u00e1rios e redu\u00e7\u00e3o do hor\u00e1rio de trabalho.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">A queda da Monarquia e o benef\u00edcio da d\u00favida dado pelos oper\u00e1rios ao novo regime republicano acalmaram os \u00e2nimos e alimentaram expectativas durante algum tempo. Mas n\u00e3o tardou que as ilus\u00f5es se desvanecessem. Os activistas sindicais perceberam rapidamente que, mesmo com os republicanos, que enchiam a boca com palavras como justi\u00e7a social e se afirmavam socialistas e amigos dos oper\u00e1rios, os direitos e a melhoria das condi\u00e7\u00f5es de trabalho n\u00e3o cairiam do c\u00e9u. Tinham de lutar para os obter.<\/span><\/p>\n<p><b><span style=\"text-decoration: underline\"><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Em Janeiro, inicia-se a fase preparat\u00f3ria do congresso sindicalista de 1911.<\/span><\/span><\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-size: medium\"><span style=\"color: #000000\"><span style=\"font-family: Arial\">\u00a0<\/span>Para este Congresso, que tinha ficado desde logo convocado pelo de 1909 para o ano seguinte, ano em que n\u00e3o se realizou devido \u00e0 implanta\u00e7\u00e3o da Republica, foram eleitos como delegados da Associa\u00e7\u00e3o, Luciano Gil Montes e Manuel Fernandes Lopes, e Manuel Rodrigues Correia, em representa\u00e7\u00e3o de <i><span style=\"font-family: Arial\">A Defesa.<\/span><\/i> Os jornais sindicais tinham direito a estar representados por um delegado.<\/span><\/span><\/p>\n<p><b><span style=\"text-decoration: underline\"><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">A Associa\u00e7\u00e3o declarou a representa\u00e7\u00e3o de 570 associados<\/span><a title=\"\" href=\"#_ftn13\"><b><span style=\"text-decoration: underline\"><span style=\"color: #0066cc\">[13]<\/span><\/span><\/b><\/a><\/span><\/b><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">. Do Porto participaram a Associa\u00e7\u00e3o dos Empregados dos Hot\u00e9is, Caf\u00e9s e restaurantes, com 242 associados e a Associa\u00e7\u00e3o dos Corretores de Hot\u00e9is, em representa\u00e7\u00e3o de 78 s\u00f3cios<\/span><a title=\"\" href=\"#_ftn14\"><span style=\"color: #0066cc\">[14]<\/span><\/a><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: medium\"><span style=\"color: #000000\"><b><span style=\"text-decoration: underline\">O congresso teve a sua sess\u00e3o de abertura, dia 7 de Maio, e realizou-se na Sala da Associa\u00e7\u00e3o dos Tip\u00f3grafos \u00e0 rua de S. Bento.<\/span><\/b> Da ordem de trabalhos constavam tr\u00eas teses:<\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000\"><span style=\"font-family: Arial;font-size: medium\">1-<\/span>\u00a0\u00a0\u00a0 <span style=\"font-size: medium\">Princ\u00edpios Gerais de Organiza\u00e7\u00e3o; 2 &#8211; Greves e Arbitragem; 3 \u2013 Legisla\u00e7\u00e3o Oper\u00e1ria.<\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: medium\"><span style=\"color: #000000\"><b><span style=\"text-decoration: underline\">Foi uma festa na Associa\u00e7\u00e3o pelo facto de Luciano Gil Montes ter sido eleito para a Comiss\u00e3o Executiva do Congresso Sindicalista.<\/span><\/b> Era o reconhecimento pleno da organiza\u00e7\u00e3o dos trabalhadores dos hot\u00e9is, caf\u00e9s e restaurantes, por parte das outras associa\u00e7\u00f5es oper\u00e1rias.<\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Bem o merecem, pensam. Participam no Primeiro de Maio todos os anos, e fazem sair sempre um n\u00famero especial do jornal, em regra todo impresso a vermelho, onde se indicam os locais dos com\u00edcios, se homenageiam os m\u00e1rtires de Chicago e relembram os objectivos da luta dos oper\u00e1rios americanos e de todo o mundo, em particular os 8x8x8. Oito horas de trabalho di\u00e1rio, oito de lazer, oito para descansar e descanso semanal ao Domingo.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: medium\"><span style=\"color: #000000\"><span style=\"font-family: Arial\">\u00a0<\/span>Aos trabalhadores de hotelaria, que por trabalharem ainda entre 15 e 20 horas di\u00e1rias n\u00e3o acreditam em tal reivindica\u00e7\u00e3o, muitos at\u00e9 rindo-se dela, tomaram eles ter 14 horas e um dia de descanso por semana, lembram que tal hor\u00e1rio n\u00e3o \u00e9 imposs\u00edvel, pois que os camaradas americanos, embora \u00e0 custa de muita luta, e de muitos mortos e feridos, j\u00e1 o tinham conseguido.<\/span><\/span><\/p>\n<p><b><span style=\"text-decoration: underline\"><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Um dos primeiros trabalhos em que a Comiss\u00e3o Executiva eleita no congresso sindicalista se lan\u00e7ou foi o de promover a constitui\u00e7\u00e3o, em Lisboa, da Uni\u00e3o dos Sindicatos Oper\u00e1rios<\/span><a title=\"\" href=\"#_ftn15\"><b><span style=\"text-decoration: underline\"><span style=\"color: #0066cc\">[15]<\/span><\/span><\/b><\/a><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">.<\/span><\/span><\/b><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Luciano Gil Montes, na sua qualidade de membro Comiss\u00e3o Executiva do Congresso, prop\u00f4s na Associa\u00e7\u00e3o que se filiassem na Uni\u00e3o, e aceitassem o convite desta para se instalarem na sede conjunta com outras associa\u00e7\u00f5es de classe. O que foi discutido e aprovado por unanimidade na assembleia-geral. A assembleia atribuiu ainda a Gil Montes a responsabilidade da instala\u00e7\u00e3o e explora\u00e7\u00e3o de um caf\u00e9 na Casa Sindical.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Foi com grande entusiasmo que se lan\u00e7aram na campanha de recolha de fundos em curso, para apoio \u00e0 instala\u00e7\u00e3o da nova sede, para a qual obtiveram 57$050 r\u00e9is. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">N<b><span style=\"text-decoration: underline\"><span style=\"font-family: Arial\">o final do ano de 1911, mudaram-se do Po\u00e7o do Borrat\u00e9m para a Casa Sindical instalada no pal\u00e1cio onde vivera o Marqu\u00eas de Pombal, <\/span><\/span><\/b>edifico com amplas e numerosas depend\u00eancias e uma entrada sumptuosa, na <\/span><b><span style=\"text-decoration: underline\"><span style=\"color: #000000;font-family: Arial;font-size: medium\">Rua do S\u00e9culo, n\u00ba 85, ao Bairro Alto. Alem da Comiss\u00e3o Executiva do Congresso Sindicalista e da Uni\u00e3o, instalaram-se ali mais trinta e quatro associa\u00e7\u00f5es de classe e os jornais oper\u00e1rios <\/span><i><span style=\"color: #000000;font-family: Arial;font-size: medium\">A Defesa, O Constructor e O Sindicalista.<\/span><a title=\"\" href=\"#_ftn16\"><b><span style=\"text-decoration: underline\"><span style=\"color: #0066cc\">[16]<\/span><\/span><\/b><\/a><\/i><\/span><\/b><\/p>\n<p><b><span style=\"text-decoration: underline\"><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">A inaugura\u00e7\u00e3o da <i><span style=\"font-family: Arial\">Casa Sindical <\/span><\/i>\u2013 assim se passou a denominar \u2013 fez-se festivamente nos dias 31 de Dezembro de 1911 e 1 de Janeiro de 1912.<\/span><a title=\"\" href=\"#_ftn17\"><b><span style=\"text-decoration: underline\"><span style=\"color: #0066cc\">[17]<\/span><\/span><\/b><\/a><\/span><\/b><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Na sess\u00e3o de inaugura\u00e7\u00e3o, falaram dois oper\u00e1rios espanh\u00f3is que haviam sido expulsos de Cuba, grandes oradores, um oper\u00e1rio da constru\u00e7\u00e3o civil francesa e diversos sindicalistas portugueses, entre os quais o primeiro Secret\u00e1rio-geral da Uni\u00e3o, o tip\u00f3grafo Jos\u00e9 Maria Gon\u00e7alves, e pela Comiss\u00e3o Executiva, Carlos Rates, e o advogado da Associa\u00e7\u00e3o, Dr. Campos Lima.<\/span><\/p>\n<p><b><span style=\"text-decoration: underline\"><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Nos primeiros dias de Janeiro, desencadeia-se em \u00c9vora, uma greve de oper\u00e1rios agr\u00edcolas contra o desrespeito de uma tabela salarial ainda havia pouco tempo acordada com os agr\u00e1rios. As autoridades respondem \u00e0 luta dos agr\u00edcolas com o encerramento da sua associa\u00e7\u00e3o.<\/span><\/span><\/b><\/p>\n<p><b><span style=\"text-decoration: underline\"><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Face a esta repress\u00e3o, as associa\u00e7\u00f5es oper\u00e1rias de \u00c9vora proclamam a greve geral no dia 13 de Janeiro, greve que abrange mais de 20000 trabalhadores de ambos os sexos.<\/span><a title=\"\" href=\"#_ftn18\"><b><span style=\"text-decoration: underline\"><span style=\"color: #0066cc\">[18]<\/span><\/span><\/b><\/a><span style=\"color: #000000;font-size: medium\"> O Governo encerrou as sedes de todas as associa\u00e7\u00f5es da cidade e mandou o ex\u00e9rcito e a GNR carregar sobre os grevistas, ferindo muitos destes e assassinando um trabalhador rural.<\/span><\/span><\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-size: medium\"><span style=\"color: #000000\"><b><span style=\"text-decoration: underline\">Esta ac\u00e7\u00e3o brutal do Governo da Rep\u00fablica gerou uma onda de indigna\u00e7\u00e3o que levou \u00e0 declara\u00e7\u00e3o da greve geral de solidariedade, em Lisboa, no dia 28 de Janeiro. <\/span><\/b>Greve de grande impacto na capital, e que foi seguida em diversos pontos do Pais, particularmente em Set\u00fabal, Montijo e na Moita, onde o Administrador do Concelho foi morto pela popula\u00e7\u00e3o revoltada.<\/span><\/span><\/p>\n<p><b><span style=\"text-decoration: underline\"><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Dias 29 e 30 de Janeiro, Lisboa esteve completamente paralisada, com concentra\u00e7\u00f5es e desfiles de oper\u00e1rios pelas principais ruas e pra\u00e7as da cidade.<\/span><\/span><\/b><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Na noite de 30 de Janeiro, uma aut\u00eantica multid\u00e3o concentrou-se na Casa Sindical, a aguardar not\u00edcias do resultado das negocia\u00e7\u00f5es sobre a liberta\u00e7\u00e3o de presos e a reabertura das sedes sindicais de \u00c9vora.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Nas amplas instala\u00e7\u00f5es, na escadaria e por salas e gabinetes, uns dormiam a sono solto, outros tomavam tranquilamente o seu caf\u00e9, outros ainda conversavam ou discutiam animadamente sobre o curso dos acontecimentos.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Trai\u00e7oeiramente, o Governo, ao mesmo tempo que negociava com as comiss\u00f5es oper\u00e1rias, deu ordens ao ex\u00e9rcito para cercar a Casa Sindical, num aparato militar absolutamente desproporcionado que inclu\u00eda mesmo uma bateria de artilharia.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">A porta principal do edif\u00edcio estava guardada por um piquete de vinte trabalhadores, que tinham como miss\u00e3o principal evitar que algum activista mais exaltado provocasse as for\u00e7as militares presentes e lhes desse o pretexto para avan\u00e7arem. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">\u00c1s tr\u00eas da manh\u00e3, aproximam-se da porta da Casa Sindical dois vultos que param \u00e0 dist\u00e2ncia e perguntam em voz alta ao piquete se n\u00e3o querem parlamentar.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Os sindicalistas Alexandre Vieira e S\u00e1 J\u00fanior, electricista, destacam-se do piquete e seguem os emiss\u00e1rios at\u00e9 ao comandante das for\u00e7as sitiantes, a quem, depois de instados, declaram estar dispostos a sair da sede sindical, sem deixarem de estranhar que estando uma comiss\u00e3o sindical a negociar com o Governo uma solu\u00e7\u00e3o para a greve sejam intimados a abandonar a sua pr\u00f3pria casa. A esta hora ainda n\u00e3o sabiam que a comiss\u00e3o tinha sido presa.<\/span><\/p>\n<p><b><span style=\"text-decoration: underline\"><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">A comiss\u00e3o sindical, que tinha por incumb\u00eancia avistar-se com o Governo, foi detida pela tropa.<\/span><\/span><\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-size: medium\"><span style=\"color: #000000\"><b><span style=\"text-decoration: underline\">\u00c1s quatro da manh\u00e3, os trabalhadores presentes come\u00e7am a ser organizados em levas, <\/span><\/b>num aparato militar rid\u00edculo por exagerado. Pois de in\u00edcio, de cada lado de um oper\u00e1rio, postava-se um soldado armado. A ilumina\u00e7\u00e3o p\u00fablica foi apagada e, <b><span style=\"text-decoration: underline\"><span style=\"font-family: Arial\">debaixo de chuva, cerca de 700 homens e mulheres, a cantar a Internacional, s\u00e3o obrigados a sair do Pal\u00e1cio Marqu\u00eas de Pombal<\/span><\/span><\/b>, depois de lhes terem retirado os chap\u00e9us-de-chuva e as bengalas, <span style=\"font-family: Arial\"><b><span style=\"text-decoration: underline\">s\u00e3o metidos entre cord\u00f5es de soldados da GNR, armados de espingardas, e levados para a Penitenci\u00e1ria, para o Limoeiro e para bordo do navio <i>P\u00earo de Alenquer<\/i>, fundeado no Tejo. <\/span><\/b><\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p><b><span style=\"text-decoration: underline\"><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">A bordo do <i><span style=\"font-family: Arial\">P\u00earo de Alenquer<\/span><\/i>, que n\u00e3o reunia condi\u00e7\u00f5es para alojar 100 pessoas, estiveram detidas, durante 15 dias, cerca de 500<\/span><\/span><\/b><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">, tendo parte delas transitado depois para penitenci\u00e1ria e para o Limoeiro.<\/span><a title=\"\" href=\"#_ftn19\"><span style=\"color: #0066cc\">[19]<\/span><\/a><\/p>\n<p><b><span style=\"text-decoration: underline\"><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Luciano Gil Montes e Manuel Correia de Figueiredo, dirigentes sindicais de hotelaria, e Jos\u00e9 Vasques Montes, tamb\u00e9m pertencente \u00e0 classe, fizeram parte da leva de camaradas que foram presos, e estiveram na Pris\u00e3o do Limoeiro, 39 dias, sem culpa formada.<\/span><\/span><\/b><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">A direc\u00e7\u00e3o da Associa\u00e7\u00e3o convoca uma reuni\u00e3o de emerg\u00eancia para a rua da Rosa n\u00ba 25, para se decidir o que fazer face ao encerramento da sede e \u00e0 pris\u00e3o dos camaradas. Nessa reuni\u00e3o \u00e9 rejeitada a acusa\u00e7\u00e3o infame do Governo, de que a greve geral era reaccion\u00e1ria e Pr\u00f3-Mon\u00e1rquica. \u00c9 repudiado o encarceramento de honrados trabalhadores, nas enxovias, juntamente com fac\u00ednoras de toda a esp\u00e9cie, e aprovada a ida para uma pequena instala\u00e7\u00e3o provis\u00f3ria na Rua do Ferragial de Baixo, n\u00ba12. Decide-se fazer um abaixo-assinado, a exigir a liberta\u00e7\u00e3o dos presos e uma subscri\u00e7\u00e3o de angaria\u00e7\u00e3o de dinheiro para apoiar os camaradas presos no Limoeiro e as suas fam\u00edlias. A classe correspondeu em peso com a solidariedade, e at\u00e9 alguns patr\u00f5es fizeram quest\u00e3o de assinar os documentos e de contribuir financeiramente. Foram recolhidos 40$800 r\u00e9is, que foram entregues aos tr\u00eas camaradas presos.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: medium\"><span style=\"color: #000000\"><b><span style=\"text-decoration: underline\">No final da primeira quinzena de Mar\u00e7o, a Associa\u00e7\u00e3o festeja a liberta\u00e7\u00e3o dos tr\u00eas camaradas presos<\/span><\/b>, saudando-os, ao mesmo tempo que invectiva o Governo a garantir um clima de paz para que os turistas e os viajantes frequentem o pa\u00eds, em vez de prender os oper\u00e1rios que deram o corpo ao manifesto na Rotunda, pela implanta\u00e7\u00e3o da Republica.<\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">No fim do m\u00eas, o Governador Civil de Lisboa mandou entregar as chaves da Casa Sindical, constituindo-se uma delega\u00e7\u00e3o com elementos de todas as associa\u00e7\u00f5es para os receber, convidando-se a imprensa para assistir ao acto. A delega\u00e7\u00e3o, acabou por se transformar numa multid\u00e3o, que foi assistir \u00e0 reabertura da sede sindical.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Ao entrarem no Pal\u00e1cio Marqu\u00eas de Pombal, os activistas deparam-se com um espect\u00e1culo degradante: Pelas salas e gabinetes havia montes de pap\u00e9is e cartas rasgadas, garrafas e cadeiras partidas, portas arrombadas, pias entulhadas, uma aut\u00eantica selvajaria. No Bufete, as bebidas, e at\u00e9 os talheres, tinham desaparecido. As instala\u00e7\u00f5es dos jornais <i><span style=\"font-family: Arial\">O Sindicalista <\/span><\/i>e <i><span style=\"font-family: Arial\">A Defesa<\/span><\/i> n\u00e3o escaparam ao vandalismo da destrui\u00e7\u00e3o, tendo desaparecido o melhor gale\u00e3o de ferro zincado que a tipografia possu\u00eda.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">O sossego foi sol de pouca dura na Casa Sindical. Ainda mal tinham acabado de limpar a casa e restaurar os estragos, com trabalho militante, quando foram alvo de uma ac\u00e7\u00e3o judicial de despejo por n\u00e3o terem pago a renda, no dia um de Fevereiro, conforme a lei estabelecia. Ora, a renda n\u00e3o tinha sido paga na data certa porque naquela altura os sindicalistas estavam todos presos. Nem por isso houve contempla\u00e7\u00e3o, e as autoridades, apressaram-se a fazer cumprir a ordem de despejo.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Os sindicatos tiveram de arranjar outra sede, e <b><span style=\"text-decoration: underline\"><span style=\"font-family: Arial\">no dia 1\u00ba de Maio mudam-se para a Rua dos Prazeres, n\u00ba 39 a 41 (\u00e0 Pra\u00e7a das Flores).<\/span><\/span><\/b> A Associa\u00e7\u00e3o e outras, l\u00e1 foram novamente com a mob\u00edlia \u00e1s costas.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Com a justifica\u00e7\u00e3o formal de o espa\u00e7o ser reduzido nas novas instala\u00e7\u00f5es, e de estas estarem afastadas da zona onde se encontram os principais estabelecimentos hoteleiros, Manuel Rodrigues Correia, que j\u00e1 tinha feito reactivar com a mesma justifica\u00e7\u00e3o o andar da rua do Po\u00e7o Borrat\u00e9m, prop\u00f5e em Assembleia-geral, a sa\u00edda da Casa Sindical. Gera-se uma forte discuss\u00e3o entre um grupo de associados que apoia a proposta e outro, em torno de Gil Montes, que est\u00e1 contra, e acusa Correia de querer sair da Uni\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Vence a proposta de se sair, com a reafirma\u00e7\u00e3o de continuidade da filia\u00e7\u00e3o na Uni\u00e3o dos Sindicatos.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">\u00c9 assim que, <b><span style=\"text-decoration: underline\"><span style=\"font-family: Arial\">em Junho, volta a haver mudan\u00e7a de casa<\/span><\/span><\/b>, <b><span style=\"text-decoration: underline\"><span style=\"font-family: Arial\">sendo desta vez a nova sede, conjunta com outras nove associa\u00e7\u00f5es, na Casa do Povo, Travessa da \u00c1gua de Flor, 55<\/span><\/span><\/b>, onde se julgavam mais abrigados da persegui\u00e7\u00e3o das autoridades, por n\u00e3o estarem juntos com a uni\u00e3o, cuja actividade, mais politizada, dava mais nas vistas.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Aqui ficou instalada a sede, durante cerca de ano e meio, at\u00e9 que a 19 de Novembro de 1913, alguns activistas que como habitualmente se dirigiam \u00e0 Casa do Povo para abrir as portas, depararam com as portas dos seus gabinetes seladas pelas autoridades.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">De imediato uma delega\u00e7\u00e3o das diversas associa\u00e7\u00f5es ali sedeadas dirigiu-se ao Governo Civil, para protestar e pedir explica\u00e7\u00f5es. Recebidos pelo Governador, ouviram deste a espantosa resposta: \u2018<i><span style=\"font-family: Arial\">n\u00e3o contem comigo para engolir a ordem que dei. E fiquem a saber que a autoridade quando interv\u00e9m \u00e9 sempre brutal\u2019<\/span><\/i>. E n\u00e3o disse qual o motivo por que tinha mandada encerrar as associa\u00e7\u00f5es. Apenas que tinha cumprido ordens do Governo, o que equivalia a dizer, ordens do irm\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Afonso Costa, Chefe do Governo, por esta altura j\u00e1 tinha sido baptizado pela opini\u00e3o p\u00fablica com o cognome de: o <i><span style=\"font-family: Arial\">Racha Sindicalistas<\/span><\/i> devido \u00e0 brutalidade com que mandava reprimir os activistas sindicais.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Na continua\u00e7\u00e3o das dilig\u00eancias, conseguiram avistar-se em 6 de Dezembro com o Ministro do Interior, que os informou que num processo que lhe fora presente, as associa\u00e7\u00f5es instaladas na Casa do Povo constitu\u00edam uma uni\u00e3o, e que por isso, tinha consultado a Procuradoria da Rep\u00fablica sobre a legalidade da situa\u00e7\u00e3o, tendo a Procuradoria respondido que n\u00e3o havia enquadramento legal para a constitui\u00e7\u00e3o de uni\u00f5es sindicais. Frisou e refrisou a comiss\u00e3o que as associa\u00e7\u00f5es eram independentes umas das outras, e que s\u00f3 estavam juntas nas mesmas instala\u00e7\u00f5es, porque cada uma por si n\u00e3o tinha meios para ter uma sede. Mas de nada lhes valeu. O Ministro manteve a ordem de encerramento.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">No dia 20 de Dezembro, 39 dias ap\u00f3s mais esta arbitrariedade, o Governo mandou reabrir a Casa do Povo sem qualquer outra explica\u00e7\u00e3o. Mas os activistas sindicais j\u00e1 sabiam o que desencadeara a f\u00faria do Governo. Um bufo tinha denunciado uma reuni\u00e3o da Comiss\u00e3o de Auxilio e Defesa dos presos por raz\u00f5es sociais, na Casa do Povo.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Neste entretanto, a Associa\u00e7\u00e3o dos Criados de Mesa, Soc. Cooperativa e a Associa\u00e7\u00e3o de Socorros M\u00fatuos dos Cozinheiros, propuserem \u00e0 Associa\u00e7\u00e3o de Classe a instala\u00e7\u00e3o numa sede comum. A saga do encerramento e das mudan\u00e7as de sede n\u00e3o ficava por aqui.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">\u00c9 assim que no <b><span style=\"text-decoration: underline\"><span style=\"font-family: Arial\">dia 5 de Julho de 1914, as tr\u00eas associa\u00e7\u00f5es do sector hoteleiro viriam a inaugurar a sede na Travessa dos Inglezinhos, 3, 1\u00ba em Lisboa<\/span><\/span><\/b>, onde o sindicato fica instalado at\u00e9 \u00e0 imposi\u00e7\u00e3o do estatuto corporativo pelo fascismo, no final de 1933.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div>\n<p><a title=\"\" href=\"#_ftnref13\">[13]<\/a> <i>O Congresso Sindicalista de 1911<\/i> Selec\u00e7\u00e3o e Textos de C\u00e9sar de Oliveira, Porto, Afrontamento, Novembro de 1971 pp. 35 \u2013 36<\/p>\n<\/div>\n<div>\n<p><a title=\"\" href=\"#_ftnref14\">[14]<\/a> Ibidem<\/p>\n<\/div>\n<div>\n<p><a title=\"\" href=\"#_ftnref15\">[15]<\/a> Vieira, Alexandre, Op. Cit.\u00a0 p. 50<\/p>\n<\/div>\n<div>\n<p><a title=\"\" href=\"#_ftnref16\">[16]<\/a> <i>A Defesa,<\/i> n\u00ba 47, de 1 de Janeiro de 1912 fl. 2<\/p>\n<\/div>\n<div>\n<p><a title=\"\" href=\"#_ftnref17\">[17]<\/a> Ibidem.<\/p>\n<\/div>\n<div>\n<p><a title=\"\" href=\"#_ftnref18\">[18]<\/a> Vieira Alexandre, op. cit. p. 50<\/p>\n<\/div>\n<div>\n<p><a title=\"\" href=\"#_ftnref19\">[19]<\/a> Vieira, Alexandre, op. Cit. pp 56,57<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<\/div>\n<p><b><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">UM JORNAL COMO ARMA<\/span><\/b><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Os militantes sindicais do final do s\u00e9culo XIX e princ\u00edpios do s\u00e9culo XX tinham uma concep\u00e7\u00e3o profunda sobre a import\u00e2ncia da informa\u00e7\u00e3o e da cultura. Para transpor para o terreno da pr\u00e1tica essa concep\u00e7\u00e3o, tinham o jornal.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">O jornal como instrumento de propaganda do associativismo; de forma\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica e cultural; de organiza\u00e7\u00e3o e mobiliza\u00e7\u00e3o dos trabalhadores para a luta. O jornal como arma de defesa e promo\u00e7\u00e3o dos direitos, divulgando-os, e denunciando a sua viola\u00e7\u00e3o por parte do patronato. O jornal como arma de luta contra a explora\u00e7\u00e3o, pela liberdade e a igualdade de direitos.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: medium\"><span style=\"color: #000000\"><b><i><span style=\"text-decoration: underline\">A Defesa<\/span><\/i><\/b><b><span style=\"text-decoration: underline\">, \u00f3rg\u00e3o quinzenal da classe dos empregados dos hot\u00e9is e restaurantes<\/span><\/b>, foi um dos jornais sindicais de maior longevidade deste per\u00edodo \u00e1ureo do jornalismo oper\u00e1rio. <b><span style=\"text-decoration: underline\"><span style=\"font-family: Arial\">O N\u00ba 1 da primeira s\u00e9rie saiu a um de Janeiro de 1910, e o N\u00ba 136, o ultimo, em 16 de Maio de 1924<\/span><\/span><\/b>. <span style=\"font-family: Arial\"><b><span style=\"text-decoration: underline\">Em segunda s\u00e9rie, com Luciano Gil Montes como Director, foram publicados sete n\u00fameros, entre 1 de Abril de 1927, e 1 de Maio de 1928.<\/span><\/b><\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: medium\"><span style=\"color: #000000\"><span style=\"font-family: Arial\">\u00a0<\/span>Foi um projecto pensado com todo o cuidado. A ideia da sua funda\u00e7\u00e3o surgiu em simult\u00e2neo com a da constitui\u00e7\u00e3o da associa\u00e7\u00e3o de classe, na cabe\u00e7a dos mesmos activistas, com o objectivo de interven\u00e7\u00e3o convergente com esta, embora com autonomia administrativa e de direc\u00e7\u00e3o politica, como era habitual naquela \u00e9poca.<\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Para por de p\u00e9 o projecto, constitui-se o Grupo de Propaganda e Defesa dos Interesses dos Empregados dos Hot\u00e9is Restaurantes e Caf\u00e9s de Portugal, seu primeiro propriet\u00e1rio e um n\u00facleo dirigente, de que faziam parte Manuel Fernandes Lopes, como director, e Manuel Rodrigues Correia, com a designa\u00e7\u00e3o de Secret\u00e1rio, mas na verdade, o seu \u2018<i><span style=\"font-family: Arial\">homem forte\u2019<\/span><\/i> durante v\u00e1rios anos. Os mesmos camaradas eram simult\u00e2nea e respectivamente, presidentes da Mesa da Assembleia-geral e da Comiss\u00e3o Executiva da Associa\u00e7\u00e3o de Classe.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Foram estabelecidos pre\u00e7os avulso e por assinatura. Angariados assinantes e an\u00fancios e contratados postos de venda. Em Lisboa, na Tabacaria Campos, no Po\u00e7o Borrat\u00e9m, no Quiosque Sol, ao Rocio, no Kyosque defronte ao Largo de S\u00e3o Domingos, e na Tabacaria Fraz\u00e3o, na Rua do Amparo. No Porto, na Tabacaria Flor do Chiado, na Rua Bonjardim, 406 e em Braga, na rua do Castelo, 50.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: medium\"><span style=\"color: #000000\"><b><i><span style=\"text-decoration: underline\">A Defesa <\/span><\/i><\/b><b><span style=\"text-decoration: underline\">define como \u00e2mbito de cobertura, Lisboa, Porto, Coimbra, Braga e outras cidades do pa\u00eds, tendo nos primeiros tr\u00eas meses atingido as trezentas assinaturas, cem das quais, no Porto<\/span><\/b>. Na Invicta, n\u00e3o h\u00e1 hotel em que o jornal n\u00e3o entre, espalhando a luz. Dizem os fundadores, no n\u00famero cinco, ao darem conta da sua expans\u00e3o. Para este \u00eaxito contribuiu muito, Cust\u00f3dio Dantas, correspondente, e tamb\u00e9m presidente da Associa\u00e7\u00e3o de Classe dos Corretores de Hotel na cidade nortenha.<\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">No primeiro ano j\u00e1 tem permutas com jornais seus colegas, no Brasil, Argentina, Espanha, Fran\u00e7a, It\u00e1lia e Sui\u00e7a.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Ajudaram muito com a sua experi\u00eancia e colabora\u00e7\u00e3o, no primeiro ano do jornal, v\u00e1rios elementos do movimento oper\u00e1rio n\u00e3o pertencentes \u00e0 classe, entre os quais se destacam Azedo Gneco, Pedro Muralha, Thomaz J\u00fadice Bicker e Francisco Christo. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: medium\"><span style=\"color: #000000\"><b><span style=\"text-decoration: underline\">O Grupo Editor reunia regularmente, com a participa\u00e7\u00e3o de assinantes, e ao fim de doze n\u00fameros conclu\u00edram que n\u00e3o conseguiam aguentar o jornal com o modelo inicial, pelo que propuseram \u00e0 Assembleia-geral da Associa\u00e7\u00e3o que esta assumisse a sua propriedade <\/span><\/b>e passasse a distribui-lo gratuitamente aos s\u00f3cios. Proposta que foi aprovada, com apenas dois votos contra. Nesta nova situa\u00e7\u00e3o, passava a ser obrigat\u00f3ria publica\u00e7\u00e3o dos escritos da direc\u00e7\u00e3o em exerc\u00edcio na associa\u00e7\u00e3o, mantendo-se, mesmo assim, a autonomia editorial.<\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: medium\"><span style=\"color: #000000\">No primeiro n\u00famero, em editorial assinado pela redac\u00e7\u00e3o, estabelecia-se aquilo a que hoje se chama estatuto editorial: \u00abno<span style=\"font-family: Arial\"><i> momento em que todas as classes se agitam reclamando melhorias nas suas condi\u00e7\u00f5es econ\u00f3micas, vem o nosso jornal defender a classe de que \u00e9 \u00f3rg\u00e3o, espalhando ao mesmo tempo pelos c\u00e9rebros pouco cultos, jorros deslumbrantes de luz. \u00c9 nossa miss\u00e3o, por meio do jornal, fazermos a uni\u00e3o da nossa numerosa classe, para conseguirmos as nossas justas reivindica\u00e7\u00f5es. Constituir um baluarte para nos defendermos dos espoliadores e uma forte organiza\u00e7\u00e3o associativa para todos.<\/i><\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Prop\u00f5em-se ainda publicar uma tribuna de classes, para tratar das lutas que houver entre o trabalho e o capital, e p\u00f4r a nossa classe ao corrente do que se passa em todo o movimento oper\u00e1rio. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">E assim procedem, desde logo nesse n\u00famero, com a publica\u00e7\u00e3o da posi\u00e7\u00e3o dos oper\u00e1rios sapateiros contra a venda ao p\u00fablico do cal\u00e7ado feito nas pris\u00f5es, devido \u00e0 concorr\u00eancia desleal que tal venda significa, e a sua exig\u00eancia de que os sapatos feitos \u00e0 m\u00e1quina tenham uma taxa de 500 r\u00e9is, pelo mesmo motivo. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">As quest\u00f5es afectivas da vida sempre foram tratadas nele. As alegrias e as tristezas existentes nas casas dos activistas eram noticiadas. Casamentos, nascimentos, baptizados, viagens \u00e0 terra, visitas da fam\u00edlia a Lisboa, etc.. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Era dada uma aten\u00e7\u00e3o especial \u00e0 doen\u00e7a, ao falecimento dos entes familiares dos s\u00f3cios, e estes, quando faleciam, eram em regra homenageados nas assembleias-gerais, e em alguns casos cobertos com a bandeira da associa\u00e7\u00e3o. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: medium\"><span style=\"color: #000000\"><span style=\"font-family: Arial\">\u00a0<\/span>As festas organizadas em torno dos anivers\u00e1rios da Associa\u00e7\u00e3o e de <i><span style=\"font-family: Arial\">A Defesa<\/span><\/i>, os seus programas, o que l\u00e1 se passava, eram objecto de not\u00edcias desenvolvidas. Festas que encheram os teatros Gynasio, o S\u00e3o Luiz e o Politeama, v\u00e1rias vezes. A venda de bilhetes e as receitas dos comes e bebes destes <i><span style=\"font-family: Arial\">benef\u00edcios,<\/span><\/i> como tamb\u00e9m lhes chamavam, chegou a ter import\u00e2ncia para fazer face \u00e0s despesas da Associa\u00e7\u00e3o. As obras na sede da Travessa dos Inglezinhos, ap\u00f3s o inc\u00eandio que ali ocorreu, foram cobertas pela receita de uma festa de <i><span style=\"font-family: Arial\">benef\u00edcio<\/span><\/i>.<\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: medium\"><span style=\"color: #000000\">Mas foi na mobiliza\u00e7\u00e3o e organiza\u00e7\u00e3o dos trabalhadores para a luta por melhores condi\u00e7\u00f5es de trabalho e de vida, e em defesa dos seus direitos e interesses. Na divulga\u00e7\u00e3o da biografia, a negro bem forte, dos patr\u00f5es n\u00e3o cumpridores, n\u00e3o regateando elogios aos que cumpriam, que esteve quase sempre o cerne das preocupa\u00e7\u00f5es da redac\u00e7\u00e3o de <span style=\"font-family: Arial\"><i>A Defesa.<\/i><\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: medium\"><span style=\"color: #000000\"><b><i><span style=\"text-decoration: underline\">A Defesa<\/span><\/i><\/b><b><span style=\"text-decoration: underline\"> teve alguns interregnos na sua publica\u00e7\u00e3o. Quase sempre por raz\u00f5es alheias \u00e0 classe.<\/span><\/b> Quando do encerramento das sedes pela for\u00e7a bruta do poder de Estado. Quando Manuel Rodrigues Correia Presidente da Associa\u00e7\u00e3o e seu director partiu uma perna e a clav\u00edcula num acidente, e foi parar ao Hospital de S. Jos\u00e9 durante mais de um m\u00eas. Ou quando a sua esposa adoeceu com a tuberculose e acabou por lhe morrer com trinta anos, e teve que ir para a Merceana durante algum tempo tomar conta dos tr\u00eas filhinhos. E ainda, quando este foi mobilizado para a guerra em 1916, per\u00edodo em que o jornal esteve sujeito \u00e0 censura. <\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">N\u00e3o se publicou durante alguns meses devido \u00e0 escassez e ao custo do papel e outros materiais tamb\u00e9m durante a guerra. Na d\u00e9cada de 1920, a sua sa\u00edda foi muito irregular, com um hiato de tr\u00eas anos entre 1924 e 1927, provocado pela derrocada anarquista ap\u00f3s a grande greve de 1924, pela aboli\u00e7\u00e3o da gorjeta.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: medium\"><span style=\"color: #000000\">Mas,<span style=\"font-family: Arial\"><b><span style=\"text-decoration: underline\"> pode dizer-se com toda a justi\u00e7a, que ao longo dos dezasseis anos da sua exist\u00eancia, cumpriu os objectivos para que foi criada, mesmo nos per\u00edodos mais err\u00e1ticos da sua vida.<\/span><\/b><\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p><b><span style=\"font-size: medium\"><span style=\"color: #000000\"><span style=\"font-family: Arial\">\u00a0<\/span>DISSOLVENTES, INTRIGA, EXPULS\u00d5ES, E UMA LUZ AO FUNDO DO T\u00daNEL<\/span><\/span><\/b><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Com a combatividade, a abnega\u00e7\u00e3o, a solidariedade, o idealismo, coexistem a intriga, o oportunismo, a divis\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">O boato lan\u00e7ado durante a greve de que os <i><span style=\"font-family: Arial\">criados<\/span><\/i> do Caf\u00e9 Suisso j\u00e1 estariam dispostos a pagar 50$000 r\u00e9is cada um, para regressar aos seus postos de trabalho, ou a ida de tr\u00eas \u00ab<i><span style=\"font-family: Arial\">capachos\u00bb<\/span><\/i> do patr\u00e3o do Martinho ao Di\u00e1rio de Not\u00edcias, desmentir que n\u00e3o eram explorados, s\u00e3o epi-fen\u00f3menos emergentes da luta de classes.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">J\u00e1 o ataque ao Governo por ter tornado obrigat\u00f3rio o descanso semanal, feito pelo \u00ab<i><span style=\"font-family: Arial\">renegado<\/span><\/i>\u00bb Ramiro Vidal Carrera, antigo criado de mesa e colaborador de <i><span style=\"font-family: Arial\">A Defesa<\/span><\/i> e agora s\u00f3cio de um restaurante onde os empregados dormem na cozinha, e colaborador do <i><span style=\"font-family: Arial\">Noticiero de Vigo<\/span><\/i>, configura acto de trai\u00e7\u00e3o premeditada.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Mas nenhum destes epis\u00f3dios causa grandes danos \u00e0 unidade da classe.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">O mesmo se n\u00e3o pode dizer das diverg\u00eancias que come\u00e7aram com a discuss\u00e3o entre os activistas que defendiam a continua\u00e7\u00e3o da Associa\u00e7\u00e3o na Casa Sindical e os que queriam uma sede pr\u00f3pria. Esta controv\u00e9rsia, que n\u00e3o se fundamenta apenas em paix\u00f5es de <i><span style=\"font-family: Arial\">lana-caprina<\/span><\/i> como alguns disseram e escreveram, e tem antes a ver com concep\u00e7\u00f5es diferentes para o movimento sindical, conduziu \u00e0 instala\u00e7\u00e3o da divis\u00e3o, da intriga e do \u00f3dio, no seio da Associa\u00e7\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Manoel Fernandes Lopes, Editor e Director de <i><span style=\"font-family: Arial\">A Defesa<\/span><\/i>, sem nada escrever nem nada fazer, preenchendo os cargos apenas para efeitos legais, segundo uns, teve a capacidade de iniciativa suficiente segundo outros, para no momento dif\u00edcil em que a sede estava encerrada, ir \u00e0 tipografia proibir expressamente a publica\u00e7\u00e3o do jornal, sem dar qualquer satisfa\u00e7\u00e3o \u00e0 redac\u00e7\u00e3o nem \u00e0 Associa\u00e7\u00e3o, sua propriet\u00e1ria.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Manuel Rodrigues Correia, redactor principal, que tudo fazia e muito escrevia, conseguiu manter a publica\u00e7\u00e3o e, farto de tolerar \u00ab<i><span style=\"font-family: Arial\">traidores\u00bb, <\/span><\/i>no n\u00famero seguinte, ataca ferozmente o antigo camarada, acusando-o de andar sempre com o \u00ab<i><span style=\"font-family: Arial\">copos\u00bb,<\/span><\/i> de ser vaidoso, homem de duas caras,<i><\/i>e de ter o h\u00e1bito de se encostar aos inimigos de classe. Na Assembleia-geral que se seguiu a este epis\u00f3dio, aquele que fora o primeiro presidente da Assembleia-geral, foi expulso da Associa\u00e7\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Na Assembleia-geral de 9 de Abril de 1912, Luciano Gil Montes discorda da composi\u00e7\u00e3o da Comiss\u00e3o Executiva eleita, e esta, ap\u00f3s a elei\u00e7\u00e3o, prop\u00f5e de imediato uma sindic\u00e2ncia \u00e1s contas do bufete da Casa Sindical, aos seus empregados, e \u00e0 Direc\u00e7\u00e3o cessante.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Em Junho, o Grupo de Defesa e Propaganda para o descanso semanal \u00e9 reactivado sob a \u00e9gide de Manuel Rodrigues Correia, a pretexto do afastamento da actual Casa Sindical da proximidade dos principais estabelecimentos, e instala-se no antigo andar do Po\u00e7o de Borrat\u00e9m, onde se fazem reuni\u00f5es de casa cheia, que s\u00f3 esmorecem quando \u00e9 decidido que os seus participantes paguem uma quota de $200 r\u00e9is por m\u00eas. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: medium\"><span style=\"color: #000000\">Em Agosto, o Redactor Principal de <i><span style=\"font-family: Arial\">A Defesa,<\/span><\/i> cozinheiro, referindo-se aos criados de mesa, amea\u00e7a abandonar a vida sindical activa devido \u00e0 p\u00e9ssima orienta\u00e7\u00e3o dada \u00e0 Associa\u00e7\u00e3o pelos \u2018<i><span style=\"font-family: Arial\">senhores camaradas de smok e luvas brancas\u2019<\/span><\/i> que se envergonham de acamaradar com os que usam \u2018<i><span style=\"font-family: Arial\">blusa e carapu\u00e7a<\/span><\/i> ou <span style=\"font-family: Arial\"><i>vassoura\u2019.<\/i><\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">No dia 20 de Novembro, em Assembleia-geral extraordin\u00e1ria, Luciano Gil Montes \u00e9 o primeiro a intervir, atira-se como \u00ab<i><span style=\"font-family: Arial\">gato a bofe\u00bb <\/span><\/i>\u00e0 Comiss\u00e3o Executiva, trava-se de raz\u00f5es com o Presidente da Assembleia-geral, que \u00e9 Manuel Rodrigues Correia, fala durante hora e meia, afirma que a sa\u00edda da Casa Sindical \u00e9 anti-democr\u00e1tica, dado que foi feita sem pr\u00e9via consulta \u00e0 Assembleia-geral. Declara-se perseguido pelos patr\u00f5es, e agora pelos companheiros, que considera mais d\u00e9spotas e opressores. No fim, os termos usados por Gil Montes na sua interven\u00e7\u00e3o s\u00e3o considerados pelo Presidente da Mesa, mais pr\u00f3prios das vielas escabrosas de Lisboa, do que duma assembleia-geral da Associa\u00e7\u00e3o. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">A Comiss\u00e3o Executiva considera que a instala\u00e7\u00e3o do bufete na Casa Sindical uma grande \u00ab<i><span style=\"font-family: Arial\">calinada\u00bb, <\/span><\/i>e acusa Luciano Gil Montes de n\u00e3o querer prestar contas \u00e0 Associa\u00e7\u00e3o, ao n\u00e3o entregar fog\u00e3o, nem liquidando dois documentos assinados por si, considerando-se devedor de 14$450 r\u00e9is. E, termina verberando a \u00ab<i><span style=\"font-family: Arial\">verborreia anarquista\u00bb<\/span><\/i> de Luciano, afirma que o ideal que ele diz abra\u00e7ar, \u00e9 algo de mais grandioso e belo do que o pr\u00f3prio sup\u00f5e, e prop\u00f5e, embora com m\u00e1goa, dizem, a sua expuls\u00e3o da Associa\u00e7\u00e3o, para bem dos interesses colectivos, dado tratar-se de um elemento dissolvente da associa\u00e7\u00e3o que urge afastar, consideram.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Apenas o camarada Manuel Correia Figueiredo, que esteve preso com ele no Limoeiro, de chap\u00e9u na cabe\u00e7a em plena assembleia, o que \u00e9 muito criticado, o defende. A Assembleia votou a expuls\u00e3o por apenas 4 votos contra e uma absten\u00e7\u00e3o. O pr\u00f3prio Gil Montes votou pela sua expuls\u00e3o, afirmando que tal atitude era porque n\u00e3o queria contrariar os companheiros. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">No n\u00famero seguinte do jornal, \u00e9-nos dada em editorial, a defini\u00e7\u00e3o de dissolventes: s\u00e3o aqueles que fomentam a disc\u00f3rdia e pretendem a desuni\u00e3o das classes. Que gritam contra tudo e contra todos. Que fomentam a intriga e a desordem. Mas que n\u00e3o apresentam nenhuma ideia nem propostas. Apenas fazem com os seus m\u00e9todos o des\u00e2nimo dos fracos e a irrita\u00e7\u00e3o dos fortes.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">No mesmo n\u00famero vem a not\u00edcia do despedimento de Manuel Correia de Figueiredo do Caf\u00e9 Lisboa, na Rua de S. Juli\u00e3o. Apesar dos desentendimentos recentes e da expuls\u00e3o, juntamente com Gil Montes, a Comiss\u00e3o Executiva defende-o, e denuncia o despedimento como uma persegui\u00e7\u00e3o a um combatente da Associa\u00e7\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">A pol\u00e9mica com o caso Gil Montes continua nas assembleias que se realizam no primeiro semestre de 1913. O seu insepar\u00e1vel companheiro e defensor, Manuel Correia de Figueiredo, que depois de despedido fora admitido pela Associa\u00e7\u00e3o como fiscal pago do descanso semanal, \u00e9 acusado de querer ser empregado, e de ao mesmo tempo querer mandar na Comiss\u00e3o Executiva. Ao que este responde que a Comiss\u00e3o Executiva estava feita com o patronato, pois tem em seu poder mais de cinquenta processos de infrac\u00e7\u00e3o que n\u00e3o manda para o tribunal.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">No fim do ano, Manuel Rodrigues Correia promove uma reuni\u00e3o de cozinheiros, n\u00e3o s\u00f3 dos hot\u00e9is e restaurantes, mas tamb\u00e9m dos de bordo e casas particulares, com o objectivo de constituir uma associa\u00e7\u00e3o de classe que defenda os seus direitos e interesses. J\u00e1 que, actualmente, a Associa\u00e7\u00e3o s\u00f3 trata dos problemas dos criados de mesa, considera.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Inicia-se assim um processo de regresso \u00e0s associa\u00e7\u00f5es por profiss\u00e3o, provocado simultaneamente por diverg\u00eancias de concep\u00e7\u00e3o sindical e por desentendimentos relacionados com a hegemonia que os empregados de mesa tinham na Associa\u00e7\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Claro que Manuel Rodrigues Correia \u00e9 acusado de ser cisionista, de querer dividir a classe. Ao que responde que n\u00e3o, que a nova associa\u00e7\u00e3o era para somar e n\u00e3o para dividir, pois continuariam a conviver na mesma sede e a cooperar e a agir em conjunto naquilo que fosse comum.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">O nome do mais influente dos fundadores, continuar\u00e1 a vir como redactor principal, no cabe\u00e7alho de <i><span style=\"font-family: Arial\">A Defesa,<\/span><\/i> at\u00e9 2 de Abril de 1919. Ainda vir\u00e1 a ser eleito Presidente da Associa\u00e7\u00e3o em 1914, ap\u00f3s um processo de contesta\u00e7\u00e3o e demiss\u00e3o da direc\u00e7\u00e3o reformista. Mas foi obrigado a demitir-se passados seis meses, para dar assist\u00eancia \u00e0 fam\u00edlia, devido \u00e0 doen\u00e7a da mulher. Foi Presidente da Assembleia-geral mais algumas vezes. Mas a sua influ\u00eancia na Associa\u00e7\u00e3o e no jornal, vai diminuindo progressivamente, n\u00e3o obstante o respeito que os activistas continuam a ter pelos servi\u00e7os que prestou \u00e0 classe.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: medium\"><span style=\"color: #000000\">Mais tarde, em 1927, um outro cozinheiro, Presidente da associa\u00e7\u00e3o que surgiu da cis\u00e3o de 1914, viria a dizer dele: foi um idealista, morreu na mis\u00e9ria.<span style=\"font-family: Arial\">\u00a0 <\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Alguns dias depois, recebem a informa\u00e7\u00e3o de que a associa\u00e7\u00e3o est\u00e1 salva. Um grupo numeroso de s\u00f3cios tinha controlado a situa\u00e7\u00e3o, elegera novos corpos gerentes, compostos por homens honestos e dedicados \u00e0 causa, e j\u00e1 tinham metido os gatunos em tribunal.<\/span><\/p>\n<p><b><span style=\"text-decoration: underline\"><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Mas n\u00e3o foi s\u00f3 esta, a noticia boa que veio de Porto. Algum tempo depois, a nova direc\u00e7\u00e3o comunicava que tinham conseguido que no Grande Caf\u00e9 e Restaurante Internacional, os patr\u00f5es deixassem de exigir parte das gorjetas, que no caso, eram \u00b4$400 r\u00e9is por empregado.<\/span><\/span><\/b><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">De Paris, chegou tamb\u00e9m a not\u00edcia de que perante um movimento de protesto em curso por toda a Fran\u00e7a<i><span style=\"font-family: Arial\">,\u201d a c\u00e2mara sindical dos patr\u00f5es\u201d<\/span><\/i> decidira suprimir a \u00ab<i><span style=\"font-family: Arial\">esp\u00f3rtula<\/span><\/i>\u00bb que era exigida aos empregados de mesa dos caf\u00e9s e restaurantes da Cidade Luz. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Em Londres, uma greve em 70 hot\u00e9is, terminou com a vit\u00f3ria em 68, que cederam \u00e1s reivindica\u00e7\u00f5es: o reconhecimento da associa\u00e7\u00e3o de classe; o descanso semanal; sal\u00e1rio m\u00ednimo de uma libra por semana para os Ajudantes de Mesa; aboli\u00e7\u00e3o da caixa de propinas e distribui\u00e7\u00e3o equitativa das mesmas; fim do pagamento dos materiais partidos e admiss\u00e3o de pessoal, apenas atrav\u00e9s da associa\u00e7\u00e3o, de entre os seus associados. Uma grande vit\u00f3ria da classe, em Inglaterra.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Na Am\u00e9rica, Nova Iorque, a classe conseguira por meio de uma greve geral dura e prolongada, em que chegou a haver destrui\u00e7\u00e3o de estabelecimentos pelos piquetes de greve, obter o dia normal de 9 horas de trabalho. <\/span><\/p>\n<p><b><span style=\"text-decoration: underline\"><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Alguma Luz ao fundo do t\u00fanel come\u00e7ava a surgir para dois dos problemas mais prementes que se punham \u00e0 classe. A redu\u00e7\u00e3o do hor\u00e1rio, e deixarem de pagar para trabalhar.<\/span><\/span><\/b><\/p>\n<p><b><span style=\"text-decoration: underline\"><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Esta per\u00edodo de (1907-1913) que classificamos de per\u00edodo da funda\u00e7\u00e3o do sindicato, salvaguardadas as quest\u00f5es de escala e de contexto hist\u00f3rico, contem em si todos os ingredientes que constituem as grandezas e mis\u00e9rias do movimento sindical portugu\u00eas at\u00e9 aos dias de hoje. <\/span><\/span><\/b><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-size: medium\"><span style=\"color: #000000\"><b>O CONGRESSO DE TOMAR \u2013 A GUERRA \u2013 O REFORMISMO NO SINDICATO <\/b>(<strong>1914<\/strong><span style=\"font-family: Arial\"><b> \u2013 1921) <\/b><\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: medium\"><span style=\"color: #000000\"><b><span style=\"text-decoration: underline\">O Congresso Nacional Oper\u00e1rio<\/span><\/b>, depois de grande controv\u00e9rsia sobre a data da sua realiza\u00e7\u00e3o, com os activistas afectos ao Partido Socialista a quererem faz\u00ea-lo quanto antes, e os anarquistas e os sindicalistas revolucion\u00e1rios a quererem adi\u00e1-lo at\u00e9 que ao camaradas presos no Forte da Gra\u00e7a em Elvas fossem libertados para que pudessem participar, veio a ser <span style=\"font-family: Arial\"><b><span style=\"text-decoration: underline\">convocado definitivamente para 14, 15, 16 e 17 de Mar\u00e7o de 1914, em Tomar.<\/span><\/b><\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: medium\"><span style=\"color: #000000\">A queda do Governo de Afonso Costa e a sua substitui\u00e7\u00e3o por um Governo Chefiado por Bernardino Machado, que mandou libertar os presos por raz\u00f5es sociais logo que tomou posse, permitiu que anarquistas e revolucion\u00e1rios estivessem em peso no congresso, evitando assim a tentativa de golpe dos socialistas.<span style=\"font-family: Arial\"><b>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 <\/b><\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Os trabalhos come\u00e7aram com viva controv\u00e9rsia entre reformistas e revolucion\u00e1rios, logo na sess\u00e3o de abertura, em torno da mesma quest\u00e3o que motivara a cis\u00e3o de 1909. A presen\u00e7a de delegados n\u00e3o assalariados e n\u00e3o sindicalizados, quase todos membros do Partido Socialista, credenciados por algumas associa\u00e7\u00f5es de classe, entre as quais a dos hot\u00e9is, Caf\u00e9s e Restaurantes de Lisboa, que credenciou Martins Santareno,<\/span><a title=\"\" href=\"#_ftn20\"><span style=\"color: #0066cc\">[20]<\/span><\/a><span style=\"color: #000000;font-size: medium\"> dirigente do Partido Socialista. Estes, pretendiam participar de pleno direito, os sindicalistas revolucion\u00e1rios defendiam que apenas podiam participar no congresso trabalhadores assalariados e sindicalizados.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Esta contenda colocou movimento sindical novamente \u00e0 beira da cis\u00e3o, mas a unidade foi salva por uma proposta da Comiss\u00e3o Revisora de Mandatos, cujo relator foi Alexandre Vieira.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">A proposta, que foi aprovada por maioria, propunha que desta vez os delegados em causa pudessem participar, mas estabelecia o princ\u00edpio de que em futuros congressos os sindicatos s\u00f3 se poderiam fazer representar por indiv\u00edduos assalariados e sindicalizados.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">A partir daqui, os trabalhos decorreram com normalidade, tendo o congresso de Tomar ficado para a hist\u00f3ria como um dos principais marcos do sindicalismo portugu\u00eas. Embora os sindicalistas da \u00e9poca tenham conclu\u00eddo que as condi\u00e7\u00f5es ainda n\u00e3o estavam maduras para a constitui\u00e7\u00e3o de uma confedera\u00e7\u00e3o de sindicatos, a verdade \u00e9 que neste congresso foram aprovados pela primeira vez os estatutos de uma central sindical, com uma sec\u00e7\u00e3o a Norte com sede no Porto e outra a Sul, com sede em Lisboa. Foram eleitos um Conselho Geral e um Secret\u00e1rio-geral, Joaquim Perfeito de Carvalho, e aprovada uma orienta\u00e7\u00e3o geral, na base dos estatutos e das diversas resolu\u00e7\u00f5es aprovadas.<\/span><\/p>\n<p><b><span style=\"text-decoration: underline\"><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">De Tomar, votada por unanimidade pelos 150 delegados em representa\u00e7\u00e3o de 280 associa\u00e7\u00f5es e 90 mil associados<\/span><a title=\"\" href=\"#_ftn21\"><b><span style=\"text-decoration: underline\"><span style=\"color: #0066cc\">[21]<\/span><\/span><\/b><\/a><span style=\"color: #000000;font-size: medium\"> saiu uma verdadeira central sindical, a UON \u2013 Uni\u00e3o Oper\u00e1ria Nacional, que em 1919 se transformaria na CGT \u2013 Confedera\u00e7\u00e3o Geral do Trabalho, que hoje perdura, na CGTP \u2013 Intersindical Nacional.<\/span><\/span><\/b><\/p>\n<p><b><span style=\"text-decoration: underline\"><span style=\"font-size: medium\"><span style=\"color: #000000\"><span style=\"font-family: Arial\">\u00a0<\/span>Foi tamb\u00e9m neste congresso que se estabeleceu o princ\u00edpio, ainda hoje em vigor no sindicalismo consubstanciado na CGTP-IN, de que dirigentes sindicais que viessem a ser investidos em cargos pol\u00edticos da confian\u00e7a do Governo, deixariam de fazer parte da direc\u00e7\u00e3o da central.<\/span><\/span><\/span><\/b><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Os sindicalistas revolucion\u00e1rios venceram em toda a linha. Viram aprovadas no essencial, as suas teses, ao mesmo tempo que preservaram a unidade, numa direc\u00e7\u00e3o que constitu\u00edda por socialistas e sindicalistas, acaba por ser hegemonizada pelos revolucion\u00e1rios, gra\u00e7as \u00e0 maior qualidade e capacidade dos seus militantes.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">A fome chegou antes de ida dos militares portugueses para Fran\u00e7a. No m\u00eas em que deflagrou a I Guerra Mundial, Agosto de 1914, o Governo revelou que s\u00f3 havia trigo at\u00e9 Maio de 1915. Em Dezembro era proibida a venda de trigo a particulares, a n\u00e3o ser que fosse para sementeira.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Em 6 de Mar\u00e7o de 1915, o p\u00e3o aumentou de 4,5 para 10 centavos o quilo, o que provocou assaltos da popula\u00e7\u00e3o \u00e0s padarias.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">No dia 14 de Mar\u00e7o de 1915, Domingo, a UON faz com\u00edcios em Lisboa e Almada contra o a\u00e7ambarcamento de trigo. Em 21 de Outubro s\u00e3o assaltados armaz\u00e9ns alimentares em Cacilhas. Mais de duas mil pessoas resolveram abastecer-se sem pagar. Na regi\u00e3o do Douro, os comboios que transportam batata e castanha, s\u00e3o assaltados. A repress\u00e3o a estas ac\u00e7\u00f5es de desespero provocadas pela fome foi feita \u00e0 bala, tendo da\u00ed resultado mortos e feridos.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">A 30 do Janeiro, s\u00e3o assaltadas mercearias em Lisboa e rebentam bombas em v\u00e1rios locais da cidade. A agita\u00e7\u00e3o, provocada pela situa\u00e7\u00e3o desesperada das popula\u00e7\u00f5es, estende-se a v\u00e1rias terras da Prov\u00edncia. Em muitos casos, com o apoio dos administradores dos concelhos que encabe\u00e7avam as manifesta\u00e7\u00f5es. Em v\u00e1rios s\u00edtios, os populares procederam \u00e0 distribui\u00e7\u00e3o dos g\u00e9neros a\u00e7ambarcados encontrados.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: medium\"><span style=\"color: #000000\">Eram movimentos espont\u00e2neos que escapavam \u00e0 direc\u00e7\u00e3o da UON. Mesmo assim, em seguida a tais acontecimentos, <span style=\"font-family: Arial\"><b><span style=\"text-decoration: underline\">a policia assaltou a sua sede, \u00e0 data na Rua da Barroca, 59 -2\u00ba e v\u00e1rios outros sindicatos foram tamb\u00e9m encerrados.<\/span><\/b><\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Mas o movimento sindical tinha sa\u00eddo refor\u00e7ado do congresso de Tomar e sem se deixar intimidar continuou a conduzir a luta por melhores sal\u00e1rios, contra o desemprego e pela paz.<\/span><\/p>\n<p><b><span style=\"text-decoration: underline\"><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">No final de 1916, numa reuni\u00e3o de sindicatos realizada em Lisboa, foi deliberado fazer-se uma Confer\u00eancia, com o objectivo de refor\u00e7ar a organiza\u00e7\u00e3o sindical, discutir a carestia de vida e a posi\u00e7\u00e3o do movimento oper\u00e1rio perante as condi\u00e7\u00f5es da paz.<\/span><\/span><\/b><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div>\n<p><a title=\"\" href=\"#_ftnref20\">[20]<\/a> <i>A Defesa,<\/i> n\u00ba 72, de 5 de Abril de 1914, fls. 1.<\/p>\n<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div>\n<p><a title=\"\" href=\"#_ftnref21\">[21]<\/a> Idem<\/p>\n<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b><span style=\"font-size: medium\"><span style=\"color: #000000\"><span style=\"font-family: Arial\">\u00a0<\/span>SABER FALAR COM OS PATR\u00d5ES, MUDAN\u00c7A DE ORIENTA\u00c7\u00c3O E DESENVOLVIMENTO<\/span><\/span><\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-size: medium\"><span style=\"color: #000000\">Os desentendimentos entre sindicalistas e anarquistas e a expuls\u00e3o de alguns deles da Associa\u00e7\u00e3o alteraram a rela\u00e7\u00e3o de for\u00e7as no seu n\u00facleo dirigente. <span style=\"font-family: Arial\"><b><span style=\"text-decoration: underline\">Contra a corrente do que se passa no resto do movimento sindical, o reformismo passou a ser dominante, na hotelaria.<\/span><\/b><\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">No congresso de Tomar, ao contr\u00e1rio do que se passou em 1909 e1911, o sindicato de hotelaria, representado por Martins Santareno, dirigente do Partido Socialista, que n\u00e3o pertencia \u00e0 classe, alinhou com os reformistas.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Adelino Augusto Feiteira, o novo Presidente, Chefe de Mesa prestigiado, muito senhor do seu nariz, bem acolitado por alguns intelectuais amigos, tinha opini\u00f5es claras sobre os homens que at\u00e9 agora tinham dirigido os destinos da classe. Fizeram um bom trabalho de agita\u00e7\u00e3o, mas eram um bocado meio loucos, dizia. Estavam ultrapassados. A forma violenta como falam e agem tem gerado \u00f3dios e incompreens\u00f5es. Feiteira n\u00e3o tinha d\u00favidas. Para ele, n\u00e3o era vi\u00e1vel a maneira como t\u00eam vindo a caminhar. Como se t\u00eam feito e apresentado as reivindica\u00e7\u00f5es. Era preciso estabelecer uma nova linha de conduta, e seguir uma nova orienta\u00e7\u00e3o. Modernizar e dar nova imagem \u00e0 Associa\u00e7\u00e3o. Saber falar com os patr\u00f5es e com o Governo. Com o devido respeito, sem humilha\u00e7\u00f5es e repres\u00e1lias de parte a parte. Porque, se n\u00e3o se tiver crit\u00e9rios e sensatez na forma de tratar cada problema, continua-se em lit\u00edgio, indefinidamente.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: medium\"><span style=\"color: #000000\">Foi com base neste pensamento que a nova Comiss\u00e3o Executiva come\u00e7ou a elaborar um <span style=\"font-family: Arial\"><i>\u2018grande plano de trabalhos\u2019.<\/i><\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">No mesmo n\u00famero do jornal em que s\u00e3o divulgadas as conclus\u00f5es do Congresso de Tomar, os novos dirigentes d\u00e3o a conhecer as linhas gerais da nova orienta\u00e7\u00e3o, em artigo assinado por Z\u00e9 Cartaxo<\/span><a title=\"\" href=\"#_ftn22\"><span style=\"color: #0066cc\">[22]<\/span><\/a><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">:<\/span><\/p>\n<p><b><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">&#8211; Que a Associa\u00e7\u00e3o de classe seja como que uma garantia para os patr\u00f5es e para o publico, da compet\u00eancia moral e profissional dos empregados;<\/span><\/b><\/p>\n<p><b><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">&#8211; O reconhecimento mutuo das associa\u00e7\u00f5es patronais e dos trabalhadores;<\/span><\/b><\/p>\n<p><b><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">&#8211; A Cria\u00e7\u00e3o duma agencia de coloca\u00e7\u00f5es;<\/span><\/b><\/p>\n<p><b><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">&#8211; A Cria\u00e7\u00e3o de um cart\u00e3o de identidade;<\/span><\/b><\/p>\n<p><b><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">&#8211; Exclusivo de emprego para o pessoal identificado pela Associa\u00e7\u00e3o.<\/span><\/b><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Conseguindo estes objectivos, em negocia\u00e7\u00f5es a entabular entre patr\u00f5es e empregados, mediadas pela <\/span><i><span style=\"color: #000000;font-family: Arial;font-size: medium\">Propaganda Portugal<\/span><a title=\"\" href=\"#_ftn23\"><b><span style=\"color: #0066cc\">[23]<\/span><\/b><\/a><span style=\"color: #000000;font-family: Arial;font-size: medium\">,<\/span><\/i><span style=\"color: #000000;font-size: medium\"> que solicitaremos, estamos convencidos que se inaugurar\u00e1 uma nova fase na ind\u00fastria em que trabalhamos, com grandes vantagens para todos.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">N\u00e3o se trata de menosprezar o trabalho das direc\u00e7\u00f5es anteriores, nem de fazer oposi\u00e7\u00e3o aos dedicados companheiros que at\u00e9 agora t\u00eam orientado a Associa\u00e7\u00e3o, mas t\u00e3o-somente assentar num plano que harmonize ideias e interesses.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">E, do mesmo modo que associa\u00e7\u00f5es com orienta\u00e7\u00f5es diferentes se uniram no Congresso de Tomar, tamb\u00e9m n\u00f3s procuremos fazer o mesmo em proveito da classe a que pertencemos e defendemos, com o leal concurso de todos. <\/span><\/p>\n<p><b><span style=\"text-decoration: underline\"><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">A primeira grande mudan\u00e7a introduzida na Associa\u00e7\u00e3o foi a sa\u00edda da sede sindical colectiva e a ida para a Travessa dos Inglesinhos, no Bairro Alto.<\/span><\/span><\/b><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Mudan\u00e7a que na opini\u00e3o do novo Presidente, n\u00e3o tinha sido conseguida pela direc\u00e7\u00e3o transacta, n\u00e3o por falta de meios, mas pelo muito trabalho e o muito tempo e dinheiro que gastavam na fiscaliza\u00e7\u00e3o para cumprimento do descanso semanal. S\u00f3 do m\u00eas anterior \u00e0 tomada de posse tinham deixado 110 processos para enviar para tribunal. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Feiteira, afirmava perante os colegas: &#8211; Felizmente que isto vai mudar. A nova politica de di\u00e1logo j\u00e1 trouxe \u00e0 sede da Associa\u00e7\u00e3o uma delega\u00e7\u00e3o de seis patr\u00f5es, incluindo o Presidente da respectiva associa\u00e7\u00e3o patronal, que se comprometeram a cumprir o descanso semanal se n\u00e3o d\u00e9ssemos seguimento aos processos de queixa.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">A nova sede \u00e9 uma casa moderna, onde foram feitas obras de adapta\u00e7\u00e3o apropriadas \u00e0 fun\u00e7\u00e3o. Possui uma luxuosa sala de sess\u00f5es, que pode ser transformada em teatro visto possuir um espl\u00eandido palco, onde pode ser representada qualquer. Tem gabinetes para as direc\u00e7\u00f5es, salas de reuni\u00e3o e de leitura, onde tamb\u00e9m se pensa fundar uma biblioteca. Est\u00e1 j\u00e1 montado o telefona n\u00ba 884, para servir o associados; uma Agencia de Coloca\u00e7\u00f5es; a Tuna, e um grupo musical; aulas de franc\u00eas, estando tamb\u00e9m previsto o ensino do ingl\u00eas. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">O projecto de cart\u00e3o de identidade para ajudar a controlar o emprego est\u00e1 tamb\u00e9m <span style=\"font-family: Arial\">\u00a0<\/span>em andamento.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: medium\"><span style=\"color: #000000\">O acordo de gest\u00e3o comum da sede com a associa\u00e7\u00e3o mutualista dos cozinheiros e a cooperativa dos criados, expresso em regulamento, com um \u00f3rg\u00e3o aut\u00f3nomo constitu\u00eddo por elementos de cada uma das associa\u00e7\u00f5es, \u00e9 considerado um modelo a seguir pelo movimento oper\u00e1rio.<span style=\"font-family: Arial\">\u00a0 <\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Foi estabelecido um plano de confer\u00eancias de car\u00e1cter educativo, para cuja concretiza\u00e7\u00e3o j\u00e1 estava garantida a participa\u00e7\u00e3o de escritores, professores, jornalistas e advogados. A primeira teve a participa\u00e7\u00e3o do Dr. Jo\u00e3o de Deus Ramos<\/span><a title=\"\" href=\"#_ftn24\"><span style=\"color: #0066cc\">[24]<\/span><\/a><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">, que tratou o tema, \u2018<\/span><span style=\"color: #000000;font-family: Arial;font-size: medium\"><i>A Instru\u00e7\u00e3o\u2019.<\/i><\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Na sua li\u00e7\u00e3o, muito concorrida, o professor e deputado socialista, disse que a prolifera\u00e7\u00e3o de estrangeiros a trabalhar na ind\u00fastria hoteleira se devia \u00e0 inexist\u00eancia de forma\u00e7\u00e3o profissional em Portugal. E fez quest\u00e3o de elogiar a Associa\u00e7\u00e3o por ter assumido o objectivo de suprir essa lacuna.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: medium\"><span style=\"color: #000000\"><span style=\"font-family: Arial\">\u00a0<\/span>O novo Presidente da Associa\u00e7\u00e3o, Adelino Feiteira, julgava ter um trunfo importante para apresentar \u00e0 Assembleia-geral que se realizou em Mar\u00e7o de 1915. A comiss\u00e3o chefiada por si, que foi \u00e0 Associa\u00e7\u00e3o Patronal pedir auxilio para custear os cursos de l\u00ednguas, saiu de l\u00e1 euf\u00f3rica com os resultados.<\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Em tom de vit\u00f3ria, Feiteira informou a Assembleia que os patr\u00f5es lhes tinham prometido ajuda financeira. E, concluiu embevecido, que tinham sido recebidos de forma muito simp\u00e1tica e dialogante pelos dirigentes patronais, em torno de uma mesa e cadeiras sumptuosas \u2013 at\u00e9 lhes tinham oferecido bolos e um c\u00e1lice de Vinho do Porto-.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Dera-se sem d\u00favida uma grande viragem na vida e na orienta\u00e7\u00e3o da Associa\u00e7\u00e3o, que por isso mesmo, n\u00e3o deixou de desencadear forte oposi\u00e7\u00e3o interna.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Os sindicalistas revolucion\u00e1rios e os anarquistas, organizados, contra-atacaram.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Queriam saber se a direc\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m tinha tratado com os patr\u00f5es as formas de cumprimento da lei do descanso semanal e de acabar com o roubo das gratifica\u00e7\u00f5es. Queriam saber porque raz\u00e3o \u00e9 que a Associa\u00e7\u00e3o ainda n\u00e3o se filiara na UON, e porque n\u00e3o tinha contribu\u00eddo como as outras classes para o or\u00e7amento do 1\u00ba de Maio. Queriam saber porque \u00e9 que se tinham esquecido de nomear os representantes dos trabalhadores nos tribunais Avindores e para a Bolsa de Trabalho de Lisboa.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Surpreendido pelo grau de organiza\u00e7\u00e3o da oposi\u00e7\u00e3o, o Presidente da Comiss\u00e3o Executiva tenta apaziguar os \u00e2nimos. Declara que j\u00e1 tinham enviado um m\u00eas de quotiza\u00e7\u00e3o para a UON, mas que quanto \u00e0 filia\u00e7\u00e3o, seria uma quest\u00e3o a pensar. Para o 1\u00ba de Maio, prop\u00f5e a circula\u00e7\u00e3o de uma folha para recolha de fundos pela Assembleia. Quanto \u00e0 falta de nomea\u00e7\u00e3o dos representantes justifica a omiss\u00e3o com os muitos afazeres. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Relativamente \u00e1s quest\u00f5es do descanso semanal e da paga do trabalho, considera extempor\u00e2neo estar agora a coloc\u00e1-las ao patronato. Acha melhor esperar algum tempo at\u00e9 eles cumprirem a promessa de financiamento dos cursos de forma\u00e7\u00e3o realizados na associa\u00e7\u00e3o. Depois da satisfa\u00e7\u00e3o deste, faremos outros pedidos, conclui.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Jos\u00e9 de Almeida Duarte, um dos fundadores, dirigente educado, sereno e rigoroso, mais experiente nestas refregas, acudiu em ajuda ao camarada de Direc\u00e7\u00e3o. Queria apresentar \u00e0 Assembleia, o documento que consideravam mais importante para a classe, aprovado no Congresso de Tomar: o projecto de regulamenta\u00e7\u00e3o do jogo, elaborado por Carlos Rates<\/span><a title=\"\" href=\"#_ftn25\"><span style=\"color: #0066cc\">[25]<\/span><\/a><span style=\"color: #000000;font-size: medium\"> e com cuja fundamenta\u00e7\u00e3o e objectivos estavam de acordo e pretendiam defender junto do Governo.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Como disse Rates no congresso \u2013 prosseguiu Almeida Duarte \u2013 apesar da proibi\u00e7\u00e3o, joga-se desenfreadamente em Portugal. Logo, \u00e9 melhor legalizar e regulamentar o jogo. A legaliza\u00e7\u00e3o dar\u00e1 trabalho aos oper\u00e1rios da constru\u00e7\u00e3o civil e do mobili\u00e1rio, e na hotelaria, ocupar\u00e1 muitos bra\u00e7os inactivos. Para isso era preciso garantir as condi\u00e7\u00f5es expressas no projecto de regulamento:<\/span><\/p>\n<p><i><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">a) Que as constru\u00e7\u00f5es de edif\u00edcios, parques, etc. sejam executadas por oper\u00e1rios portugueses; b) Que, pelo menos, tr\u00eas quartas partes do pessoal hoteleiro, seja portugu\u00eas; c) Que as receitas provenientes do jogo sejam aplicadas; metade \u00e0 instru\u00e7\u00e3o prim\u00e1ria e profissional, por interven\u00e7\u00e3o dos munic\u00edpios; outra metade \u00e1s reformas sociais do operariado.<\/span><a title=\"\" href=\"#_ftn26\"><b><span style=\"color: #0066cc\">[26]<\/span><\/b><\/a><\/i><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Quanto \u00e0 Bolsa de Trabalho, mercado destinado \u00e0 oferta e procura de emprego, onde patr\u00f5es e empregados est\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o uns com os outros, Almeida Duarte \u00e9 de opini\u00e3o que se deve valorizar a que est\u00e1 em curso de instala\u00e7\u00e3o na sede da Associa\u00e7\u00e3o, exclusivamente dedicada aos s\u00f3cios, com preju\u00edzo da Bolsa de Lisboa.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Para os Revolucion\u00e1rios, as interven\u00e7\u00f5es dos membros dos corpos gerentes n\u00e3o s\u00f3 n\u00e3o convenceram, como foram a prova real das cr\u00edticas que lhes faziam. E voltaram \u00e0 carga.<\/span><\/p>\n<p><b><span style=\"text-decoration: underline\"><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Sob a nova direc\u00e7\u00e3o, a Associa\u00e7\u00e3o estava a desviar-se dos fins principais para que fora criada. A dar prioridade \u00e0 realiza\u00e7\u00e3o de festas e a iludir-se com a ing\u00e9nua possibilidade de se substituir ao patronato e ao Estado na educa\u00e7\u00e3o e forma\u00e7\u00e3o profissional. A fechar-se em reuni\u00f5es de gabinete, em di\u00e1logos sem fim, numa politica de n\u00e3o querer hostilizar os propriet\u00e1rios, para que estes acabem por melhorar as condi\u00e7\u00f5es de trabalho por via do convencimento e da raz\u00e3o.<\/span><\/span><\/b><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">A oposi\u00e7\u00e3o acusa ainda a direc\u00e7\u00e3o de n\u00e3o compreender que o pretendido relacionamento <i><span style=\"font-family: Arial\">\u2018amig\u00e1vel<\/span><\/i> com os patr\u00f5es, s\u00f3 para que a classe esteja bem vista por eles, os coloca sem liberdade de ac\u00e7\u00e3o para agir contra qualquer atropelo, sob a chantagem de retirarem a sua <i><span style=\"font-family: Arial\">\u2018confian\u00e7a<\/span><\/i> e acabarem com as boas rela\u00e7\u00f5es.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Manuel Rodrigues Correia \u00e9 frontal. Acusa Feiteira de ser uma marioneta nas m\u00e3o dos intelectuais das d\u00fazias que come\u00e7aram a frequentar a Associa\u00e7\u00e3o depois das expuls\u00f5es, sem se saber bem de onde vinham e ao que vinham. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Ao certo s\u00f3 se sabe que pretendem transformar Lisboa num novo Monte Carlo; que, enquanto pagamos aos patr\u00f5es para trabalhar, fundam uma Agencia de Coloca\u00e7\u00f5es na sede da Associa\u00e7\u00e3o, e fazem disso um neg\u00f3cio vexat\u00f3rio que devia era ser proibido. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: medium\"><span style=\"color: #000000\"><b><span style=\"text-decoration: underline\">A Direc\u00e7\u00e3o reformadora acabou por cair em assembleia-geral,<\/span><\/b> n\u00e3o resistindo \u00e0 contesta\u00e7\u00e3o. Mas a Direc\u00e7\u00e3o que a substituiu durou pouco mais de seis meses. O seu Presidente, Manuel Rodrigues Correia, demitiu-se por raz\u00f5es familiares e as elei\u00e7\u00f5es seguintes proporcionaram o regresso em for\u00e7a de Adelino Feiteira e da sua corrente sindical, que puderam dizer: &#8211; afinal os revolucion\u00e1rios foram-se embora sem fazer nada.<\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Neste segundo mandato, merc\u00ea de uma melhor composi\u00e7\u00e3o dos corpos gerentes, em que o activo Quintela Maia, s\u00f3cio dos primeiros tempos, assumiu papel de relevo ao lado de Feiteira e Jos\u00e9 de Almeida Duarte, a Direc\u00e7\u00e3o reformista da Associa\u00e7\u00e3o passou a dar mais aten\u00e7\u00e3o \u00e0 ac\u00e7\u00e3o reivindicativa e aos atropelos do patronato, embora sem alterar a sua linha ideol\u00f3gica.<\/span><\/p>\n<p><b><span style=\"text-decoration: underline\"><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Em 28 e 29 de Abril de 1917, realiza-se em Lisboa, na Sociedade de Geografia, sob a presid\u00eancia do Ministro do Fomento, Dr. Magalh\u00e3es Lima, o primeiro Congresso Hoteleiro, organizado pelo Conselho Nacional de Turismo. <\/span><\/span><\/b><\/p>\n<p><b><span style=\"text-decoration: underline\"><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Neste congresso \u00e9 discutida a regulamenta\u00e7\u00e3o o jogo; s\u00e3o propostas a cria\u00e7\u00e3o de uma federa\u00e7\u00e3o do turismo; uma escola de forma\u00e7\u00e3o profissional; a repress\u00e3o \u00e0 mendicidade nas zonas tur\u00edsticas; o uso de trajes caracter\u00edsticos de cada regi\u00e3o e do nome bem vis\u00edvel na lapela, pelos empregados dos hot\u00e9is.<\/span><\/span><\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-size: medium\"><span style=\"color: #000000\"><b><span style=\"text-decoration: underline\">A direc\u00e7\u00e3o da Associa\u00e7\u00e3o lamenta n\u00e3o ter sido convidada, j\u00e1 que <\/span><\/b>os trabalhadores t\u00eam uma palavra a dizer no desenvolvimento do turismo, e deviam ter o direito de estar ao lado das v\u00e1rias entidades presentes no congresso.<\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">N\u00e3o podendo participar de viva voz, a Associa\u00e7\u00e3o enviou ao congresso uma peti\u00e7\u00e3o em que d\u00e1 algumas informa\u00e7\u00f5es, exp\u00f5e os seus pontos de vista e solicita que sejam tomados em considera\u00e7\u00e3o. Informa que teve a funcionar durante alguns meses aulas de l\u00ednguas, que s\u00f3 n\u00e3o tiveram \u00eaxito, porque os que as frequentavam n\u00e3o eram dispensados para o efeito pelas empresas, havendo muitas que nem queriam que os seus empregados fossem filiados na Associa\u00e7\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: medium\"><span style=\"color: #000000\"><span style=\"font-family: Arial\">\u00a0<\/span>M\u00e1 compreens\u00e3o esta, afirmam. Porque se um empregado educado pugna mais conscientemente para que sejam respeitados os seus direitos, tamb\u00e9m cumprir\u00e1 melhor os seus deveres profissionais para com a casa onde trabalha.<\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">O congresso \u2013 continua a sua peti\u00e7\u00e3o \u2013 tamb\u00e9m n\u00e3o pode deixar de ter em conta as condi\u00e7\u00f5es de trabalho: os dormit\u00f3rios dos empregados s\u00e3o uma vergonha, resumindo-se em muitos casos a um simples colch\u00e3o estendido em s\u00edtios viciados, onde o pr\u00f3prio ar \u00e9 irrespir\u00e1vel. O descanso semanal continua a n\u00e3o ser cumprido, havendo muitos mo\u00e7os de cozinha e copa que passam meses sem por o p\u00e9 na rua. Os criados de mesa continuam a ter de dar aos patr\u00f5es parte das gratifica\u00e7\u00f5es que recebem dos clientes.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Posto isto, dizemos com toda a lealdade, que enquanto a classe patronal se n\u00e3o convencer que n\u00e3o deve impedir os empregados de se associarem e n\u00e3o cumprir as leis da Republica, os congressos n\u00e3o servir\u00e3o de nada.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Esperando que saibam tirar as devidas ila\u00e7\u00f5es, agradecem antecipadamente, etc., etc., terminam. <\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div>\n<p><a title=\"\" href=\"#_ftnref22\">[22]<\/a> Pseud\u00f3nimo com que escreve em <i>A Defesa, <\/i>Martins Santareno, membro do Partido Socialista e dirigente do Centro Antero de Quental.<\/p>\n<\/div>\n<div>\n<p><a title=\"\" href=\"#_ftnref23\">[23]<\/a> Institui\u00e7\u00e3o oficial de promo\u00e7\u00e3o do turismo.<\/p>\n<\/div>\n<div>\n<p><a title=\"\" href=\"#_ftnref24\">[24]<\/a> Pedagogo, fundador dos Jardins Escola Jo\u00e3o de Deus, filho de Jo\u00e3o de Deus, autor da Cartilha Maternal.<\/p>\n<\/div>\n<div>\n<p><a title=\"\" href=\"#_ftnref25\">[25]<\/a> Carlos Rates foi um dos mais destacados sindicalistas entre 1910 e 1925 e foi um dos fundadores Partido Comunista em 1921. Mais tarde passou-se para o fascismo e veio a trabalhar num dos seus \u00f3rg\u00e3os oficiosos, <i>O Di\u00e1rio da Manh\u00e3.<\/i><\/p>\n<\/div>\n<div>\n<p><a title=\"\" href=\"#_ftnref26\">[26]<\/a> <i>A Defesa,<\/i> N\u00ba 74,de 15 de Maio de 1914 p.1<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<\/div>\n<p><b><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">GUERRA \u00c0 GUERRA, O AGRAVAMENTO DA CARESTIA DE VIDA<\/span><\/b><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">A maioria dos pol\u00edticos republicanos, com Afonso Costa \u00e0 cabe\u00e7a, defendia a entrada de Portugal na guerra contra a Alemanha, ao lado da Inglaterra e da Fran\u00e7a, entre outras raz\u00f5es, a pretexto de que se n\u00e3o o fizessem, terminada a guerra, as col\u00f3nias portuguesas seriam moeda de troca nas negocia\u00e7\u00f5es entre os bel\u00edgerantes, em eventuais negocia\u00e7\u00f5es de paz. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Claro que o Povo n\u00e3o estava interessado numa guerra que lhe iria matar os filhos e trazer a fome. Mas isso n\u00e3o impediu a forma\u00e7\u00e3o do Governo da \u00abUni\u00e3o Sagrada\u00bb constitu\u00eddo pelas principais for\u00e7as politicas, chefiado por Afonso Costa, com o fim de levar Portugal entrar na guerra. O que veio a acontecer com efeitos desastrosos no plano militar e no plano social.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Um ataque alem\u00e3o ao sector portugu\u00eas, no rio La Lys, em Fran\u00e7a, dizimaria em algumas horas 7425 soldados. O historiador Jaime Cortes\u00e3o viria a equiparar a participa\u00e7\u00e3o de Portugal na I Grande Guerra \u00e0 aventura de D. Sebasti\u00e3o, em Alc\u00e1cer Kibir, no Norte de \u00c1frica, em Marrocos. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">O embarque de soldados portugueses para a guerra em Fran\u00e7a come\u00e7ou em Janeiro de 1917, \u00e0 m\u00e9dia de 4 mil por m\u00eas.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: medium\"><span style=\"color: #000000\"><span style=\"font-family: Arial\">\u00a0<\/span>As correntes de classe do sindicalismo mundial, h\u00e1 muito que tinham assumido a Paz como um dos objectivos centrais da sua luta. Guerra \u00e0 Guerra, n\u00e3o era uma palavra de ordem exclusiva de Lenine, na R\u00fassia Czarista. Era-o tamb\u00e9m de grande parte do sindicalismo mundial.<\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Foi obedecendo a esta premissa que na Associa\u00e7\u00e3o de Classe da hotelaria se tomaram as primeiras posi\u00e7\u00f5es sobre a conflagra\u00e7\u00e3o. Para os sindicalistas, a guerra, tendo muitos fautores, \u00e9, em resumo, um grande conflito da quest\u00e3o social. Por de traz de todas as raz\u00f5es est\u00e3o os interesses dos capitalistas.<\/span><\/p>\n<p><i><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">\u00abO actual conflito n\u00e3o foi motivado pela ambi\u00e7\u00e3o austr\u00edaca, nem pela cobi\u00e7a inglesa, nem pela loucura alem\u00e3, nem pela precipita\u00e7\u00e3o russa, isoladamente, porque teve causa simultaneamente em todos esses factos e em muitos outros. No fundo, a guerra foi determinada, inevitabilizada pelo capitalismo e pelo Estado.\u00bb<\/span><a title=\"\" href=\"#_ftn27\"><b><span style=\"color: #0066cc\">[27]<\/span><\/b><\/a><\/i><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Na Associa\u00e7\u00e3o, alinhava-se pela vis\u00e3o de Perfeito de Carvalho, primeiro Secret\u00e1rio-geral da UON, agora na Ilha da Madeira, onde desenvolve uma intensa batalha contra a guerra, no seman\u00e1rio<i><span style=\"font-family: Arial\"> Trabalho e Uni\u00e3o,<\/span><\/i> que dirige at\u00e9 Mar\u00e7o de 1916.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">S\u00f3 houve unanimidade entre a classe, na controv\u00e9rsia sobre a guerra, nos primeiros tempos. Do Porto veio um artigo solicitando a publica\u00e7\u00e3o em <i><span style=\"font-family: Arial\">A Defesa, <\/span><\/i>a defender a participa\u00e7\u00e3o de Portugal na Guerra. Em Lisboa, embora a maioria fosse contra, apareceram tamb\u00e9m alguns guerristas na classe.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Entre os activistas sindicais, instalou-se a confus\u00e3o total. O congresso de Tomar tinha tomado posi\u00e7\u00e3o contra a guerra. Os seus princ\u00edpios impunham-lhes a luta pela paz. O operariado, a juventude, as m\u00e3es e o povo em geral, n\u00e3o queriam a guerra.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Mesmo assim, a divis\u00e3o instalou-se entre guerristas e anti-guerristas e atravessou todas as correntes ideol\u00f3gicas. Os socialistas foram aturdidos pela posi\u00e7\u00e3o da II internacional, ao colocar-se em defesa das burguesias nacionais e contra a palavra de ordem internacionalista, \u00abguerra \u00e0 guerra\u00bb. Entre os anarquistas, que de inicio supunham que a guerra traria a revolu\u00e7\u00e3o social, foi o drama completo quando foram conhecidas as posi\u00e7\u00f5es de dois dos seus mais reputados mentores ideol\u00f3gicos, a n\u00edvel internacional. O russo Kropotkine, a defender a interven\u00e7\u00e3o contra a Alemanha, a fim de se derrotar o militarismo alem\u00e3o e o imperialismo prussiano para salvar a civiliza\u00e7\u00e3o europeia. Do lado contr\u00e1rio, o italiano Malatesta, a assumir uma posi\u00e7\u00e3o anti-belicista, afirmando que nenhum dos beligerantes tinha o direito de se proclamar defensor da civiliza\u00e7\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Os sindicalistas revolucion\u00e1rios n\u00e3o escaparam \u00e0 divis\u00e3o. Alguns destacados activistas desta tend\u00eancia, Carlos Rates, Manuel Ribeiro e outros<\/span><a title=\"\" href=\"#_ftn28\"><span style=\"color: #0066cc\">[28]<\/span><\/a><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">, vieram a p\u00fablico manifestar-se pela interven\u00e7\u00e3o de Portugal na guerra. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: medium\"><span style=\"color: #000000\"><span style=\"font-family: Arial\">\u00a0<\/span>Para obviar a confrontos maiores, na hotelaria, decidiu-se que apenas se publicariam no jornal da Associa\u00e7\u00e3o, artigos que defendessem a necessidade de acabar com todas as guerras.<\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">A entrada de Portugal no conflito trouxe a mobiliza\u00e7\u00e3o de associados e activistas, agravou ainda mais a carestia de vida, e enlutou as fam\u00edlias. Come\u00e7a a falar-se que as mulheres iriam substituir os homens nos v\u00e1rios misteres. Diz-se que os hot\u00e9is v\u00e3o servir para albergar feridos de guerra, que naturalmente n\u00e3o poder\u00e3o dar gratifica\u00e7\u00f5es, vindo por isso, se tal acontecer, a acrescentar \u00e0 infla\u00e7\u00e3o a redu\u00e7\u00e3o efectiva da remunera\u00e7\u00e3o pecuni\u00e1ria dos trabalhadores de hotelaria.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">O problema da escassez e da falta de qualidade do p\u00e3o, que j\u00e1 se arrastava de antes da guerra, agrava-se brutalmente. Os pre\u00e7os dos bens essenciais duplicam rapidamente e s\u00e3o objecto de a\u00e7ambarcamento por parte dos especuladores.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">O pre\u00e7o da ch\u00e1vena do caf\u00e9 aumentou dez r\u00e9is, o que vem prejudicar as gratifica\u00e7\u00f5es dos clientes, que j\u00e1 tinham diminu\u00eddo muito devido \u00e0 baixa do poder de compra. Os ordenados continuam a ser os mesmos. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Em Novembro de 1916, a Associa\u00e7\u00e3o dos Manipuladores de P\u00e3o pede \u00e0 Associa\u00e7\u00e3o para se pronunciar sobre a quest\u00e3o do p\u00e3o, convocando-se para o efeito uma Reuni\u00e3o Magna, que se realiza em 20 de Novembro de 1916. Na sala encontra-se um c\u00edvico, em representa\u00e7\u00e3o da autoridade, para n\u00e3o deixar dizer coisas que n\u00e3o pudessem ser ouvidas. O Governo da Uni\u00e3o Sagrada tinha imposto a censura. Mas n\u00e3o se saiu fora dos rails, e como se tratou apenas das quest\u00f5es da vida, como boa gente amante da Paz, que s\u00f3 faz guerra aos desalmados dos patr\u00f5es que continuam a ficar com as gratifica\u00e7\u00f5es, tudo se fez sem necessidade de interven\u00e7\u00e3o da autoridade.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">A sala estava apinhada quando se procedeu \u00e0 discuss\u00e3o e vota\u00e7\u00e3o das duas mo\u00e7\u00f5es: Uma, que expressa apoio ao governo para que cumpra o decreto que estabelece dois tipos de p\u00e3o, propondo ainda uma terceira qualidade, mais barata. E outra, a apoiar a proposta da Associa\u00e7\u00e3o dos Manipuladores, de um s\u00f3 tipo de p\u00e3o, e um \u00fanico pre\u00e7o, que n\u00e3o v\u00e1 alem dos 12 centavos o quilo, assinada pelo s\u00f3cio n\u00ba 1 da Associa\u00e7\u00e3o, Manuel Rodrigues Correia, e aprovada por grande maioria.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Numa posi\u00e7\u00e3o final, a assembleia exige o combate ao a\u00e7ambarcamento por parte do Governo. Prop\u00f5e que as c\u00e2maras municipais adquiram g\u00e9neros de consumo essenciais e os coloquem no mercado, para atrav\u00e9s da concorr\u00eancia, obrigarem os a\u00e7ambarcadores a vender os artigos que ocultam. Terminam afirmando que se o Governo se deixasse de <i><span style=\"font-family: Arial\">\u2018tabelas\u2019<\/span><\/i> e criasse medidas de aux\u00edlio \u00e1s cooperativas, estas, por si s\u00f3, manteriam na ordem os a\u00e7ambarcadores e acabavam com a ladroeira.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: medium\"><span style=\"color: #000000\"><b><span style=\"text-decoration: underline\">O decreto de economia da luz, de 30 de Dezembro de 1916, vem agravar abruptamente a situa\u00e7\u00e3o da classe. Esta lei, determinou que os caf\u00e9s, restaurantes e casas similares, sejam encerradas \u00e1s 23 horas<\/span><\/b>. Ora, \u00e9 depois desta hora que as casas fazem o maior volume de neg\u00f3cio. Sabendo-se que a remunera\u00e7\u00e3o dos criados de mesa \u00e9 constitu\u00edda pelas gorjetas dos clientes, \u00e9 bom de ver quais as consequ\u00eancias deste encerramento prematuro.<\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: medium\"><span style=\"color: #000000\"><b><span style=\"text-decoration: underline\">Nos primeiros meses de 1917, as associa\u00e7\u00f5es de classe de Lisboa, Porto e Braga, desmultiplicam-se em dilig\u00eancias e peti\u00e7\u00f5es, a solicitar a suspens\u00e3o da aplica\u00e7\u00e3o do decreto da luz \u00e0 hotelaria. <\/span><\/b>As dificuldades foram maiores, devido ao facto de os patr\u00f5es terem ficado passivos, neste caso, cumprindo imediatamente a lei, ao mesmo tempo que despediam trabalhadores, sob o pretexto de precisarem de menos pessoal para um per\u00edodo mais curto de abertura.<\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">O mesmo j\u00e1 n\u00e3o acontecia com o cumprimento da lei do descanso semanal, que continuavam a violar impunemente. Dos 114 autos de infrac\u00e7\u00e3o enviados a tribunal pela associa\u00e7\u00e3o de Lisboa, em Mar\u00e7o, apenas foram julgados os propriet\u00e1rios que n\u00e3o tinham padrinhos nos c\u00edrculos do poder.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: medium\"><span style=\"color: #000000\"><b><span style=\"text-decoration: underline\">As associa\u00e7\u00f5es de hotelaria sedeadas na Travessa dos Inglezinhos, a que se juntaram os corretores, em reuni\u00e3o conjunta, decidem convocar uma reuni\u00e3o Magna de protesto contra a carestia de vida.<\/span><\/b> Era preciso tomar medidas e juntarem-se \u00e0 luta geral promovida pela central sindical. Fazer como as outras classes. Lutar. Isto j\u00e1 l\u00e1 n\u00e3o ia com peti\u00e7\u00f5es conclu\u00edram. O pre\u00e7o do feij\u00e3o, que era a 16 centavos em Dezembro de 1917, estava a 25 centavos em Abril de 1918. O mesmo se passava com o a\u00e7\u00facar, o arroz e outros bens essenciais. Tr\u00eas quartos das despesas das fam\u00edlias oper\u00e1rias s\u00e3o feias na compra de bens alimentares.<\/span><\/span><\/p>\n<p><b><span style=\"text-decoration: underline\"><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Neste ano de fome, guerra e peste, n\u00e3o se comemora o anivers\u00e1rio do 5 de Novembro, pela primeira vez na hist\u00f3ria da Associa\u00e7\u00e3o.<\/span><\/span><\/b><\/p>\n<p><b><span style=\"text-decoration: underline\"><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">A culminar os protestos contra a carestia de vida, a UON lan\u00e7a-se na organiza\u00e7\u00e3o de uma greve geral, a realizar a partir de 18 de Novembro de 1918.<\/span><\/span><\/b><\/p>\n<p><b><span style=\"text-decoration: underline\"><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">A ades\u00e3o \u00e0 greve geral \u00e9 boa por parte dos agr\u00edcolas do Alentejo e do operariado do Algarve, onde em Portim\u00e3o foram mortos dois mar\u00edtimos, pela tropa.<\/span><\/span><\/b><\/p>\n<p><b><span style=\"text-decoration: underline\"><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">No Vale de Santiago, as popula\u00e7\u00f5es rurais chegaram a pretender expropriar e dividir as terras<\/span><a title=\"\" href=\"#_ftn29\"><b><span style=\"text-decoration: underline\"><span style=\"color: #0066cc\">[29]<\/span><\/span><\/b><\/a><\/span><\/b><\/p>\n<p><b><span style=\"text-decoration: underline\"><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">O Sidonismo, que chegou a captar a simpatia de parte do operariado, elevava-se agora ao melhor estilo de Afonso Costa, incluindo a acusa\u00e7\u00e3o aos sindicalistas de estarem mancomunados, desta vez, simultaneamente com os mon\u00e1rquicos e com os democr\u00e1ticos.<\/span><\/span><\/b><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Ap\u00f3s a sua morte, os partid\u00e1rios de Sid\u00f3nio passam a ser mais papistas que o Papa e aumentam a persegui\u00e7\u00e3o aos sindicalistas. Nos dias que medeiam entre o assassinato e os funerais, os sidonistas obrigam v\u00e1rios sindicatos, sob a amea\u00e7a de assalto, a porem as respectivas bandeiras a meia haste, e imp\u00f5em o uso de gravata e bra\u00e7adeiras pretas \u00e0 popula\u00e7\u00e3o. Bra\u00e7adeiras e gravatas expressamente feitas para o efeito nos estabelecimentos do Estado, nomeadamente no Dep\u00f3sito Central de Fardamentos.<\/span><a title=\"\" href=\"#_ftn30\"><span style=\"color: #0066cc\">[30]<\/span><\/a><span style=\"color: #000000;font-family: Arial;font-size: medium\">\u00a0 <\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Durante o Sidonismo, os mon\u00e1rquicos tinham levantado a cabe\u00e7a e reorganizaram-se, chegando a criar juntas militares com o intuito de restaurar a Monarquia. Aproveitando o vazio de poder provocado pela morte de Sid\u00f3nio, Paiva Couceiro, erigido her\u00f3i militar devido \u00e1s campanhas em \u00c1frica, auto-promoveu-se a Regente, e a 19 de Janeiro de 1919, no Porto, declarou restabelecido o regime mon\u00e1rquico dando azo \u00e0 fugaz Monarquia do Norte. <\/span><\/p>\n<p><b><span style=\"text-decoration: underline\"><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Em Lisboa, uma imponente multid\u00e3o em que predomina o operariado, incluindo muitas mulheres, desce a Avenida da Liberdade em direc\u00e7\u00e3o ao Terreiro do Pa\u00e7o, onde faz saber a Tamagnini Barbosa, ent\u00e3o Chefe do Governo, que est\u00e3o dispostos a bater-se pela Rep\u00fablica<\/span><a title=\"\" href=\"#_ftn31\"><b><span style=\"text-decoration: underline\"><span style=\"color: #0066cc\">[31]<\/span><\/span><\/b><\/a><\/span><\/b><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Horas depois, a 24 de Janeiro, a Junta Militar do Sul, em Lisboa, tamb\u00e9m quis proclamar a Monarquia e concentrou as tropas em Monsanto. Mas, o Povo de Lisboa, juntamente com a parcela dos militares fi\u00e9is ao regime republicano, com grande participa\u00e7\u00e3o do operariado e activistas sindicais, armados, escalam Monsanto e escorra\u00e7am os mon\u00e1rquicos, defendendo a Republica.<\/span><\/p>\n<p><b><span style=\"text-decoration: underline\"><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">A breve trecho o poder pol\u00edtico voltava \u00e0s m\u00e3os dos homens da Rep\u00fablica.<\/span><\/span><\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-size: medium\"><span style=\"color: #000000\"><span style=\"font-family: Arial\">\u00a0<\/span>O movimento sindical n\u00e3o saiu enfraquecido do confronto. Pelo contr\u00e1rio, emergiu como principal for\u00e7a que se opusera \u00e0 ditadura, prestigiado no seio dos trabalhadores e na sociedade, o que lhe permitiu intensificar a luta contra a carestia de vida e pela redu\u00e7\u00e3o do hor\u00e1rio de trabalho.<\/span><\/span><\/p>\n<p><b><span style=\"text-decoration: underline\"><span style=\"font-size: medium\"><span style=\"color: #000000\"><span style=\"font-family: Arial\">\u00a0<\/span>Ap\u00f3s lutas laborais memor\u00e1veis e um Primeiro de Maio grandioso em 1919, o Governo manda publicar, no dia 7 de Maio, o decreto 5 516, tornando obrigat\u00f3ria a jornada de trabalho de 8 horas di\u00e1rias e 48 semanais, para o com\u00e9rcio e a ind\u00fastria.<\/span><\/span><\/span><\/b><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">S\u00f3 que, face \u00e0 reac\u00e7\u00e3o patronal, que sob o comando de Alfredo da Silva, da CUF, se recusava a cumprir a lei, o ministro atemorizou-se e apressou-se a recuar.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">O camarada Augusto, como tamb\u00e9m era conhecido o socialista Augusto Dias da Silva que ent\u00e3o ocupava a pasta de Ministro do Trabalho, <span style=\"font-family: Arial\">\u00a0<\/span>fez um despacho que remetia para o acordo entre patr\u00f5es e trabalhadores a regulamenta\u00e7\u00e3o das oito horas de trabalho, e enviou-o por circular \u00e1s associa\u00e7\u00f5es de classe.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: medium\"><span style=\"color: #000000\"><span style=\"font-family: Arial\">\u00a0<\/span>Em vez da paz social e da negocia\u00e7\u00e3o pretendidas foi a guerra que o ministro desencadeou.<\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">A luta pela aplica\u00e7\u00e3o das oito horas soma-se \u00e0 que vem sendo desenvolvida contra a infla\u00e7\u00e3o galopante, atrav\u00e9s da exig\u00eancia de aumentos salariais, e as greves sucedem-se em todas as profiss\u00f5es e actividades.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Por isso, o Governo, rapidamente esquecido do contributo que o operariado dera mais uma vez para salvar o Regime Republicano, lan\u00e7a-se de novo na repress\u00e3o. Em Olh\u00e3o, numa greve de mar\u00edtimos, a GNR faz mortos e feridos<\/span><a title=\"\" href=\"#_ftn32\"><span style=\"color: #0066cc\">[32]<\/span><\/a><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Em Lisboa regressam as pris\u00f5es em massa. A sede da UON \u00e9 encerrada devido a uma greve de solidariedade para com centenas de trabalhadores da CUF, que Alfredo da Silva havia despedido, acusando-os de sabotagem por estarem em greve. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">200 Oper\u00e1rios, incluindo a redac\u00e7\u00e3o, administra\u00e7\u00e3o e tip\u00f3grafos do jornal da confedera\u00e7\u00e3o sindical, <i><span style=\"font-family: Arial\">A Batalha, <\/span><\/i>s\u00e3o presos. O que determinou outro movimento de solidariedade, que envolveu a greve geral nos gr\u00e1ficos, e levou a que os jornais di\u00e1rios burgueses tamb\u00e9m n\u00e3o sa\u00edssem.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Na CP, durante uma greve em que ocorreram actos de sabotagem de material ferrovi\u00e1rio e nas linhas, o Governo de S\u00e1 Cardoso inaugura um dos epis\u00f3dios mais sinistros da \u00e9poca. \u00c0 frente cada locomotiva, conduzida por alguns fura greves que conseguia recrutar, mandava atrelar um <i><span style=\"font-family: Arial\">Jota,<\/span><\/i> descoberto, enchendo-o de grevistas, que assim, quando o comboio descarrilava ou ia pelos ares, independentemente da sua responsabilidade em tais actos, e fosse quem fossem os seus autores, seriam os primeiros a sofrer as consequ\u00eancias. Este processo que viria a ser repetido noutras ocasi\u00f5es, ficou conhecido pelo processo do <\/span><i><span style=\"color: #000000;font-family: Arial;font-size: medium\">Vag\u00e3o Fantasma.<\/span><a title=\"\" href=\"#_ftn33\"><b><span style=\"color: #0066cc\">[33]<\/span><\/b><\/a><\/i><\/p>\n<p><b><span style=\"text-decoration: underline\"><span style=\"font-size: medium\"><span style=\"color: #000000\"><span style=\"font-family: Arial\">\u00a0<\/span>No dia 13 de Setembro de 1919, inicia-se em Coimbra o II Congresso da UON, que se extingue e cria a CGT \u2013 Confedera\u00e7\u00e3o Geral do Trabalho, que nos anos seguintes adquire grande protagonismo. Chegou a ter mais de 100 mil s\u00f3cios nos sindicatos nela filiados<\/span><\/span><a title=\"\" href=\"#_ftn34\"><b><span style=\"text-decoration: underline\"><span style=\"color: #0066cc\">[34]<\/span><\/span><\/b><\/a><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">.<\/span><\/span><\/b><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">O ano de 1919 foi um ano extraordin\u00e1rio de acontecimentos, lutas, organiza\u00e7\u00e3o e de \u00eaxitos na hist\u00f3ria do movimento oper\u00e1rio portugu\u00eas. A derrota da reac\u00e7\u00e3o mon\u00e1rquica, as oito horas di\u00e1rias na lei geral, <i><span style=\"font-family: Arial\">A Batalha<\/span><\/i> e a CGT, s\u00e3o frutos deste ano excepcional. <\/span><\/p>\n<p><b><span style=\"text-decoration: underline\"><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Os Caf\u00e9s de Lisboa eram aut\u00eanticos centros de agita\u00e7\u00e3o politica. Mais do que nas sedes dos partidos, \u00e9 ali que se fazem as grandes discuss\u00f5es politicas. No Alvarez, na Rua Primeiro de Dezembro, re\u00fanem os comunistas do rec\u00e9m-constitu\u00eddo PCP. Os restos do Sidonismo, no Chave de Ouro. Os Democratas e a sua tropa de choque, a <i><span style=\"font-family: Arial\">Formiga Branca<\/span><\/i>, na Brasileira do Rossio. Os Mon\u00e1rquicos, no Martinho. A Esquerda Democr\u00e1tica, no It\u00e1lia, e os Anarquistas, no Caf\u00e9 Colonial.<\/span><a title=\"\" href=\"#_ftn35\"><b><span style=\"text-decoration: underline\"><span style=\"color: #0066cc\">[35]<\/span><\/span><\/b><\/a><\/span><\/b><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div>\n<p><a title=\"\" href=\"#_ftnref27\">[27]<\/a>Joaquim Perfeito de Carvalho, citado por Francisco Canais Rocha in <i>Guerristas e antiguerristas \u00abA Guerra vista por um sindicalista\u00bb<\/i>, Centro de Hist\u00f3ria da Universidade de Lisboa, Lisboa, 1986 p. 136<\/p>\n<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div>\n<p><a title=\"\" href=\"#_ftnref28\">[28]<\/a> Gon\u00e7alves, Bento, <i>Os Comunistas<\/i> <i>\u2013 Palavras Necess\u00e1rias \u2013 Porto<\/i>, A Opini\u00e3o, Porto, Maio de 1976 p. 74<\/p>\n<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div>\n<p><a title=\"\" href=\"#_ftnref29\">[29]<\/a> Sousa, Manuel Joaquim de, Op. Cit. Porto, Afrontamento, Dezembro de 1976 p. 110<\/p>\n<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div>\n<p><a title=\"\" href=\"#_ftnref30\">[30]<\/a> Vieira, Alexandre Op. Ct. 128<\/p>\n<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div>\n<p><a title=\"\" href=\"#_ftnref31\">[31]<\/a> Idem, 129<\/p>\n<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div>\n<p><a title=\"\" href=\"#_ftnref32\">[32]<\/a> Sousa, Manuel Joaquim de, Op. CIt. p. 111<\/p>\n<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div>\n<p><a title=\"\" href=\"#_ftnref33\">[33]<\/a> Idem, Op. Cit. 111-112<\/p>\n<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div>\n<p><a title=\"\" href=\"#_ftnref34\">[34]<\/a> Bento Gon\u00e7alves, <i>O PCP e o VII Congresso da Internacional Comunista,<\/i> Lisboa, Editorial Avante, Novembro de 1985 p. 18<\/p>\n<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div>\n<p><a title=\"\" href=\"#_ftnref35\">[35]<\/a>Carvalho, David de\u00a0 &#8211; <i>Os Sindicatos e a Republica Burguesa (1910 \u2013 1926) <\/i>Lisboa, Seara Nova, Mar\u00e7o de 1977.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">EXCLU\u00cdDOS DO HOR\u00c1RIO DE TRABALHO, O FIM DA PAGA PELO TRABALHO<\/span><\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-size: medium\"><span style=\"color: #000000\"><b><span style=\"text-decoration: underline\">Desde a funda\u00e7\u00e3o que na Associa\u00e7\u00e3o se tinha a ideia clara de que o instrumento principal da explora\u00e7\u00e3o capitalista era a dura\u00e7\u00e3o da jornada de trabalho<\/span><\/b>. Logo no 1\u00ba de Maio de 1909, reclamaram as oito horas di\u00e1rias, 48 semanais, um dia de descanso e um sal\u00e1rio m\u00ednimo que garanta a subsist\u00eancia do trabalhador e da sua fam\u00edlia.<\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Mas, apesar dos exemplos internacionais e at\u00e9 nacionais, como na Carris, onde j\u00e1 se tinha reduzido o hor\u00e1rio para este limite ou pr\u00f3ximo dele, n\u00e3o tinham grandes ilus\u00f5es. Nos hot\u00e9is caf\u00e9s e restaurantes havia ainda um longo caminho a percorrer. Nem os dirigentes nem os trabalhadores acreditavam na possibilidade da redu\u00e7\u00e3o di\u00e1ria de sete a dez horas, quando o dia de descanso semanal, que significava tamb\u00e9m uma redu\u00e7\u00e3o grande do tempo de trabalho, n\u00e3o estava adquirido.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Por isso, quando \u00e9 posto \u00e0 discuss\u00e3o o projecto de lei em 1911, a \u00fanica preocupa\u00e7\u00e3o da Associa\u00e7\u00e3o foi o descanso semanal. O mesmo j\u00e1 n\u00e3o aconteceu com <b><span style=\"text-decoration: underline\"><span style=\"font-family: Arial\">a lei de Janeiro de 1915, que fixa em 10 horas di\u00e1rias e 60 semanais o trabalho na ind\u00fastria<\/span><\/span><\/b>. Nesta ocasi\u00e3o, a Associa\u00e7\u00e3o foi ao parlamento entregar uma peti\u00e7\u00e3o a exigir a aplica\u00e7\u00e3o da lei na hotelaria. Mas esta reivindica\u00e7\u00e3o n\u00e3o foi isenta de controv\u00e9rsia interna. Os empregados de mesa temiam que uma t\u00e3o dr\u00e1stica redu\u00e7\u00e3o do hor\u00e1rio de trabalho viesse reduzir o montante das gratifica\u00e7\u00f5es, que continuavam a constituir a sua \u00fanica remunera\u00e7\u00e3o pecuni\u00e1ria.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: medium\"><span style=\"color: #000000\"><span style=\"font-family: Arial\">\u00a0<\/span>Em Lisboa, os que defenderam que a futura lei n\u00e3o se devia aplicar ao pessoal das mesas, n\u00e3o tiveram for\u00e7a suficiente para fazer passar esta posi\u00e7\u00e3o contradit\u00f3ria, na Assembleia-geral. No Porto aconteceu o contr\u00e1rio. A Assembleia-geral da Associa\u00e7\u00e3o desta cidade aprovou um parecer em que prop\u00f5e um hor\u00e1rio de 10 horas di\u00e1rias para o pessoal de cozinha e balc\u00e3o e que os empregados de mesa n\u00e3o fiquem inclu\u00eddos na lei.<\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">A lei acaba por abranger apenas os estabelecimentos industriais, mas estas hesita\u00e7\u00f5es e contradi\u00e7\u00f5es da classe enfraqueciam a capacidade reivindicativa relativamente ao hor\u00e1rio e viriam a ter um pre\u00e7o hist\u00f3rico muito amargo.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Nos regulamentos de horas que de seguida v\u00e3o sendo aprovados nas c\u00e2maras municipais para os estabelecimentos comerciais, com subterf\u00fagios diversos, a classe \u00e9 exclu\u00edda da regulamenta\u00e7\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p><b><span style=\"text-decoration: underline\"><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">O descalabro acontece em 1919, com a sa\u00edda do Decreto 5516 de 7 de Maio. Esta lei, que \u00e9 sem duvida um marco hist\u00f3rico na legisla\u00e7\u00e3o laboral portuguesa ao estabelecer como hor\u00e1rio m\u00e1ximo de trabalho para o com\u00e9rcio e ind\u00fastria, as 8 horas di\u00e1rias em 48 semanais, exclui da sua aplica\u00e7\u00e3o os trabalhadores de hotelaria.<\/span><\/span><\/b><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">O projecto inicial exclu\u00eda os trabalhadores dom\u00e9sticos, os do mar e os rurais da sua aplica\u00e7\u00e3o. Tal formula\u00e7\u00e3o, n\u00e3o sendo totalmente esclarecedora, permitia uma interpreta\u00e7\u00e3o favor\u00e1vel \u00e0 aplica\u00e7\u00e3o da lei aos hot\u00e9is, caf\u00e9s e restaurantes, como actividade comercial evidente que eram.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Mas o Governo acaba por ceder aos argumentos e press\u00f5es do patronato, que defende que os trabalhadores de hotelaria sempre foram considerados dom\u00e9sticos. Para defenderem a tese, os patr\u00f5es argumentam com disposi\u00e7\u00f5es d\u00fabias do c\u00f3digo civil, e com o facto de estes trabalhadores, contrariamente aos outros, terem direito a comida cama e roupa lavada, vivendo muitas vezes, em fam\u00edlia, com as entidades patronais. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Isto era uma anedota tr\u00e1gica porque estes <i><span style=\"font-family: Arial\">direitos <\/span><\/i>eram ao mesmo tempo, grilhetas de escravatura, que retinham muitos trabalhadores fechados dentro dos estabelecimentos, sem sal\u00e1rio, sem hor\u00e1rio, e em muitos casos meses e meses proibidos de sa\u00edrem \u00e0 rua.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">A verdade \u00e9 que o ministro do trabalho, convencido, vencido ou vendido, introduziu \u00e0 \u00faltima hora um par\u00e1grafo \u00fanico no artigo primeiro da lei, que considera de forma expressa os empregados dos hot\u00e9is e restaurantes como dom\u00e9sticos.<\/span><\/p>\n<p><b><span style=\"text-decoration: underline\"><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Os cozinheiros e o restante pessoal, que no seu trabalho n\u00e3o est\u00e1<span style=\"font-family: Arial\">\u00a0 <\/span>em contacto com os clientes, n\u00e3o recebendo por isso, gratifica\u00e7\u00f5es, foram os \u00fanicos a reagir com a marca\u00e7\u00e3o de uma greve a exigir a aplica\u00e7\u00e3o da nova lei do hor\u00e1rio de trabalho \u00e0 classe. Greve que foi um fracasso, pois a n\u00e3o participa\u00e7\u00e3o dos empregados de mesa na luta, e alguns fura-greves, permitiram que a maioria dos estabelecimentos se mantivesse aberta.<\/span><\/span><\/b><\/p>\n<p><b><span style=\"text-decoration: underline\"><span style=\"font-size: medium\"><span style=\"color: #000000\"><span style=\"font-family: Arial\">\u00a0<\/span>Foi assim que uma situa\u00e7\u00e3o que decorria dos costumes, passou a ser lei, e que uma lei que para a maioria dos trabalhadores foi um progresso, para a classe foi um retrocesso. <\/span><\/span><\/span><\/b><\/p>\n<p><b><span style=\"text-decoration: underline\"><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">A redu\u00e7\u00e3o do poder de compra provocada pela guerra afectou toda a gente, incluindo a pequena e m\u00e9dia burguesia frequentadora de restaurantes e caf\u00e9s. Facto que fez diminuir radicalmente o volume das gratifica\u00e7\u00f5es recebidas pelos criados de mesa. <\/span><\/span><\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-size: medium\"><span style=\"color: #000000\"><b><span style=\"text-decoration: underline\">Os primeiros a entrar na luta devido a esta situa\u00e7\u00e3o foram os trabalhadores do Caf\u00e9 Martinho, que em Outubro de 1916, desencadearam uma greve, a exigir o estabelecimento de sal\u00e1rios fixos<\/span><\/b>. A resposta do dono do caf\u00e9, o famoso Alvarez, bem conhecido da classe, voltou a ser violenta. Despediu seis trabalhadores filiados na Associa\u00e7\u00e3o, substituindo-os por n\u00e3o filiados. Este processo, desencadeou um movimento de protesto que organizou uma ac\u00e7\u00e3o de boicote ao caf\u00e9, atrav\u00e9s da ocupa\u00e7\u00e3o das mesas por um grupo de s\u00f3cios, sem nada consumir, e uma manifesta\u00e7\u00e3o a que se juntaram muitos populares, a que o Alvarez respondeu com o encerramento das portas do caf\u00e9 quando passavam \u00e0 sua frente.<\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: medium\"><span style=\"color: #000000\"><b><span style=\"text-decoration: underline\">Em 20 de Novembro, realiza-se uma reuni\u00e3o magna de solidariedade para com os Trabalhadores do Martinho<\/span><\/b>, onde s\u00e3o aprovados tr\u00eas objectivos de luta: o reconhecimento formal da Associa\u00e7\u00e3o pelo patronato; o cumprimento integral do descanso semanal e a aboli\u00e7\u00e3o da paga pelo trabalho (ou do imposto sobre o direito ao trabalho como tamb\u00e9m chamam \u00e0 parte das gratifica\u00e7\u00f5es que continuam a ser obrigados a entregar aos patr\u00f5es).<\/span><\/span><\/p>\n<p><b><span style=\"text-decoration: underline\"><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">O dono da Brazileira, que se envolveu em provas de for\u00e7a v\u00e1rias vezes com a Associa\u00e7\u00e3o e com os trabalhadores, foi o primeiro a concluir, no princ\u00edpio de 1917, que o valor das gorjetas que extorquia aos empregados n\u00e3o valia a pena comparado com os custos da conflitualidade gerada, e deixou de o exigir.<\/span><\/span><\/b><\/p>\n<p><b><span style=\"text-decoration: underline\"><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Esta ced\u00eancia levou a Associa\u00e7\u00e3o a enviar uma circular ao patronato a propor o aumento dos sal\u00e1rios e a apontar o exemplo da Brazileira no caso das gratifica\u00e7\u00f5es.<\/span><\/span><\/b><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Apenas receberam as resposta do Caf\u00e9 Gelo e da Cervejaria Le\u00e3o, a informar que j\u00e1 tinham feito aumentos e deixado de cobrar gratifica\u00e7\u00f5es. Acrescentavam que alem disso tinham concedido o direito a vinho com as refei\u00e7\u00f5es, aos seus empregados.<\/span><\/p>\n<p><b><span style=\"text-decoration: underline\"><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Seguiram-se movimenta\u00e7\u00f5es no Chave de Ouro e no Caf\u00e9 Royal, onde tamb\u00e9m foi conseguida a aboli\u00e7\u00e3o da paga.<\/span><\/span><\/b><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Em Julho de 1918, o gerente de caf\u00e9, senhor Ribas, foi expulso de s\u00f3cio da Associa\u00e7\u00e3o por ter solicitado \u00e0 pol\u00edcia a apreens\u00e3o de um comunicado \u00e0 classe, de apelo \u00e0 luta pelo fim do roubo das gorjetas. O bisb\u00f3rria do Ribas, nem sequer vira que o comunicado at\u00e9 estava visado pela Comiss\u00e3o de Censura.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">No princ\u00edpio de 1920, um criado de mesa ou um porteiro de hotel, ganham 5 escudos, e um soldado da GNR ganha 45.<\/span><\/p>\n<p><b><span style=\"text-decoration: underline\"><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">O crescente aumento do custo de vida torna-se insuport\u00e1vel. N\u00e3o admira por isso, que os empregados do Hotel Avenida Palace ao receberem, no dia 1 de Junho de 1920, uma conta de 318 escudos, de objectos deteriorados durante o servi\u00e7o para pagar, relativos ao m\u00eas de Maio, se tenham decidido recusar tal pagamento e a abandonar o trabalho como forma de protesto.<\/span><\/span><\/b><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">O director do Hotel amea\u00e7ou-os de encerrar o restaurante e despedi-los, caso n\u00e3o procedessem ao pagamento exigido e n\u00e3o retomassem o trabalho.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: medium\"><span style=\"color: #000000\">Perante a amea\u00e7a, os trabalhadores decidiram arrumar a sala, ap\u00f3s o que abandonariam o servi\u00e7o, em greve. Qual n\u00e3o \u00e9 o seu espanto quando se dirigiram \u00e1s portas para sair e as encontraram trancadas por fora, colocando-os na situa\u00e7\u00e3o de prisioneiros no local de trabalho, ouvindo-se do outro lado o director a vociferar, a apod\u00e1-los de \u2018<span style=\"font-family: Arial\"><i>bolchevistas.\u2019\u00a0\u00a0<\/i>\u00a0<\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: medium\"><span style=\"color: #000000\"><b><span style=\"text-decoration: underline\"><span style=\"font-family: Arial\">\u00a0<\/span>Algum tempo, depois apareceu a policia que prendeu todo o pessoal, levando-os, primeiro para a Esquadra do Teatro Nacional, e depois para o Governo Civil, onde estiveram enclausurados durante quatro dias, acusados de sabotagem econ\u00f3mica e de se recusarem a servir os clientes<\/span><\/b>. Acabaram por ser postos em liberdade, pois o \u00fanico <i><span style=\"font-family: Arial\">crime <\/span><\/i>de que poderiam ser acusados, foi o de terem exercido o legitimo direito de greve.<\/span><\/span><\/p>\n<p><b><span style=\"text-decoration: underline\"><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Em Janeiro de 1921, parte do pessoal, incluindo o Maitre de Hotel e o segundo chefe, que tinham sido solid\u00e1rios na luta e substitu\u00eddos por estrangeiros, foram readmitidos nos seus lugares.<\/span><\/span><\/b><\/p>\n<p><b><span style=\"text-decoration: underline\"><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Foi no meio desta agita\u00e7\u00e3o, que a Associa\u00e7\u00e3o, ap\u00f3s dilig\u00eancias, desta vez bem sucedidas junto da direc\u00e7\u00e3o da organiza\u00e7\u00e3o patronal, enviou, com o acordo desta, um of\u00edcio aos caf\u00e9s e restaurantes para que deixassem de exigir a esp\u00f3rtula.<\/span><\/span><\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-size: medium\"><span style=\"color: #000000\"><b><span style=\"text-decoration: underline\">Numa assembleia, realizada em fins Janeiro de 1921,<\/span><\/b> convocada por um grupo de s\u00f3cios ao abrigo dos estatutos para discutir a proibi\u00e7\u00e3o do costume da gratifica\u00e7\u00e3o, e a sua substitui\u00e7\u00e3o por uma taxa de servi\u00e7o sobre a conta, <b><span style=\"text-decoration: underline\"><span style=\"font-family: Arial\">a Direc\u00e7\u00e3o da Associa\u00e7\u00e3o<\/span><\/span><\/b> aceitou a proposta apresentada para estudo, ao mesmo tempo que <span style=\"font-family: Arial\"><b><span style=\"text-decoration: underline\">informou, que das grandes casas de Lisboa, apenas o Martinho n\u00e3o quis anuir \u00e0 nova orienta\u00e7\u00e3o da associa\u00e7\u00e3o patronal, e continuava a extorquir parte das gratifica\u00e7\u00f5es aos seu empregados. <\/span><\/b><\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-family: Arial;font-size: medium\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p><b><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">UMA ASSOCIA\u00c7\u00c3O DE CLASSE DE MULHERES, O MOVIMENTO CONTRA O LIVRETE<\/span><\/b><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">As mulheres n\u00e3o t\u00eam qualquer papel activo na vida da Associa\u00e7\u00e3o entre 1907 e 1920.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Em Lisboa, aparecem algumas refer\u00eancias \u00e0 igualdade de direitos das mulheres. Em 1911, defende-se que elas tamb\u00e9m t\u00eam direito ao descanso semanal, mas n\u00e3o se chega ao ponto de as admitir como s\u00f3cias. No jornal, \u00e9 publicada uma not\u00edcia sobre a admiss\u00e3o de mulheres para a cozinha do Rei Eduardo VII de Inglaterra, ao mesmo tempo que se refere a simpatia do seu Chefe, um franc\u00eas, pelos dotes culin\u00e1rios femininos. Salienta-se o aparecimento do novo elemento nas lutas sociais, e defende-se o sufr\u00e1gio para as mulheres. Mas estas posi\u00e7\u00f5es s\u00e3o apenas subscritas por elementos mais avan\u00e7ados.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">O ambiente geral n\u00e3o \u00e9 prop\u00edcio a tais <i><span style=\"font-family: Arial\">progressismos<\/span><\/i>. Quando em Setembro de 1916, a Associa\u00e7\u00e3o do Porto protesta contra a abertura de um caf\u00e9 servido s\u00f3 por mulheres e apela \u00e0 classe que a secunde, o apoio que recebe \u00e9 bem maior do que aquele que \u00e9 dado \u00e0 luta pela igualdade de direitos entre homens e mulheres.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">\u00c9 a ideia \u2018<i><span style=\"font-family: Arial\">peregrina\u2019 <\/span><\/i>do Governador Civil de Lisboa para controlar os roubos na cidade, que d\u00e1 um impulso forte ao aparecimento organizado das mulheres na luta.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">O Governador Lelo Portela, aviador condecorado e viajado, partiu da observa\u00e7\u00e3o do caso de uma ladra que se fez passar por criada, para a ideia de que todas as criadas eram ladras. Logo, a forma de acabar com roubos em Lisboa era controlar apertadamente a movimenta\u00e7\u00e3o da criadagem.<\/span><\/p>\n<p><b><span style=\"text-decoration: underline\"><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Foi assim que em Junho de 1921, a classe estava em polvorosa contra o regulamento que o senhor Governador queria impor aos servi\u00e7ais. Um regulamento igual ao das prostitutas, que j\u00e1 eram obrigadas a matricular-se e a ir \u00e0 revista de sa\u00fade, uma vez por m\u00eas, ao Governo Civil.<\/span><\/span><\/b><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Acontece que, na opini\u00e3o do jurista do sindicato, o regulamento se aplica a homens e mulheres, criados e criadas, de casas particulares ou de hot\u00e9is e restaurantes.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: medium\"><span style=\"color: #000000\">Para alem da apresenta\u00e7\u00e3o peri\u00f3dica \u00e0s autoridades, o regulamento obrigava \u00e0 posse de um livrete, com o nome, fotografia, a casa onde trabalhavam e outros elementos de identifica\u00e7\u00e3o, bem como ao pagamento de uma taxa. <span style=\"font-family: Arial\"><b><span style=\"text-decoration: underline\">O regulamento permitia ainda aos patr\u00f5es o desconto de 50% do sal\u00e1rio aos criados que, em determinadas circunst\u00e2ncias tivessem comida, dormida e roupa lavada.<\/span><\/b><\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: medium\"><span style=\"color: #000000\"><b><span style=\"text-decoration: underline\">Apoiado pela Uni\u00e3o dos Sindicatos Oper\u00e1rios de Lisboa \u2013 USO \u2013 e pela Associa\u00e7\u00e3o, estava em curso desde o m\u00eas de Janeiro um processo de constitui\u00e7\u00e3o de uma Associa\u00e7\u00e3o de Classe das Empregadas Dom\u00e9sticas de Hot\u00e9is e Casas Particulares.<\/span><\/b> A Comiss\u00e3o Dinamizadora, presidida por Violeta Magalh\u00e3es, levara at\u00e9 ent\u00e3o uma intensa actividade de propaganda. Com reuni\u00f5es muito participadas e inscri\u00e7\u00f5es de s\u00f3cias na cidade, mas tamb\u00e9m com grande sucesso em Sintra, Cascais e Estoril.<\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Em <i><span style=\"font-family: Arial\">A Batalha<\/span><\/i> de 9 de Julho, a Direc\u00e7\u00e3o da Associa\u00e7\u00e3o das Dom\u00e9sticas aconselha as associadas a irem assistir \u00e0 confer\u00eancia de D. Maria Oneill, do Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas, sob o t\u00edtulo \u00abA Prostitui\u00e7\u00e3o Infantil\u00bb, a realizar na Associa\u00e7\u00e3o dos Caixeiros, na Rua Ant\u00f3nio Maria Cardoso, 20 -1\u00ba, pelas 21 horas.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Nesse mesmo dia, o Conselho de Delegados da USO tomou conhecimento da constitui\u00e7\u00e3o da nova associa\u00e7\u00e3o, cujos estatutos j\u00e1 tinham sido entregues na respectiva reparti\u00e7\u00e3o. A sua sede seria na Travessa dos Inglezinhos juntamente com a dos camaradas dos hot\u00e9is e restaurantes.<\/span><\/p>\n<p><b><span style=\"text-decoration: underline\"><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">As hero\u00ednas que tiveram a coragem de aceitar constituir a direc\u00e7\u00e3o desta associa\u00e7\u00e3o de classe de mulheres, s\u00e3o: Violeta Ribeiro de Magalh\u00e3es, L\u00eddia da Cruz Le\u00e3o, Eug\u00e9nia de Jesus Silva, J\u00falia Monteiro, Laurinda <span style=\"font-family: Arial\">Luisa<\/span> Couto, Elvira Ferro e Joaquina da Concei\u00e7\u00e3o.<\/span><\/span><\/b><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Como principais objectivos, estas pioneiras do associativismo das mulheres, propunham-se: promover a instru\u00e7\u00e3o da classe, origem da sua infelicidade e ignor\u00e2ncia; acabar com as ag\u00eancias inculcadoras de Lisboa, verdadeiros antros de prostitui\u00e7\u00e3o e escolas de crime; promover o aperfei\u00e7oamento profissional da classe; estabelecer uma casa onde as desempregadas possam dormir enquanto n\u00e3o arranjem coloca\u00e7\u00e3o, libertando-as dos antros desmoralizadores que s\u00e3o as casas de pernoita.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Outras vantagens que se prop\u00f5em por em pr\u00e1tica \u00e0 medida em que as possibilidades financeiras o permitirem, s\u00e3o: um subsidio na doen\u00e7a e no desemprego, e o pagamento das viagens de regresso \u00e0 terra.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">As dirigentes da nova associa\u00e7\u00e3o foram as primeiras a levantar-se indignadas contra o infame projecto do Livrete, declarando-se dispostas a abandonar o servi\u00e7o e a regressar \u00e1s terras de origem caso o Governador Civil teime na sua pretens\u00e3o. A mesmo tempo recomendam a todas as trabalhadoras que n\u00e3o tirem o livrete e para n\u00e3o se assustarem com amea\u00e7as.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: medium\"><span style=\"color: #000000\"><span style=\"font-family: Arial\">\u00a0<\/span>Promovem assembleias de protesto e v\u00e3o em delega\u00e7\u00e3o ao governo civil pedir explica\u00e7\u00f5es. Promovem reuni\u00f5es conjuntas de todas as associa\u00e7\u00f5es com sede na Travessa dos Inglezinhos, que resolvem fazer uma Reuni\u00e3o Magna, para a qual convidam os patr\u00f5es a fazer-se representar, dado haver muitos que declaram estar contra o livrete.<\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Nesta primeira fase do movimento de protesto, o Governador manda suspender a aplica\u00e7\u00e3o do regulamento e anuncia que vai substituir o livrete por um cart\u00e3o de identidade. Em nova ronda de reuni\u00f5es das classes envolvidas, conclui-se que cart\u00e3o de identidade e livrete s\u00e3o a mesma coisa e repudia-se a manobra. Declaram: Estamos dispostas quer ao abandono do trabalho quer a ir para a pris\u00e3o, mas n\u00e3o nos curvaremos \u00e0 lei de ser matriculadas. Bilhete de Identidade s\u00f3 o da associa\u00e7\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Na Reuni\u00e3o Magna de 19 de Julho, em que a quest\u00e3o do livrete foi mais uma vez o centro da discuss\u00e3o, foi tamb\u00e9m dada uma informa\u00e7\u00e3o sobre a luta em curso no Porto pela aboli\u00e7\u00e3o da gorjeta e por uma percentagem sobre as contas, como forma de remunera\u00e7\u00e3o. Foi aprovado o envio de um telegrama aos camaradas, saudando-os, e feita uma subscri\u00e7\u00e3o que rendeu 66$50, destinados a custear a desloca\u00e7\u00e3o aquela cidade, de um delegado, para recolher mais informa\u00e7\u00e3o sobre o movimento, afim de em Lisboa tamb\u00e9m se estudar o assunto.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: medium\"><span style=\"color: #000000\"><b><span style=\"text-decoration: underline\">Na primeira quinzena de Agosto, o Governador Civil decide avan\u00e7ar com a imposi\u00e7\u00e3o, <\/span><\/b>manda publicar o regulamento no <i><span style=\"font-family: Arial\">Di\u00e1rio do Governo<\/span><\/i> e pro\u00edbe o Associa\u00e7\u00e3o das Dom\u00e9sticas de reunir, sob o pretexto de ainda n\u00e3o lhe ter sido atribu\u00eddo o alvar\u00e1. Declara que os empregados dos hot\u00e9is ficariam isentos do livrete, mas o facto \u00e9 que no regulamento publicado continuam a figurar na lista das profiss\u00f5es abrangidas pelo mesmo.<\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Volta a ser convocada por todas as associa\u00e7\u00f5es nova Reuni\u00e3o Magna, para dia 17 de Agosto de 1921, pelas 22 horas. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Com a sala apinhada de gente, onde predomina o elemento feminino, comparece um agente da pol\u00edcia que declarou que por ordem do Governador civil, a assembleia n\u00e3o se podia realizar. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Os participantes n\u00e3o acatam a ordem por a considerarem atentat\u00f3ria da liberdade de reuni\u00e3o. E perante o atentado \u00e0 honra e \u00e0 dignidade das mulheres que o livrete significava, no meio da maior excita\u00e7\u00e3o, aprovam o seguinte manifesto:<\/span><\/p>\n<p><i><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">\u00abConsiderando que o Governador Civil encetou um processo de viol\u00eancia, procurando impor pela for\u00e7a o que n\u00e3o conseguiu pela l\u00f3gica, as associa\u00e7\u00f5es de classe dos empregados dos hot\u00e9is, restaurantes e caf\u00e9s, das empregadas dom\u00e9sticas de hot\u00e9is e casas particulares e a dos culin\u00e1rios, aprovam,<\/span><\/i><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000\"><b><i><span style=\"font-family: Arial;font-size: medium\">1)<\/span>\u00a0\u00a0 <\/i><\/b><b><i><span style=\"text-decoration: underline\"><span style=\"font-size: medium\">A partir de hoje, 17 de Agosto, pela meia-noite, suspender o trabalho, em sinal de protesto, n\u00e3o retomando o trabalho sem que o regulamento do livrete seja revogado.<\/span><\/span><\/i><\/b><\/span><\/p>\n<p><b><i><span style=\"color: #000000\"><span style=\"font-family: Arial;font-size: medium\">2)<\/span>\u00a0\u00a0 <\/span><\/i><\/b><b><i><span style=\"text-decoration: underline\"><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">N\u00e3o retomar o trabalho sem ordem do Comit\u00e9 e acatar rigorosamente as suas determina\u00e7\u00f5es.\u00bb<\/span><a title=\"\" href=\"#_ftn36\"><b><span style=\"text-decoration: underline\"><span style=\"color: #0066cc\">[36]<\/span><\/span><\/b><\/a><\/span><\/i><\/b><\/p>\n<p><b><span style=\"text-decoration: underline\"><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">A aprova\u00e7\u00e3o da greve foi secundada por uma estrondosa salva de palmas e ininterruptos vivas \u00e0 greve, salientando-se a exalta\u00e7\u00e3o e firmeza das mulheres. A pol\u00edcia respondeu imediatamente com o encerramento da sede das associa\u00e7\u00f5es.<\/span><\/span><\/b><\/p>\n<p><b><span style=\"text-decoration: underline\"><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">No dia 18 greve foi total nos estabelecimentos de Lisboa.<\/span><\/span><\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-size: medium\"><span style=\"color: #000000\"><b><span style=\"text-decoration: underline\">No dia 19 de Agosto, a greve continuou, e<\/span><\/b>mbora com diminui\u00e7\u00e3o da ades\u00e3o devido \u00e0 persegui\u00e7\u00e3o policial e ao boato de que o regulamento fora abolido, excepto para as dom\u00e9sticas.<\/span><\/span><\/p>\n<p><b><span style=\"text-decoration: underline\"><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Nessa manh\u00e3 foram presas no Rossio, quatro criadas que andavam a distribuir o manifesto de greve. O mesmo acontecera na Pra\u00e7a da Figueira a Elvira Ferro e L\u00eddia Cruz, dirigentes da Associa\u00e7\u00e3o, pelo mesmo motivo, tendo-se constitu\u00eddo de imediato uma comiss\u00e3o para exigir a liberta\u00e7\u00e3o das presas. Os oper\u00e1rios do Parque Eduardo VII solidarizaram-se com os grevistas.<\/span><\/span><\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-size: medium\"><span style=\"color: #000000\"><b><span style=\"text-decoration: underline\">Em declara\u00e7\u00f5es \u00e0 imprensa, o Governador Civil acusa a greve de ter intuitos pol\u00edticos, amea\u00e7a os trabalhadores estrangeiros de lhes retirar as licen\u00e7as de resid\u00eancia e de os mandar colocar na fronteira<\/span><\/b>, numa ac\u00e7\u00e3o concertada para incutir medo aos grevistas. Ao mesmo tempo informa ter mandado suspender a aplica\u00e7\u00e3o do regulamento aos empregados dos hot\u00e9is e restaurantes.<\/span><\/span><\/p>\n<p><b><span style=\"text-decoration: underline\"><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Ao terceiro dia de greve, o Comit\u00e9, tomando o pulso \u00e0 classe e considerando o grau de ades\u00e3o, emite uma nota a dar por terminada a greve.<\/span><\/span><\/b><\/p>\n<p><b><span style=\"text-decoration: underline\"><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Nessa nota, o Comit\u00e9 sa\u00fada a unidade e o comportamento honroso e combativo dos trabalhadores e informa que foram recebidos pelo Governador, que os notificara e lhes prometera que iria revogar imediatamente o regulamento, no que diz respeito aos criados de hot\u00e9is e restaurantes.<\/span><\/span><\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-size: medium\"><span style=\"color: #000000\"><b><span style=\"text-decoration: underline\">Informam que o Comit\u00e9 n\u00e3o se dissolve, afim de continuar a actuar at\u00e9 que se consiga revogar tamb\u00e9m a parte que se aplica \u00e1s empregadas dom\u00e9sticas de hot\u00e9is e casas particulares<\/span><\/b>. Apela a que nenhuma dom\u00e9stica se apresente a tirar o livrete. Assim estar\u00e1 revogado pelas suas pr\u00f3prias m\u00e3o antes de o ser pelo Governador.<\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">L\u00eddia, da direc\u00e7\u00e3o da Associa\u00e7\u00e3o, responde de forma corajosa \u00e0 carta de uma associada que n\u00e3o se conforma com o desenlace da luta: como querias tu, querida amiga, um movimento triunfante, quando a nossa associa\u00e7\u00e3o come\u00e7a agora a ser conhecida. Estamos a come\u00e7ar a nossa luta e j\u00e1 as patroas come\u00e7aram a ceder terreno e a perder autoridade. Unamos as nossas for\u00e7as. E nesse dia, um dia de luta bastar\u00e1 para rasgarmos um livrete que nunca aceit\u00e1mos. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">O facto de a pol\u00edcia ter prendido arbitrariamente algumas colegas e as ter metido em calabou\u00e7os misturadas com prostitutas, n\u00e3o nos deve assustar. Pois temos raz\u00e3o. Se essas raparigas tivessem dinheiro n\u00e3o seriam insultadas dessa forma ign\u00f3bil.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Tudo isto aconselha a que unamos vontades em torno da nossa associa\u00e7\u00e3o para realizarmos as nossas aspira\u00e7\u00f5es.<\/span><\/p>\n<p><b><span style=\"text-decoration: underline\"><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">A Associa\u00e7\u00e3o de Empregadas Dom\u00e9sticas de Hot\u00e9is e Casas Particulares, cria\u00e7\u00e3o de vanguarda das trabalhadoras de hotelaria, ainda viria a ter a sua bolsa de trabalho e a proporcionar aulas de instru\u00e7\u00e3o prim\u00e1ria \u00e0s suas associadas. Promoveu confer\u00eancias sobre Higiene e Alimenta\u00e7\u00e3o, orientadas pela m\u00e9dica Adelaide Cabete. Festejou o seu primeiro anivers\u00e1rio em Julho de 1922. Mas foi encerrada pelas autoridades, algum tempo depois, com a acusa\u00e7\u00e3o hip\u00f3crita de ser um antro de prostitui\u00e7\u00e3o. <\/span><\/span><\/b><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><a title=\"\" href=\"#_ftnref36\">[36]<\/a> <i>A Batalha,<\/i> de 18 de Agosto de 1921, fl.1<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">GREVE, GREVE GERAL REVOLUCION\u00c1RIA, PELA ABOLI\u00c7\u00c3O DA GORJETA \u2013 OS ANARQUISTAS NO SINDICATO (1922 \u2013 1925)<\/span><\/b><b><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">\u00a0<\/span><\/b><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">A greve contra o livrete foi controversa no seio da direc\u00e7\u00e3o da Associa\u00e7\u00e3o. Os seus elementos mais preponderantes, incluindo Jos\u00e9 de Almeida Duarte, um dos fundadores, editor de <i><span style=\"font-family: Arial\">A Defesa<\/span><\/i> durante uma d\u00e9cada, n\u00e3o estiveram de acordo com a forma de luta adoptada. Mesmo assim, a greve irrompera contra a vontade da maioria da direc\u00e7\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">No rescaldo da greve, Quintela Maia, presidente da Mesa da Assembleia-geral, ainda tentou aguentar o que restava dos corpos gerentes desautorizados, atrav\u00e9s de uma mo\u00e7\u00e3o de confian\u00e7a posta \u00e0 Assembleia, mas a verdade \u00e9 que meses depois foram todos substitu\u00eddos, e uma direc\u00e7\u00e3o alinhada com os anarquistas assumiu o poder na Associa\u00e7\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p><b><span style=\"text-decoration: underline\"><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">O desemprego e a carestia de vida n\u00e3o paravam de aumentar, e a crise provocava uma diminui\u00e7\u00e3o dr\u00e1stica do volume das gorjetas dos clientes, o que levava ao desespero todos os que tinham esta forma de remunera\u00e7\u00e3o.<\/span><\/span><\/b><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Era uma quest\u00e3o recorrente. J\u00e1 no tempo da monarquia houvera discuss\u00f5es sobre a supress\u00e3o da gorjeta e da sua substitui\u00e7\u00e3o por um sal\u00e1rio regular fixo que evitasse que os trabalhadores fiquem \u00e0 merc\u00ea da generosidade dos clientes e dos fluxos de trabalho.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">S\u00f3 que, este problema se tornou constante a partir da guerra, e n\u00e3o tem parado de se agravar. Tornou-se estrutural, n\u00e3o apenas por causa da crise sempre latente, mas tamb\u00e9m com a altera\u00e7\u00e3o do tipo de clientela que frequenta os estabelecimentos, menos propensa a gratificar, ou gratificando com quantias cada vez mais pequenas. <\/span><\/p>\n<p><b><span style=\"text-decoration: underline\"><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">A nova direc\u00e7\u00e3o, de tend\u00eancia anarquista, estabelece como principais frentes de luta, a melhoria dos sal\u00e1rios, a aboli\u00e7\u00e3o da gorjeta, a luta contra o desemprego, o cumprimento do direito ao descanso semanal e o refor\u00e7o da Associa\u00e7\u00e3o com a nomea\u00e7\u00e3o de delegados nas casas. <\/span><\/span><\/b><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Juntamente com a ideia do sindicato \u00fanico, que vem de tr\u00e1s, aparece nesta altura na Associa\u00e7\u00e3o, uma no\u00e7\u00e3o muito clara da import\u00e2ncia da organiza\u00e7\u00e3o para a luta dos trabalhadores, em particular a organiza\u00e7\u00e3o nos locais de trabalho.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">No programa da direc\u00e7\u00e3o, pode ler-se: A Associa\u00e7\u00e3o n\u00e3o ser\u00e1 forte se n\u00e3o tiver c\u00e9lulas org\u00e2nicas nos locais de trabalho. Cristaliza e transforma-se num corpo central inerte, se n\u00e3o espalhar ramifica\u00e7\u00f5es onde a actividade dos associados se desenvolve. Por isso, n\u00e3o devemos ser centralistas. S\u00f3 deixaremos de o ser, com delegados em cada casa, em contacto permanente com os trabalhadores e ligados \u00e0 Associa\u00e7\u00e3o por uma Conselho Geral de Delegados. Afirmam.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">A direc\u00e7\u00e3o preocupa-se tamb\u00e9m em melhorar a coopera\u00e7\u00e3o com as associa\u00e7\u00f5es do Porto e de Braga, e apoia a constitui\u00e7\u00e3o de associa\u00e7\u00f5es de classe em \u00c9vora, Coimbra e Faro. Abel d\u2019Andrade, Presidente em Lisboa, desloca-se \u00e0 cidade alentejana para participar na assembleia constituinte, em 15 de Junho de 1922.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: medium\"><span style=\"color: #000000\"><b><span style=\"text-decoration: underline\">A direc\u00e7\u00e3o de Abel d\u2019Andrade, defende a participa\u00e7\u00e3o no III Congresso Nacional Oper\u00e1rio e a filia\u00e7\u00e3o na CGT, em reuni\u00e3o magna, a 18 de Julho de 1922, e na Assembleia-geral de 26 de Outubro do mesmo ano, onde foi eleito o delegado ao Congresso da Covilh\u00e3<\/span><\/b>. O facto de haver na Associa\u00e7\u00e3o activistas que n\u00e3o estavam de acordo com a orienta\u00e7\u00e3o da confedera\u00e7\u00e3o sindical n\u00e3o foi impeditivo da participa\u00e7\u00e3o da classe no congresso.<\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Os anos de 1922 e 1923, s\u00e3o anos de uma campanha en\u00e9rgica e sistem\u00e1tica pela aboli\u00e7\u00e3o da gorjeta e de reorganiza\u00e7\u00e3o e mobiliza\u00e7\u00e3o da classe para a luta. Fizeram-se mais de vinte assembleias e reuni\u00f5es magnas em que a Aboli\u00e7\u00e3o da gorjeta foi sempre uma das quest\u00f5es principais em discuss\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: medium\"><span style=\"color: #000000\">Finalmente, no mesmo jornal que noticia a morte de Manuel Rodrigues Correia, o n\u00famero 136, de Maio de 1924, ultimo da primeira s\u00e9rie de <i><span style=\"font-family: Arial\">A Defesa,<\/span><\/i> que morre com o seu fundador, \u00e9 publicada a <i><span style=\"font-family: Arial\">Tabela de Reclama\u00e7\u00f5es da Classe<\/span><\/i>, aprovada em assembleia magna e acabada de apresentar ao patronato:<\/span><\/span><\/p>\n<p><b><i><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Hot\u00e9is \u2013 10% sobre a despesa do fregu\u00eas no servi\u00e7o para o pessoal da mesa e 100$00 de ordenado mensal;<\/span><\/i><\/b><\/p>\n<p><b><i><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Restaurantes e Casas de Pasto \u2013 10% nas vendas, e 100$00 mensais;<\/span><\/i><\/b><\/p>\n<p><b><i><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Caf\u00e9s, Leitarias, Pastelarias e Esplanadas \u2013 20% sobre as vendas e 300$00 mensais;<\/span><\/i><\/b><\/p>\n<p><b><i><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Praias e Termas \u2013 Hot\u00e9is: 10% sobre a conta para o pessoal de mesa, 200$00 mensais e passagens e habita\u00e7\u00f5es pagas. \u2013 Casinos: 20% sobre a conta, 200$00 mensais e passagens e habita\u00e7\u00f5es pagas. <\/span><\/i><\/b><\/p>\n<p><b><i><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">TODASAS REGALIAS ADQUIRIDAS AT\u00c9 HOJE DEVEM MANTER-SE \u2013 INCLUINDO A ALIMENTA\u00c7\u00c3O. <\/span><\/i><\/b><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">A acompanhar as reivindica\u00e7\u00f5es, a direc\u00e7\u00e3o da Associa\u00e7\u00e3o, numa linguagem radical, faz um forte apelo \u00e0 luta e responsabiliza os trabalhadores.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Os benef\u00edcios n\u00e3o caiem do c\u00e9u, dizem. Os patr\u00f5es, em vez de nos pagarem ordenados deixam-nos na condi\u00e7\u00e3o de mendigos. Eles t\u00eam por si a for\u00e7a armada e possuem o dinheiro. N\u00f3s, os oper\u00e1rios, temos a nossa Associa\u00e7\u00e3o e a nossa unidade. A classe tem de decidir se quer ou n\u00e3o quer abolir a gorjeta. \u00c9 preciso que aqueles que neste princ\u00edpio de \u00e9poca balnear come\u00e7am a fazer os contratos para as praias e termas, exijam que neles constem desde logo os benef\u00edcios que reivindicamos. Quem n\u00e3o o fizer, ser\u00e1 considerado traidor \u00e0 classe e dever\u00e1 ter o castigo que merece. Os que ficam em Lisboa devem permanecer atentos para qualquer eventualidade.<\/span><\/p>\n<p><b><span style=\"text-decoration: underline\"><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Entre Maio a Julho realizaram-se algumas reuni\u00f5es com a Associa\u00e7\u00e3o dos Propriet\u00e1rios de Hot\u00e9is e Restaurantes, mas o \u00fanico resultado obtido foi uma especula\u00e7\u00e3o infame do patronato, que a pretexto das reivindica\u00e7\u00f5es apresentadas, aumentou pre\u00e7o do caf\u00e9 \u00e0 ch\u00e1vena.<\/span><\/span><\/b><\/p>\n<p><b><span style=\"text-decoration: underline\"><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Esgotada a paci\u00eancia e fartos de esperar sem resultados, convocam uma Reuni\u00e3o Mana para dia 4 de Setembro, \u00e1s dez da noite, a fim de apreciar as \u2018<i><span style=\"font-family: Arial\">demarches\u2019<\/span><\/i> para a aboli\u00e7\u00e3o da gorjeta e o estabelecimento de um sal\u00e1rio. A reuni\u00e3o, muito concorrida, prolonga-se at\u00e9 de madrugada, aprova a greve a partir das quatro da manh\u00e3 do dia 7, e apoia os protestos da popula\u00e7\u00e3o contra o aumento do caf\u00e9.<\/span><\/span><\/b><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">O Comit\u00e9 de Greve, no seu primeiro manifesto, responsabiliza a associa\u00e7\u00e3o patronal pela perturba\u00e7\u00e3o causada pela greve na vida social, e por todos os preju\u00edzos que advenham da luta.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Na sua edi\u00e7\u00e3o de 10 de Setembro de 1924, o di\u00e1rio <i><span style=\"font-family: Arial\">A Batalha,<\/span><\/i> sob o t\u00edtulo, <b><i><span style=\"font-family: Arial\">greve simp\u00e1tica,<\/span><\/i><\/b> descreve-a assim: <\/span><\/p>\n<p><i><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">\u00abLisboa est\u00e1 a assistir a um dos mais interessantes movimentos grevisticos: o dos empregados dos hot\u00e9is, restaurantes e caf\u00e9s. A Batalha d\u00e1 aos grevistas todo o apoio moral, tanto mais que este movimento pela dignifica\u00e7\u00e3o do trabalho n\u00e3o pode passar despercebido \u00e1s outras classes laboriosas. Esta greve, pela energia e pela dignidade que demonstram constitui um salutar exemplo para todos os trabalhadores. Sabemos que algumas das principais casas paralisadas se encontram na disposi\u00e7\u00e3o de ceder \u00e1s reclama\u00e7\u00f5es. Entre os \u2018habitu\u00e9s\u2019 dos caf\u00e9s que ontem percorremos e que, apesar de n\u00e3o terem pessoal se encontram abertos, a simpatia do p\u00fablico pelos grevistas \u00e9 bem patente.\u00bb<\/span><\/i><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">No manifesto distribu\u00eddo aos trabalhadores e \u00e0 popula\u00e7\u00e3o, no terceiro dia de greve, o Comit\u00e9 de Greve regista e agradece as declara\u00e7\u00f5es do dono do Restaurante Tavares, a favor das reivindica\u00e7\u00f5es, e d\u00e1 orienta\u00e7\u00e3o para que ningu\u00e9m regresse ao trabalho, mesmo no Tavares e noutras casas que pretendam aceitar as reivindica\u00e7\u00f5es, enquanto todos os patr\u00f5es n\u00e3o cederem.<\/span><\/p>\n<p><b><span style=\"text-decoration: underline\"><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">O Comit\u00e9 repudia ainda as cal\u00fanias de certa imprensa, em especial <i><span style=\"font-family: Arial\">A \u00c9poca<\/span><\/i>, que diz que h\u00e1 um espanhol de \u00f3culos, h\u00e1 pouco tempo chegado a Lisboa, que foi o instigador da greve, sabendo-se que os \u00fanicos instigadores s\u00e3o os propriet\u00e1rios. <\/span><\/span><\/b><\/p>\n<p><b><span style=\"text-decoration: underline\"><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">No mesmo comunicado, o Comit\u00e9 afirma que a classe n\u00e3o tem responsabilidade alguma no atentado \u00e0 bomba contra o Hotel Borges, rejeitando qualquer insinua\u00e7\u00e3o a esse respeito.<\/span><\/span><\/b><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Repudiam a arbitrariedade do Governador Civil, que proibiu uma Assembleia-geral, sob o pretexto de nela estar a participar um dirigente da Uni\u00e3o dos Sindicatos Oper\u00e1rios de Lisboa. E perguntam, se a atitude do Governador, n\u00e3o ter\u00e1 sido uma <i><span style=\"font-family: Arial\">r\u00e9vanche <\/span><\/i>pelo facto de no Domingo n\u00e3o se ter realizado, por falta de pessoal, um almo\u00e7o de homenagem que alguns amigos lhe queriam oferecer.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: medium\"><span style=\"color: #000000\"><b><span style=\"text-decoration: underline\">A Associa\u00e7\u00e3o dos Culin\u00e1rios<\/span><\/b>, n\u00e3o se atemoriza com mais uma proibi\u00e7\u00e3o do Governador e acaba por reunir a Assembleia-geral proibida, com grande participa\u00e7\u00e3o, e declara a greve de solidariedade, ao mesmo tempo que reivindica 50% de aumentos salariais para o pessoal das cozinhas e copas, <span style=\"font-family: Arial\"><b><span style=\"text-decoration: underline\">juntando-se ao processo de luta dos Empregados de Mesa<\/span><\/b><\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p><b><span style=\"text-decoration: underline\"><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Os trabalhadores da Figueira da Foz secundam a greve de Lisboa pelas mesmas reivindica\u00e7\u00f5es, e os de Coimbra e Porto, enviam mensagens de solidariedade e mostram-se dispostos a aderir ao movimento.<\/span><\/span><\/b><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Os grevistas do Hotel Avenida Palace, quotizam-se e contribuem com 900 escudos para as despesas da luta e o seu exemplo desenvolve-se noutras casas.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">No dia 11, numa enorme assembleia, os grevistas repudiam o truque do governador civil ao amea\u00e7ar que se desse algum atentado teriam de retomar de imediato o trabalho, e face \u00e0 unidade e resist\u00eancia demonstradas, aprovam a continua\u00e7\u00e3o da greve nos seguintes termos: manter a greve e retomar o trabalho s\u00f3 depois de satisfeitas as reivindica\u00e7\u00f5es, mesmo que haja provoca\u00e7\u00f5es; protestar contra as proibi\u00e7\u00f5es do Governador Civil; manter a ordem e repudiar qualquer viol\u00eancia desnecess\u00e1ria; intensificar o movimento em v\u00e1rios pontos do pa\u00eds.<\/span><a title=\"\" href=\"#_ftn37\"><span style=\"color: #0066cc\">[37]<\/span><\/a><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Na mesma Assembleia, \u00e9 eleita uma Comiss\u00e3o com plenos poderes para negociar, composta pelos tr\u00eas dirigentes mais destacados da Associa\u00e7\u00e3o: Manuel do Nascimento, Em\u00edlio Vila e Rodrigo Cardoso. N\u00e3o tardaria que dois deles viessem a ser presos e o outro colocado na fronteira espanhola.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">S\u00e3o desmontadas as afirma\u00e7\u00f5es do patr\u00e3o dos patr\u00f5es dos hot\u00e9is, Alexandre Almeida, que mente em entrevista ao <i><span style=\"font-family: Arial\">Di\u00e1rio de Lisboa<\/span><\/i>, quando afirma que os empregados de mesa recebem ordenado, e compara as gratifica\u00e7\u00f5es dadas pelas administra\u00e7\u00f5es aos directores e empregados dos bancos, com o vexame da esmola que \u00e9 a gorjeta dada aos empregados pelos clientes dos estabelecimentos hoteleiros.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Entre as diversas perip\u00e9cias relatadas na assembleia, \u00e9 elucidativa do ambiente que se vive, a do \u2018<i><span style=\"font-family: Arial\">papelucho\u2019 <\/span><\/i>distribu\u00eddo aos h\u00f3spedes no hotel Francfort, a pedir aos clientes que gratifiquem o Chefe de Mesa e os dois criados que o est\u00e3o a auxiliar, servindo-os com risco da pr\u00f3pria vida. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Quanto \u00e1s explos\u00f5es de petardos<\/span><a title=\"\" href=\"#_ftn38\"><span style=\"color: #0066cc\">[38]<\/span><\/a><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">, continuam a afirmar que deve ser obra dos que pretendem desmoralizar a classe e desmobilizar a greve. E dizem. V\u00e1rios grevistas t\u00eam recebido visitas da pol\u00edcia, que pretende encontrar entre n\u00f3s os bombistas, fazendo algumas pris\u00f5es. Pois que visite \u00e0 vontade e investigue, e ver\u00e1 que est\u00e1 errada. E se investigar bem, verificar\u00e1 que quem tem interesse em que haja atentados \u00e9 a classe patronal e a reac\u00e7\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">T\u00eam toda a raz\u00e3o na an\u00e1lise que fazem estes camaradas ao atribu\u00edrem a poss\u00edveis provoca\u00e7\u00f5es a explos\u00e3o dos petardos. Mas nesta \u00e9poca, n\u00e3o \u00e9 de descartar a possibilidade de os bombistas estarem nos \u2018<i><span style=\"font-family: Arial\">Camartelos, <\/span><\/i>na <i><span style=\"font-family: Arial\">Legi\u00e3o Vermelha <\/span><\/i>ou noutros dos grupos anarquistas existentes.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Bento Gon\u00e7alves, na altura prestigiado sindicalista do sindicato do Arsenal da Marinha, partid\u00e1rio da ISV (Internacional dos Sindicatos Vermelhos) e mais tarde Secret\u00e1rio-geral do Partido Comunista Portugu\u00eas, insuspeito de estar ao lado do patronato e da pol\u00edcia, afirma: <\/span><i><span style=\"color: #000000;font-family: Arial;font-size: medium\">\u00abo terrorismo oper\u00e1rio era a arma com que se procurava suprir as contrariedades que se opunham ao \u00eaxito das reclama\u00e7\u00f5es econ\u00f3micas e reivindica\u00e7\u00f5es de outras esp\u00e9cies da classe oper\u00e1ria. O recurso \u00e0 bomba e o atentado pessoal constitu\u00eda uma reac\u00e7\u00e3o que, pela sua natureza contraproducente mais encarni\u00e7ava a reac\u00e7\u00e3o.\u00bb<\/span><a title=\"\" href=\"#_ftn39\"><b><span style=\"color: #0066cc\">[39]<\/span><\/b><\/a><\/i><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">A assembleia termina com entusi\u00e1sticos vivas \u00e0 greve geral, \u00e0 USO e \u00e0 Batalha.<\/span><\/p>\n<p><b><span style=\"text-decoration: underline\"><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Dia 13, O Aero Clube de Portugal, escreve aos grevistas a pedir-lhes para servirem um banquete em homenagem aos aviadores Gago Coutinho e Sacadura Cabral, devido ao \u00eaxito que tiveram na primeira travessia do Atl\u00e2ntico Sul, em 1922.<\/span><\/span><\/b><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Chamados ao Governo Civil para discutir o assunto, saudaram o feito dos her\u00f3is da avia\u00e7\u00e3o, mas recusaram-se a servir o banquete.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Apesar da coac\u00e7\u00e3o, das proibi\u00e7\u00f5es, do encerramento da sede, das pris\u00f5es, todos os dias havia assembleias com grande e entusi\u00e1stica participa\u00e7\u00e3o, a maioria delas feitas em pleno Rossio. <\/span><\/p>\n<p><b><span style=\"text-decoration: underline\"><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Dia 14, debaixo de uma enorme manifesta\u00e7\u00e3o, estiveram presentes delegados dos grevistas da Figueira da Foz, que informaram que manteriam a greve at\u00e9 \u00e0 satisfa\u00e7\u00e3o das reivindica\u00e7\u00f5es. <\/span><\/span><\/b><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Foi lido um telegrama de apoio dos trabalhadores de Vidago. Outro das Caldas da Rainha, de protesto contra as pris\u00f5es. Foi dada informa\u00e7\u00e3o sobre a oferta volunt\u00e1ria de diversas quantias em dinheiro para ajudar os grevistas mais necessitados, tendo sido destacado com muitos aplausos, o envio de dois mil escudos pela Associa\u00e7\u00e3o de Classe cong\u00e9nere do Porto.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Mas, a maior ova\u00e7\u00e3o foi para o an\u00fancio de que <i><span style=\"font-family: Arial\">\u2018os amarelos\u2019<\/span><\/i> que se encontravam a trabalhar na Brasileira e no Chave de Ouro, n\u00e3o tinham aguentado a press\u00e3o e se juntaram aos grevistas. E que, o cabecilha que os tinha aliciado a trabalhar fugira de forma inesperada e cobarde para o campo.<\/span><\/p>\n<p><b><span style=\"text-decoration: underline\"><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Ao d\u00e9cimo dia de greve, a pretexto da explos\u00e3o de mais uma bomba, as autoridades amea\u00e7am expulsar os estrangeiros, atacam duramente a Associa\u00e7\u00e3o e fazem mais pris\u00f5es. Aos camaradas presos, a classe d\u00e1 garantias de que n\u00e3o arrepiar\u00e1 caminho na luta at\u00e9 \u00e0 vit\u00f3ria e \u00e0 sua liberta\u00e7\u00e3o.<\/span><\/span><\/b><\/p>\n<p><b><span style=\"text-decoration: underline\"><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Dia 16, chega a Lisboa a noticia de que na Figueira da Foz duas casas cederam \u00e0s reclama\u00e7\u00f5es.<\/span><\/span><\/b><\/p>\n<p><b><span style=\"text-decoration: underline\"><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">No dia 18 de Setembro, s\u00e3o postos na fronteira, Manuel do Nascimento, Marcelino Garrido Alvares, Jos\u00e9 Maria Fernandez Igl\u00e9sias e Fernando e \u00c1lvaro Lauresanea, <\/span><\/span><\/b><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">com a alega\u00e7\u00e3o de que s\u00e3o grevistas espanh\u00f3is. O que \u00e9 falso, visto que apenas um \u00e9 espanhol, e mesmo esse \u00e9 um cidad\u00e3o a quem a Republica deve muito devido ao contributo que deu para a sua implanta\u00e7\u00e3o.<\/span><a title=\"\" href=\"#_ftn40\"><span style=\"color: #0066cc\">[40]<\/span><\/a><span style=\"color: #000000;font-size: medium\"> Se h\u00e1 patr\u00f5es espanh\u00f3is, porque s\u00e3o estes poupados, mesmo quando n\u00e3o cumprem as leis da Rep\u00fablica Portuguesa, perguntam.<\/span><\/p>\n<p><b><span style=\"text-decoration: underline\"><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">No dia 23, pelas quinze horas, houve uma reuni\u00e3o com o patronato. Nessa reuni\u00e3o, a Associa\u00e7\u00e3o dos Propriet\u00e1rios prop\u00f4s o estabelecimento de uma taxa de servi\u00e7o de 10% como forma de remunera\u00e7\u00e3o, pondo como condi\u00e7\u00e3o que essa percentagem fosse acrescida ao montante da conta do cliente.<\/span><\/span><\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-size: medium\"><span style=\"color: #000000\"><b><span style=\"text-decoration: underline\">A Comiss\u00e3o Negociadora Sindical, n\u00e3o aceitou a proposta, por ela significar um brutal aumento dos pre\u00e7os para a popula\u00e7\u00e3o, com cuja luta contra a carestia de vida estavam solid\u00e1rios<\/span><\/b>.<\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: medium\"><span style=\"color: #000000\"><i>\u2019Santa ingenuidade<\/i> Tiveram o p\u00e1ssaro na m\u00e3o e deixaram-no fugir. No seu idealismo voluntarista e radical, n\u00e3o perceberam que os patr\u00f5es continuariam a aumentar os pre\u00e7os para manter as margens de lucro independentemente de haver ou n\u00e3o taxa de servi\u00e7o. N\u00e3o se deram conta que era estult\u00edcia pretender suster o aumento dos pre\u00e7os com o seu pr\u00f3prio sacrif\u00edcio.<\/span><\/span><\/p>\n<p><b><span style=\"text-decoration: underline\"><span style=\"font-size: medium\"><span style=\"color: #000000\"><span style=\"font-family: Arial\">\u00a0<\/span>O Conselho Jur\u00eddico da CGT inicia uma demanda para a liberta\u00e7\u00e3o dos grevistas. Passados dezoito dias de greve, o comit\u00e9 registava 24 pris\u00f5es, podendo haver mais, n\u00e3o identificadas pela organiza\u00e7\u00e3o. O calabou\u00e7o n\u00ba 7 do Governo Civil est\u00e1 cheio de grevistas.<\/span><\/span><\/span><\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-size: medium\"><span style=\"color: #000000\"><span style=\"font-family: Arial\">\u00a0<\/span>A <i><span style=\"font-family: Arial\">Batalha <\/span><\/i>de 23 de Setembro informa que reina a confus\u00e3o e o medo no seio do patronato, e que h\u00e1 entre os grevistas o mesmo \u00e2nimo do come\u00e7o da greve. Conta ainda alguns epis\u00f3dios ocorridos na Baixa, ilustrativos do conluio entre patr\u00f5es e autoridades: <b><span style=\"text-decoration: underline\"><span style=\"font-family: Arial\">foram presos 14 empregados de caf\u00e9s, e trazidos para o posto de pol\u00edcia do Teatro Nacional.<\/span><\/span><\/b> Momentos depois, aparece ali o senhor Carvalho, s\u00f3cio gerente do Chave de Ouro, que se dirigiu aos presos, como se estivesse em sua pr\u00f3pria casa, dizendo-lhes:<\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">&#8211; Se querem ser postos em liberdade eu mando-vos libertar. Basta regressarem amanh\u00e3 ao trabalho. Os trabalhadores detidos anu\u00edram, e foi o senhor Carvalho em pessoa que mandou abrir as portas do calabou\u00e7o. J\u00e1 c\u00e1 fora, perguntaram ao gerente do caf\u00e9 se ou seu gesto significava que ia aceitar as reivindica\u00e7\u00f5es. Como este dissesse que n\u00e3o, mantiveram-se em greve.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: medium\"><span style=\"color: #000000\"><span style=\"font-family: Arial\">\u00a0<\/span>O senhor Carvalho viria a repetir a fa\u00e7anha, desta vez para soltar um amigo, deixando na pris\u00e3o os dois companheiros que tinham sido detidos juntamente com ele.<\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: medium\"><span style=\"color: #000000\"><b><span style=\"text-decoration: underline\">A 24 de Setembro, uma delega\u00e7\u00e3o de mais de trezentos grevistas foram ao Governo Civil visitar os camaradas presos<\/span><\/b>. Claro que uma delega\u00e7\u00e3o t\u00e3o numerosa acabou por ficar \u00e0 porta. Dois dias depois, a policia volta a encerrar a sede da Associa\u00e7\u00e3o, no mesmo momento em que mais uma grande assembleia decide a continua\u00e7\u00e3o da greve e protesta contra o infame atentado dinamitista, executado no Francfort Hotel, considerando-o uma manobra perversa para que sejam feitas mais persegui\u00e7\u00f5es.<\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: medium\"><span style=\"color: #000000\"><b><span style=\"text-decoration: underline\">No dia 28 de Setembro, a Assembleia proclama a <i><span style=\"font-family: Arial\">\u2018 Greve Geral Revolucion\u00e1ria\u2019<\/span><\/i> <\/span><\/b>devendo a partir da\u00ed, cada grevista, sob sua inteira responsabilidade, utilizar os meios que entender para atingir os fins em causa.<\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Era o descalabro aventureirista. A confus\u00e3o foi total. O conceito de Greve Geral Revolucion\u00e1ria que quando \u00e9 usado conscientemente se aplica a uma greve cuja finalidade \u00faltima \u00e9 a mudan\u00e7a de regime pol\u00edtico ou econ\u00f3mico era aqui utilizado em desespero de causa. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: medium\"><span style=\"color: #000000\">A persegui\u00e7\u00e3o policial intensificou-se. No \u00faltimo dia do m\u00eas, uma comiss\u00e3o ainda se avistava com o dono do Hotel Inglaterra, que queria chegar a acordo. <span style=\"font-family: Arial\"><b><span style=\"text-decoration: underline\">No dia 2 de Outubro, 25 dias depois de declarada, a greve estava esvaziada.<\/span><\/b><\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p><b><span style=\"text-decoration: underline\"><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Dia tr\u00eas foram restitu\u00eddos \u00e0 liberdade, sem que tenha sido deduzida qualquer acusa\u00e7\u00e3o, 17 dos grevistas presos, que assim que sa\u00edram se dirigiram directamente \u00e0 Batalha para agradecer o apoio dado. <\/span><\/span><\/b><\/p>\n<p><b><span style=\"text-decoration: underline\"><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">No descalabro final da luta, a direc\u00e7\u00e3o da Associa\u00e7\u00e3o ficou reduzida a dois elementos. <\/span><\/span><\/b><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">O radicalismo anarquista tivera o seu ep\u00edlogo natural.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: medium\"><span style=\"color: #000000\">O rescaldo foi dram\u00e1tico para muitas fam\u00edlias e para a Associa\u00e7\u00e3o. Mais de uma centena de trabalhadores foram despedidos. Alguns dirigentes foram marcados e perseguidos para sempre. N\u00e3o voltaram a conseguir empregar-se na profiss\u00e3o. <span style=\"font-family: Arial\"><b><span style=\"text-decoration: underline\">A Associa\u00e7\u00e3o passou mais de dois anos \u00e0 deriva, sem direc\u00e7\u00e3o eleita. \u00c9 j\u00e1 depois do Golpe Militar do 28 de Maio de 1926, que se d\u00e3o os primeiros passos de uma penosa e dif\u00edcil reorganiza\u00e7\u00e3o.<\/span><\/b><\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p><b><span style=\"text-decoration: underline\"><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">A classe, na altura, considerou o desfecho do movimento uma derrota. Mas, nada voltou a ser como antes. Na Associa\u00e7\u00e3o, estavam arquivadas mais de uma dezena de actas, assinadas pelos patr\u00f5es a comprometerem-se com o cumprimento das reivindica\u00e7\u00f5es. V\u00e1rios estabelecimentos, em Lisboa e na Figueira da Foz, passaram a praticar a taxa de servi\u00e7o de 10% sobre a conta. Algum tempo depois, esta forma de remunera\u00e7\u00e3o estava generalizada nos hot\u00e9is do Estoril, e a pouco e pouco foi-se estendendo nos principais estabelecimentos de Lisboa e Porto.<\/span><\/span><\/b><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div>\n<p><a title=\"\" href=\"#_ftnref37\">[37]<\/a> <i>A Batalha,<\/i> de 11 de Setembro de 1924, fl. 2<\/p>\n<\/div>\n<div>\n<p><a title=\"\" href=\"#_ftnref38\">[38]<\/a> Petardo sem metralha, apenas carregados com dinamite e enxofre, habitualmente usados pelos anarquistas para assustar os cavalos da GNR e fazer estatelar os seus cavaleiros na cal\u00e7ada.<\/p>\n<\/div>\n<div>\n<p><a title=\"\" href=\"#_ftnref39\">[39]<\/a> Gon\u00e7alves, Bento, Op. Cit\u00a0 p. 104<\/p>\n<\/div>\n<div>\n<p><a title=\"\" href=\"#_ftnref40\">[40]<\/a> <i>A Batalha<\/i>, de 19 de Setembro de 1924, fl, 2<\/p>\n<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">O COME\u00c7O DA NOITE FACISTA (1926 \u2013 1935)<\/span><\/b><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Para travar o \u00edmpeto revolucion\u00e1rio do movimento oper\u00e1rio e ultrapassar as suas dificuldades internas, o capitalismo n\u00e3o olha a meios para atingir os seus fins, e recorre \u00e0 implanta\u00e7\u00e3o de ditaduras fascistas por toda a Europa. Primo de Rivera j\u00e1 governava em Espanha, Mussolini j\u00e1 imperava em It\u00e1lia, na Pol\u00f3nia, na \u00c1ustria e na Jugosl\u00e1via eram instaladas ditaduras, e Adolf Hitler preparava a ascens\u00e3o ao poder na Alemanha.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Em Portugal, tamb\u00e9m acabou por acontecer. No dia 28 de Maio de 1926, eclode em Braga o Golpe Militar vitorioso t\u00e3o demoradamente preparado e esperado pela reac\u00e7\u00e3o. O General Gomes da Costa, vestiu a farda, e vaidoso, de espada ao ombro, passeou os gal\u00f5es pelo pais, de Norte a sul, em paradas militares, com o Povo a assistir, e sem qualquer resist\u00eancia s\u00e9ria naqueles primeiros dias, proclamou que os problemas da Na\u00e7\u00e3o s\u00f3 seriam resolvidos com a instaura\u00e7\u00e3o de uma Ditadura Nacional. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Propunha-se demitir o Governo, castigar os fals\u00e1rios das notas do Banco de Portugal, reconstruir as estradas, restaurar as finan\u00e7as, restabelecer a ordem p\u00fablica, moralizar a administra\u00e7\u00e3o p\u00fablica, e p\u00f4r fim \u00e0 repress\u00e3o sobre o trabalho. E para sossegar os mais desconfiados, afirmava que a Ditadura s\u00f3 duraria o tempo necess\u00e1rio para arrumar a casa. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Tal programa foi bem aceite e festejado por muita gente, da direita \u00e0 esquerda, incluindo muitos trabalhadores e sindicalistas. Os ferrovi\u00e1rios do Barreiro chegam mesmo a declarar uma greve de apoio aos golpistas no pr\u00f3prio dia 28 de Maio.<\/span><a title=\"\" href=\"#_ftn41\"><span style=\"color: #0066cc\">[41]<\/span><\/a><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Mas o operariado mais esclarecido n\u00e3o tem grandes ilus\u00f5es. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">O II Congresso do Partido Comunista Portugu\u00eas, cuja realiza\u00e7\u00e3o coincidiu com o fat\u00eddico dia, alerta para os perigos do golpe militar e caracteriza-o de fascista.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Foi ainda da CGT, que acabou por surgir a primeira tentativa de resist\u00eancia atrav\u00e9s da proclama\u00e7\u00e3o da Greve Geral Revolucion\u00e1ria para 1 de Junho de 1926.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Mas a divis\u00e3o existente no movimento sindical, o seu consequente enfraquecimento, e as debilidades de direc\u00e7\u00e3o da central, aliados \u00e1s medidas de coa\u00e7\u00e3o tomadas pelos golpistas, impediram o desenvolvimento da luta. O suplemento de <i><span style=\"font-family: Arial\">A Batalha<\/span><\/i> com a proclama\u00e7\u00e3o \u00e9 proibido de circular e a greve foi abortada.<\/span><\/p>\n<p><b><span style=\"text-decoration: underline\"><span style=\"font-size: medium\"><span style=\"color: #000000\"><span style=\"font-family: Arial\">\u00a0<\/span>Ao contr\u00e1rio do que prometera, a Ditadura militar actuou de forma desorganizada na governa\u00e7\u00e3o, colocou-se desde o in\u00edcio ao servi\u00e7o do grande capital, e desenvolve toda uma politica de financiamentos \u00e1s grandes empresas, que veio a agravar a situa\u00e7\u00e3o econ\u00f3mica e financeira do pa\u00eds em vez de a melhorar.<\/span><\/span><\/span><\/b><\/p>\n<p><b><span style=\"text-decoration: underline\"><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Ao mesmo tempo, em vez do fim da repress\u00e3o sobre o trabalho conforme prometera, a Ditadura intensifica essa repress\u00e3o.<\/span><\/span><\/b><\/p>\n<p><b><span style=\"text-decoration: underline\"><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">No dia 6 de Fevereiro de 1927, os trabalhadores dos caf\u00e9s do Rossio s\u00e3o mais uma vez testemunhas das fa\u00e7anhas da pol\u00edcia e da GNR, que perseguem ferozmente grupos de manifestantes. Nesta ac\u00e7\u00e3o policial, <i><span style=\"font-family: Arial\">A Brasileira<\/span><\/i> \u00e9 encerrada porque as autoridades consideravam que o conhecido caf\u00e9 se tinha transformado em centro de com\u00edcios revolucion\u00e1rios<\/span><a title=\"\" href=\"#_ftn42\"><b><span style=\"text-decoration: underline\"><span style=\"color: #0066cc\">[42]<\/span><\/span><\/b><\/a><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">. <\/span><\/span><\/b><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">No mesmo dia, o Governo manda as for\u00e7as militares intervirem na greve dos ferrovi\u00e1rios do Sul e Sueste, que tinham paralisado todo o tr\u00e1fego a sul do Tejo. O sindicato ferrovi\u00e1rio, que apoiou o Golpe fascista de 28 de Maio, fazia agora autocr\u00edtica pelos mesmos meios e colocava-se do outro lado da barricada. O aventureirismo e a cren\u00e7a no \u00abreviralho\u00bb<\/span><a title=\"\" href=\"#_ftn43\"><span style=\"color: #0066cc\">[43]<\/span><\/a><span style=\"color: #000000;font-size: medium\"> como forma de alterar a situa\u00e7\u00e3o politica e social tinham destas coisas. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">A escalada repressiva prossegue. E, no dia 28 de Abril de 1928, Ant\u00f3nio de Oliveira Salazar, que j\u00e1 fora Ministro das Finan\u00e7as por um breve per\u00edodo de 15 dias em Junho de 1926, toma novamente posse do mesmo cargo pol\u00edtico, desta vez para se manter no poder mais de quarenta anos durante uma das \u00e9pocas mais sombrias da nossa Hist\u00f3ria. Por detr\u00e1s dele, desde a primeira hora, e at\u00e9 \u00e0 sua morte, estiveram sempre a Igreja Cat\u00f3lica, os mon\u00e1rquicos, a extrema-direita, o grande capital, e todas for\u00e7as retr\u00f3gradas do pa\u00eds. <\/span><\/p>\n<p><b><span style=\"text-decoration: underline\"><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Na associa\u00e7\u00e3o de classe da hotelaria continuava-se a sofrer as sequelas do descalabro da greve de Setembro de 1924 pela aboli\u00e7\u00e3o da gorgeta. S\u00f3 um ano depois de imposta a Ditadura, no dia 1 de Abril de 1927, surge <i><span style=\"font-family: Arial\">A Defesa <\/span><\/i>n\u00ba 1, segunda s\u00e9rie, tendo como director o velho activista anarquista Luciano Gil Montes, e trazendo inscrito, o sintom\u00e1tico aviso. \u00ab<i><span style=\"font-family: Arial\">Este n\u00famero foi visado pela Comiss\u00e3o de Censura<\/span><\/i>.\u00bb <\/span><\/span><\/b><\/p>\n<p><b><span style=\"text-decoration: underline\"><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Entre os associados tinha crescido o n\u00famero dos que defendiam que os estrangeiros, os galegos, deviam ir para as suas terras e dar o lugar aos portugueses que precisavam de trabalho. Este grupo xen\u00f3fobo, que inclu\u00eda ex-dirigentes da Associa\u00e7\u00e3o, colocava-se claramente ao lado da Ditadura. <\/span><\/span><\/b><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Em determinada ocasi\u00e3o foram mesmo \u00abjunto do Ministro do Trabalho solicitar que, enquanto houvesse criados portugueses sem trabalho, n\u00e3o fossem empregados os que fossem estrangeiros.\u00bb<\/span><a title=\"\" href=\"#_ftn44\"><span style=\"color: #0066cc\">[44]<\/span><\/a><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Gil Montes indigna-se com esta atitude dos \u00abcomponentes de uma classe onde n\u00e3o deve haver bairrismos, onde se n\u00e3o deve ver espanh\u00f3is, franceses ou portugueses, mas apenas homens ou trabalhadores que ganham o seu sustento com o seu esfor\u00e7o dentro da mesma ind\u00fastria. Muitos camaradas, fundadores da Associa\u00e7\u00e3o, verificaram que estavam a ser tra\u00eddos, dentro da casa para onde contribu\u00edam com a sua quota e davam a sua solidariedade num esfor\u00e7o comum\u00bb e por isso \u00abpediram a sua demiss\u00e3o\u00bb.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Mas esta fidelidade do velho anarquista que se orgulhava de ser o s\u00f3cio fundador numero 25, ao princ\u00edpio do internacionalismo, n\u00e3o o impede de, ao verberar o facto de os funcion\u00e1rios p\u00fablicos \u00abde ordenados chorudos\u00bb se escapulirem das reparti\u00e7\u00f5es com a \u00abbenevol\u00eancia dos superiores\u00bb para irem fazer concorr\u00eancia \u00e0 classe, nos banquetes, casamentos e baptizados, concluir: \u00abO 28 de Maio veio para moralizar os costumes, sanear os servi\u00e7os do Estado, fazer justi\u00e7a, n\u00e3o permitir acumula\u00e7\u00f5es que possam prejudicar seja quem for,\u00bb portanto, \u00abou criados de mesa ou empregados do Estado\u00bb<\/span><i><span style=\"color: #000000;font-family: Arial;font-size: medium\">.<\/span><a title=\"\" href=\"#_ftn45\"><b><span style=\"color: #0066cc\">[45]<\/span><\/b><\/a><\/i><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Arial\"><span style=\"font-size: medium\"><span style=\"color: #000000\">\u00a0<b><span style=\"text-decoration: underline\">A Comiss\u00e3o Executiva em exerc\u00edcio na Associa\u00e7\u00e3o vai ainda mais longe, e enquanto a parte mais combativa do operariado j\u00e1 luta como pode contra a Ditadura, rende preitos de gratid\u00e3o ao Chefe do Distrito, major Luiz de Moura e ao comandante da pol\u00edcia, Ferreira do Amaral.<\/span><\/b><\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Isto porque, face ao pedido de aux\u00edlio que a Associa\u00e7\u00e3o lhes fizera para que apoiassem a fiscaliza\u00e7\u00e3o da lei do hor\u00e1rio e do descanso semanal, estes militares policias mandaram publicar na Ordem do Corpo de Policia de 22 de Setembro de 1926, o seguinte:<\/span><\/p>\n<p><i><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">\u00abQue se remetam \u00e1s esquadras e postos, exemplares dos bilhetes de identidade usados pelos fiscais da referida Associa\u00e7\u00e3o a quem a policia deve prestar o aux\u00edlio aludido no decreto 5516 de 7 de Maio de 1919 e respectivo regulamento de 21 de Maio do ano findo.<\/span><a title=\"\" href=\"#_ftn46\"><b><span style=\"color: #0066cc\">[46]<\/span><\/b><\/a><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">\u00bb<\/span><\/i><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">No princ\u00edpio, a Ditadura seguiu o exemplo de Afonso Costa no seu primeiro Governo, e acarinhou a actividade dos socialistas, procurado utiliz\u00e1-los contra a componente mais combativa da classe oper\u00e1ria. O Partido Socialista, chefiado por Ramada Curto, colocara-se numa posi\u00e7\u00e3o de colabora\u00e7\u00e3o expectante. E mais tarde, o principal dirigente socialista, passou mesmo a colaboracionista activo, ao aceitar a encomenda que lhe foi feita por Salazar atrav\u00e9s do Intendente Geral da Policias, para traduzir e adaptar para Portugal, a Carta del Lavoro, de Benito Mussolini.<\/span><a title=\"\" href=\"#_ftn47\"><span style=\"color: #0066cc\">[47]<\/span><\/a><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Nesta fase, os socialistas eram a tend\u00eancia dominante na Direc\u00e7\u00e3o da Associa\u00e7\u00e3o da hotelaria. E, embora ali houvesse gente conformada, e at\u00e9 simpatizantes do novo regime, a maioria dos activistas n\u00e3o se conformava com a nova situa\u00e7\u00e3o politica. <\/span><\/p>\n<p><b><span style=\"text-decoration: underline\"><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Na assembleia-geral de 18 de Maio de 1927, os s\u00f3cios presentes e parte da Direc\u00e7\u00e3o encontravam-se de candeias \u00e1s avessas<\/span><\/span><\/b><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">. De tal modo que, o Gra\u00e7a Pereira, Presidente da Mesa, solicitou a policia a participar. O que leva Gil Montes a rebelar-se e a apelar \u00e0 classe para que n\u00e3o consinta a repeti\u00e7\u00e3o de tais actos, relatando: \u00abque se saiba, nunca uma Assembleia foi amea\u00e7ada de ser evacuada pela pol\u00edcia, ao m\u00ednimo gesto que desagradasse ao Presidente. E as coisas n\u00e3o ficaram por aqui. Um pol\u00edcia usou da palavra, autorizado pela presid\u00eancia, e intimou que ali, quem mandava primeiro era o presidente, e depois, a pol\u00edcia, e que, todo aquele que n\u00e3o estivesse em ordem seria expulso da sala. E o Presidente, conivente, acrescentou que todos os que fizessem <i><span style=\"font-family: Arial\">apartes<\/span><\/i> fossem logo postos fora da sala.\u00bb<\/span><a title=\"\" href=\"#_ftn48\"><span style=\"color: #0066cc\">[48]<\/span><\/a><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Neste per\u00edodo da Ditadura, a \u00fanica actividade que os sindicalistas da hotelaria conseguiam levar a cabo com alguma regularidade era a de fiscaliza\u00e7\u00e3o do cumprimento do dia de descanso semanal, e o envio para tribunal dos patr\u00f5es infractores, que eram muitos. No resto, o essencial das suas for\u00e7as era gasto em conflitos internos entre grupos, dos quais se destacavam os <i><span style=\"font-family: Arial\">galegos<\/span><\/i> e os portugueses que estavam com eles, que defendiam o sindicalismo tradicional, e os \u00abnacionais\u00bb que queriam correr com os <i><span style=\"font-family: Arial\">galegos,<\/span><\/i> e \u00abobrig\u00e1-los a regressar \u00e0 Galiza nas bicicletas em que haviam chegado\u00bb, contestando a sua influ\u00eancia na Associa\u00e7\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Entre 1928 e 1932, o desemprego, o n\u00e3o cumprimento da lei do hor\u00e1rio e do descanso semanal, aumentaram drasticamente. Muitas empresas encerraram, outras reduziram a labora\u00e7\u00e3o e os sal\u00e1rios, outras aumentaram o hor\u00e1rio de trabalho, e nos caf\u00e9s e restaurantes alastrou novamente a pr\u00e1tica de os patr\u00f5es ficarem com parte das gratifica\u00e7\u00f5es dos empregados.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Com os sindicatos enfraquecidos e o patronato de costas quentes com a Ditadura, as lutas reivindicativas dos trabalhadores diminu\u00edram. Mesmo assim, ainda se travaram combates importantes em alguns sectores. Os oper\u00e1rios da constru\u00e7\u00e3o naval, por exemplo, levam a cabo uma greve de um m\u00eas, envolvendo mais de dois mil carpinteiros e calafates, que terminou com os aumentos salariais reivindicados.<\/span><a title=\"\" href=\"#_ftn49\"><span style=\"color: #0066cc\">[49]<\/span><\/a><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Os oper\u00e1rios da Companhia Nacional de Navega\u00e7\u00e3o fizeram tamb\u00e9m uma greve de dois meses que apesar da brutalidade da repress\u00e3o sobre eles exercida terminou numa vit\u00f3ria completa. Cinco mil pescadores de Set\u00fabal levam a cabo um movimento grevistico que durou tr\u00eas meses e terminou em vit\u00f3ria parcial.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: medium\"><span style=\"color: #000000\"><b><span style=\"text-decoration: underline\">O Nacional-Sindicalismo, movimento nazi-fascista, faz tamb\u00e9m a sua apari\u00e7\u00e3o neste per\u00edodo conturbado<\/span><\/b>. Admirador fan\u00e1tico de Hitler, Rol\u00e3o Preto introduz em Portugal o culto da farda e da viol\u00eancia como forma de interven\u00e7\u00e3o politica. <\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Funda os \u00abcamisas azuis\u00bb e industria os seus seguidores em m\u00e9todos paramilitares, e nos ritos nazis, entre os quais a c\u00e9lebre sauda\u00e7\u00e3o \u00e0 romana, de bra\u00e7o levantado, mais tarde adoptados pelo Mocidade Portuguesa dirigida por Marcelo Caetano. De discurso inflamado, populista, proclama-se \u00abanti-comunista, anti-democr\u00e1tico, anti-burgu\u00eas, anti-capitalista e anti-conservador\u00bb.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Apesar do discurso frequentemente anti-patronal, e de se auto-proclamarem revolucion\u00e1rios, diziam querer fazer uma revolu\u00e7\u00e3o de 3\u00aa via, o Nacional-Sindicalismo nada tinha a ver com o sindicalismo.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Esse facto n\u00e3o impediu esta ideologia de ganhar adeptos em alguns sindicatos, poucos, onde o nacional-sindicalismo viria a provocar cis\u00f5es, como aconteceu nos banc\u00e1rios, na Carris, e na da hotelaria.<\/span><a title=\"\" href=\"#_ftn50\"><span style=\"color: #0066cc\">[50]<\/span><\/a><\/p>\n<p><b><span style=\"text-decoration: underline\"><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Na hotelaria foram os activistas que pretendiam a expuls\u00e3o dos estrangeiros para que dessem lugar aos portugueses desempregados, os seduzidos pelo discurso nazi, nacionalista e chauvinista, de Rol\u00e3o Preto e seus seguidores.<\/span><\/span><\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-size: medium\"><span style=\"color: #000000\">Mesmo com os malef\u00edcios da crise capitalista dos anos de 1929 e 1930, que trouxe mais desemprego e fome, e com a continua\u00e7\u00e3o das dissid\u00eancias internas, com o Nacional-sindicalismo a ganhar for\u00e7a, <span style=\"font-family: Arial\"><b><span style=\"text-decoration: underline\">a Associa\u00e7\u00e3o aumentou o n\u00famero de s\u00f3cios, e foram eleitos novos dirigentes, que iniciaram um processo de reorganiza\u00e7\u00e3o e conseguiram dar maior dinamismo \u00e0 actividade sindical na hotelaria.<\/span><\/b><\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p><b><span style=\"text-decoration: underline\"><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Em 1931, um desses dirigentes, Jos\u00e9 Augusto Machado, empregado de escrit\u00f3rio em Lisboa, \u00abmilitante sindical destacado do PS que tentou p\u00f4r os sindicatos locais a reboque de Ramada Curto\u00bb<\/span><a title=\"\" href=\"#_ftn51\"><b><span style=\"text-decoration: underline\"><span style=\"color: #0066cc\">[51]<\/span><\/span><\/b><\/a><span style=\"color: #000000;font-size: medium\"> tamb\u00e9m dirigente da FAO, a pequena central sindical de influ\u00eancia socialista, foi designado delegado dos trabalhadores portugueses<i><\/i>\u00e0 confer\u00eancia da OIT<\/span><a title=\"\" href=\"#_ftn52\"><b><span style=\"text-decoration: underline\"><span style=\"color: #0066cc\">[52]<\/span><\/span><\/b><\/a><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">, em Genebra, num processo que n\u00e3o foi pac\u00edfico na Associa\u00e7\u00e3o, nem no movimento sindical em geral. <\/span><\/span><\/b><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Depois do seu regresso de Genebra, Jos\u00e9 Augusto Machado \u00e9 admitido na Associa\u00e7\u00e3o de Classe da Hotelaria como activista sindical a tempo inteiro.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Em alguns, a designa\u00e7\u00e3o do delegado portugu\u00eas \u00e0 OIT de entre os sindicalistas da hotelaria, despertou inveja, devido \u00e0 oportunidade que significava de uma viagem de um m\u00eas \u00e0 Sui\u00e7a, a custas do Estado, e ao protagonismo social que tal representa\u00e7\u00e3o proporcionava.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Para outros, como o sindicalista e dirigente do Partido Comunista, Jos\u00e9 de Sousa, a designa\u00e7\u00e3o do sindicalista socialista eram \u00abos reformistas a ajudar afincadamente o Governo na prepara\u00e7\u00e3o da delega\u00e7\u00e3o a Genebra\u00bb<\/span><a title=\"\" href=\"#_ftn53\"><span style=\"color: #0066cc\">[53]<\/span><\/a><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">De facto, os socialistas, apesar de serem a terceira for\u00e7a nos sindicatos, tinham monopolizado a representa\u00e7\u00e3o dos trabalhadores portugueses \u00e0 OIT. Desde que em 1919 o seu Secret\u00e1rio-geral fora o primeiro delegado dos trabalhadores, outros militantes do PS se lhe seguiram. Augusto Machado que havia sido o delegado dos trabalhadores nomeado pelo Governo para ir Genebra em 1931, bisou a representa\u00e7\u00e3o em 1932.<\/span><a title=\"\" href=\"#_ftn54\"><span style=\"color: #0066cc\">[54]<\/span><\/a><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Por convic\u00e7\u00e3o, por ignor\u00e2ncia, ou por manipula\u00e7\u00e3o, a verdade \u00e9 que largas camadas da popula\u00e7\u00e3o apoiavam o regime fascista em evolu\u00e7\u00e3o. A Uni\u00e3o Nacional, partido criado para lhe dar sustenta\u00e7\u00e3o org\u00e2nica, encarregava-se da organiza\u00e7\u00e3o das ac\u00e7\u00f5es de apoio popular \u00abespont\u00e2neo\u00bb.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Em 29 de Junho, Salazar, que j\u00e1 era na pr\u00e1tica o \u00abChefe\u00bb, v\u00ea essa situa\u00e7\u00e3o formalizada oficialmente com o convite que lhe \u00e9 feito por Carmona para formar Governo.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Num dos discursos que faz pouco tempo depois, o Chefe da Ditadura declara que o trabalho n\u00e3o \u00e9 um direito, mas sim, um dever.<\/span><\/p>\n<p><b><span style=\"text-decoration: underline\"><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Em 10 de Novembro de 1932, ap\u00f3s a conclus\u00e3o do processo de reestrutura\u00e7\u00e3o sindical em que a Associa\u00e7\u00e3o mudou de nome, saiu o n\u00ba 1 de <i><span style=\"font-family: Arial\">O Dever,<\/span><\/i> \u00f3rg\u00e3o da Associa\u00e7\u00e3o de Classe dos empregados da Industria Hoteleira e Profiss\u00f5es Anexas, sendo seu director, Jos\u00e9 Pinho Ribeiro, Presidente da Associa\u00e7\u00e3o. \u00c9 um jornal muito bem feito, de redac\u00e7\u00e3o cuidadosa, excelente apresenta\u00e7\u00e3o gr\u00e1fica, composto e impresso na cooperativa \u00abA Casa dos Gr\u00e1ficos\u00bb \u2013 Travessa da \u00c1gua de Flor, 35, Lisboa. <\/span><\/span><\/b><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">No editorial, intitulado \u00abo nosso dilema\u00bb, assinado pela direc\u00e7\u00e3o do sindicato, explica-se o porqu\u00ea do nome do jornal, e define-se uma orienta\u00e7\u00e3o, que tamb\u00e9m nos mostra que a ideologia dominante na composi\u00e7\u00e3o dos corpos gerentes \u00e9 oposta \u00e0 do regime pol\u00edtico instalado no pa\u00eds. Escrevem:<\/span><\/p>\n<p><i><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">\u00abBastaria o exame do t\u00edtulo do nosso jornal \u00abO Dever\u00bb, para se conhecer o fim da nossa orienta\u00e7\u00e3o\u2026contribuir para que todos os que exercem a sua actividade na ind\u00fastria hoteleira se conven\u00e7am de que t\u00eam, antes de tudo, de cumprir o seu dever social\u2026n\u00e3o nos dedicaremos a atacar sistematicamente os patr\u00f5es, s\u00f3 porque pertencem a uma classe que, pela natureza dos seus interesses, \u00e9 logicamente antag\u00f3nica \u00e0 que representamos\u2026 a nossa directriz consistir\u00e1 pois, em que o dever seja a norma basilar, para que pelo seu cumprimento, a classe adquira a autoridade moral de exigir que os industriais cumpram o seu\u2026n\u00e3o queremos direitos sem deveres, mas reivindicaremos com todas as nossas energias, que, cumpridos os deveres, se nos concedam os correspondentes direitos.\u00bb<\/span><\/i><\/p>\n<p><span style=\"font-size: medium\"><span style=\"color: #000000\"><b><i><span style=\"text-decoration: underline\">O Dever <\/span><\/i><\/b><b><span style=\"text-decoration: underline\">inscreve sob o t\u00edtulo, uma das consignas c\u00e9lebres extra\u00eddas da obra de Karl Marx<\/span><\/b>. Curioso \u00e9 o que nos conta a Direc\u00e7\u00e3o sobre as raz\u00f5es que puseram Marx contra Marx, numa das suas reuni\u00f5es. A Comiss\u00e3o do jornal prop\u00f4s que um dos \u00abconceitos\u00bb do fil\u00f3sofo alem\u00e3o \u00abfigurasse para defini\u00e7\u00e3o da orienta\u00e7\u00e3o demarcada, n\u00e3o s\u00f3 do \u00f3rg\u00e3o de imprensa, mas tamb\u00e9m da Associa\u00e7\u00e3o de Classe.\u00bb <\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">A ideia foi aceite por unanimidade, mas o problema \u00e9 que uns defendiam que o lema a adoptar devia ser: \u00abProlet\u00e1rios de todos os pa\u00edses uni-vos\u00bb e outros preferiam: \u00abA emancipa\u00e7\u00e3o dos trabalhadores h\u00e1-de ser obra dos pr\u00f3prios trabalhadores\u00bb. Face ao impasse, foi feita uma vota\u00e7\u00e3o, tendo a segunda hip\u00f3tese vencido por 6 votos contra 5. Nesta data j\u00e1 a consigna que foi derrotada encimava o cabe\u00e7alho do jornal <i><span style=\"font-family: Arial\">Avante!<\/span><\/i> \u00d3rg\u00e3o oficial do Partido Comunista Portugu\u00eas.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Em <i><span style=\"font-family: Arial\">A Quest\u00e3o Social no Salazarismo<\/span><\/i>, F\u00e1tima Patriarca, para minimizar a import\u00e2ncia da afirma\u00e7\u00e3o que Bento Gon\u00e7alves faz num dos seus artigos sobre a crescente influ\u00eancia da CIS no movimento sindical, d\u00e1 como exemplo do que considera como fragilidade da argumenta\u00e7\u00e3o, o facto de o Secret\u00e1rio-geral do PCP nomear a Associa\u00e7\u00e3o de Classe dos Culin\u00e1rios como tendo sido uma das que aderiram \u00e0 CIS.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: medium\"><span style=\"color: #000000\"><span style=\"font-family: Arial\">\u00a0<\/span>Para provar o seu ponto de vista, a investigadora refere a fus\u00e3o dos culin\u00e1rios pouco tempo depois com as outras associa\u00e7\u00f5es da hotelaria, de influ\u00eancia socialista, num s\u00f3 sindicato, mandando \u00e1s malvas a filia\u00e7\u00e3o na central afecta aos comunistas.<\/span><\/span><a title=\"\" href=\"#_ftn55\"><span style=\"color: #0066cc\">[55]<\/span><\/a><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Mas, a conclus\u00e3o a tirar da decis\u00e3o dos culin\u00e1rios em fundirem-se com as outras associa\u00e7\u00f5es cong\u00e9neres pode bem ser outra. A de que a orienta\u00e7\u00e3o do PCP sob a Bento Gon\u00e7alves, e os activistas dos culin\u00e1rios, comunistas e anarquistas, privilegiaram o processo de refor\u00e7o org\u00e2nico e de unidade ent\u00e3o em curso na hotelaria, mesmo sabendo que este era liderado por elementos do PS ou pr\u00f3ximos deste partido<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">O resultado da vota\u00e7\u00e3o em torno das consignas marxistas na Associa\u00e7\u00e3o pode muito bem reflectir a influ\u00eancia de socialistas, anarquistas e comunistas na direc\u00e7\u00e3o da nova associa\u00e7\u00e3o resultante da fus\u00e3o, com os socialistas a terem mais um voto na sua proposta do que os comunistas e os anarquistas juntos. Muito provavelmente com o voto de desempate de Jos\u00e9 Pinho Ribeiro, o Presidente, que na altura era independente, pois s\u00f3 viria a filiar-se no PS posteriormente.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">O cozinheiro Aleu Rocha, Presidente dos Culin\u00e1rios, era comunista e assim se manteve no seu percurso de activista por muitos anos. E viria a estar novamente com Pinho Ribeiro nas grandes assembleias que em Janeiro 1945 escorra\u00e7aram os salazaristas do Sindicato Nacional, ap\u00f3s um longo processo de luta interna em que os fascistas recorreram \u00e0 chapelada descarada em elei\u00e7\u00f5es sucessivas, sem que mesmo assim tivessem conseguido manter-se no poder no sindicato.<\/span><a title=\"\" href=\"#_ftn56\"><span style=\"color: #0066cc\">[56]<\/span><\/a><span style=\"color: #000000;font-size: medium\"> Processo de luta que culminou na elei\u00e7\u00e3o para o sindicato de alguns dos activistas que eram dos corpos gerentes da associa\u00e7\u00e3o de classe da hotelaria, em 1932\/33 e em que Pinho Ribeiro voltou a ser o Presidente da Direc\u00e7\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Pode ainda deduzir-se que a influ\u00eancia minorit\u00e1ria dos comunistas e anarquistas na nova associa\u00e7\u00e3o foi suficiente para a levar a aderir \u00e0 greve geral de 18 de Janeiro de 1934 mesmo contra a orienta\u00e7\u00e3o expressa do Partido Socialista. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">\u00c9 tamb\u00e9m no primeiro n\u00famero de <i><span style=\"font-family: Arial\">O Dever<\/span><\/i> que surge, pela pena de Pinho Ribeiro, a explica\u00e7\u00e3o para a altera\u00e7\u00e3o do nome do sindicato, e a defesa de que a actividade hoteleira deve ser considerada uma ind\u00fastria.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">\u00abTanto o hotel como o restaurante e anexos s\u00e3o uma ind\u00fastria\u00bb, diz. \u00abH\u00e1, em qualquer ind\u00fastria, duas classes de trabalhadores \u2013 os manipuladores e os vendedores \u2013 aqueles s\u00e3o oper\u00e1rios e estes s\u00e3o empregados do com\u00e9rcio \u2013. Na ind\u00fastria hoteleira, na cozinha e nas reparti\u00e7\u00f5es anexas, fora o Chefe, s\u00e3o todos oper\u00e1rios, pois fabricam, com mat\u00e9ria-prima, os produtos para venda ao p\u00fablico. Pertencemos pois, tanto \u00e0 classe oper\u00e1ria como \u00e0 comercial\u00bb, conclui. Pinho Ribeiro afirma-se convicto de ter demonstrado que \u00e9 il\u00f3gica a classifica\u00e7\u00e3o de dom\u00e9sticos existente para os trabalhadores de hotelaria, ou de se pretender que estes sejam uma classe especial, diferente das outras.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Uma outra not\u00edcia, em <i><span style=\"font-family: Arial\">O Dever,<\/span><\/i> d\u00e1-nos uma ideia da apertada vigil\u00e2ncia a que estava sujeita a actividade dos sindicatos, nesta fase da Ditadura, embora o pior ainda estivesse para vir. Diz-nos a not\u00edcia:<\/span><\/p>\n<p><i><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">\u00abPara comemorar o 27\u00ba anivers\u00e1rio da sua funda\u00e7\u00e3o, a Associa\u00e7\u00e3o de Classe dos Oper\u00e1rios Confeiteiros e Pasteleiros de Lisboa, promoveu uma sess\u00e3o solene que se realizou em 23 de Outubro.<\/span><\/i><\/p>\n<p><i><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Presidiu, o camarada Luiz Ver\u00edssimo dos Arsenalistas do Ex\u00e9rcito e secretariaram Carlos de Oliveira Faneco e Jos\u00e9 Pinho Ribeiro, respectivamente dos fragateiros do Porto de Lisboa e Empregados na Industria Hoteleira.<\/span><\/i><\/p>\n<p><i><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">A sess\u00e3o que prometia ser uma bela jornada de afirma\u00e7\u00f5es oper\u00e1rias e de propaganda associativa resultou pouco menos que nula pela atitude que tomou a respectiva autoridade que, sem qualquer motivo justificativo, come\u00e7ou a limitar tanto o uso da palavra dos oradores que estes terminaram por n\u00e3o dizer nada. A tal ponto que os quinze oradores inscritos, em dez minutos, conclu\u00edram todos as suas considera\u00e7\u00f5es, dando-se por terminada a sess\u00e3o vinte minutos depois de ter sido aberta.\u00bb<\/span><a title=\"\" href=\"#_ftn57\"><b><span style=\"color: #0066cc\">[57]<\/span><\/b><\/a><\/i><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">O patronato, que simpatizava com os \u00abnacionais\u00bb que promoviam a divis\u00e3o da classe, ao ver que a Associa\u00e7\u00e3o se reorganizava, e at\u00e9 tinha tido a capacidade de voltar a publicar um jornal, n\u00e3o perdeu tempo. Atrav\u00e9s do Hotel Pal\u00e1cio do Estoril, onde se encontrava um dos principais n\u00facleos de influ\u00eancia dos \u00abcisionistas\u00bb, moveu um processo-crime ao director do \u00f3rg\u00e3o da classe, devido a uma not\u00edcia que considerava as multas aplicadas ao pessoal e a forma injusta como era feita a divis\u00e3o do \u00abcaixa\u00bb naquela unidade hoteleira, um aut\u00eantico \u00abroubo\u00bb.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">O Pinho Ribeiro foi condenado a uma pequena multa pecuni\u00e1ria, por abuso de liberdade de imprensa pelo tribunal de primeira inst\u00e2ncia, mas recorreu, e veio a ser absolvido pelo tribunal da Rela\u00e7\u00e3o. O tribunal de recurso aceitou o argumento do advogado de defesa de que, \u00abo artigo com a palavra incriminada era uma manifesta\u00e7\u00e3o de descontentamento contra uma provada injusti\u00e7a, e n\u00e3o fazia sentido que pelo facto de se solicitar equidade, a justi\u00e7a condenasse aqueles que a pediam\u00bb. Alem disso, o tribunal teve em conta o facto de a palavra \u00abroubo\u00bb estar entre aspas.<\/span><\/p>\n<p><b><span style=\"text-decoration: underline\"><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">O ano de 1933 \u00e9 o ano da consolida\u00e7\u00e3o e institucionaliza\u00e7\u00e3o do regime fascista.<\/span><\/span><\/b><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Em Janeiro, a pol\u00edcia politica \u00e9 reorganizada, e com poderes refor\u00e7ados, reconvertida em Policia de Vigil\u00e2ncia e Defesa do Estado (PVDE). Grande parte dos membros desta pol\u00edcia s\u00e3o recrutados entre os piores fac\u00ednoras da sociedade, rufias, chulos, militares s\u00e1dicos, e entre os renegados, traidores e tansfugas de for\u00e7as politicas e sociais que se op\u00f5em ao fascismo.<\/span><\/p>\n<p><b><span style=\"text-decoration: underline\"><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">No princ\u00edpio de Setembro s\u00e3o promulgados alguns dos principais diplomas do corporativismo, em que se destaca o Estatuto do Trabalho Nacional (ETN), que nega a luta de classes, obriga as associa\u00e7\u00f5es de classe a aprovar estatutos, em conformidade com a nova lei, e a apresent\u00e1-los para homologa\u00e7\u00e3o ao Governo at\u00e9 31 de Dezembro de 1933, data em que ser\u00e3o dissolvidas e perder\u00e3o os seus bens, caso esses estatutos n\u00e3o sejam homologados.<\/span><\/span><\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-size: medium\"><span style=\"color: #000000\"><b><span style=\"text-decoration: underline\">A Associa\u00e7\u00e3o da hotelaria integra-se no movimento de contesta\u00e7\u00e3o ao estatuto corporativo,<\/span><\/b> mas, face a um desfecho desfavor\u00e1vel previs\u00edvel, inicia um processo de reorganiza\u00e7\u00e3o e activa\u00e7\u00e3o da cooperativa.<\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Para o efeito, realiza, com algum \u00eaxito, uma campanha com o fim de tornar cooperantes os n\u00famero m\u00e1ximo de associados poss\u00edvel.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: medium\"><span style=\"color: #000000\"><span style=\"font-family: Arial\">\u00a0<\/span>Os estatutos foram alterados, incluindo a mudan\u00e7a do nome, para que deixasse de se chamar cooperativa da Associa\u00e7\u00e3o, e passasse a designar-se, dos trabalhadores de hotelaria, de modo a ficar claro que se regia por outra legisla\u00e7\u00e3o e a n\u00e3o correr o risco de vir a ser arrastada pelo processo fascisa\u00e7\u00e3o dos sindicatos.<\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Estas medidas seguiam a orienta\u00e7\u00e3o do Partido Socialista que apontava aos trabalhadores o entrincheiramento na actividade cooperativa, dado que: \u00abExclu\u00eddo das lutas sindicais, exclu\u00eddo das lutas politicas, umas e outras postas de parte, o oper\u00e1rio portugu\u00eas pode e deve integrar-se completamente no associativismo econ\u00f3mico, no associativismo educativo\u00bb.<\/span><a title=\"\" href=\"#_ftn58\"><span style=\"color: #0066cc\">[58]<\/span><\/a><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">No seu \u00faltimo n\u00famero, datado de 24 de Dezembro, o jornal da Associa\u00e7\u00e3o, <i><span style=\"font-family: Arial\">O Dever, <\/span><\/i>tenta publicar integralmente o artigo em que o Secret\u00e1rio-geral do PS aponta aos trabalhadores o caminho das cooperativas, mas a censura pro\u00edbe essa publica\u00e7\u00e3o.<\/span><a title=\"\" href=\"#_ftn59\"><span style=\"color: #0066cc\">[59]<\/span><\/a><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">A maioria dos activistas da hotelaria continuavam assim a seguir a linha reformista, e alimentavam a ideia ing\u00e9nua de que se a Associa\u00e7\u00e3o fosse dissolvida, poderiam continuar unidos e a lutar no \u00e2mbito da cooperativa, ludibriando o Governo no seu objectivo de acabar com as associa\u00e7\u00f5es de classe.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Tais ilus\u00f5es viriam em breve a ser desfeitas com o encerramento e apreens\u00e3o dos bens da cooperativa pelas autoridades fascistas. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">O melhor que os activistas conseguiram com o seu artif\u00edcio, depois de mais de dois anos de dilig\u00eancias, foi a abertura de um processo de negocia\u00e7\u00e3o com os \u00abnacionais\u00bb sob os ausp\u00edcios das autoridades, com o objectivo de salvaguardar os interesses materiais dos accionistas da cooperativa, e de integra-la no \u00absindicato nacional\u00bb promovendo ao mesmo tempo a entrada colectiva dos seus associados no sindicato corporativo<\/span><a title=\"\" href=\"#_ftn60\"><span style=\"color: #0066cc\">[60]<\/span><\/a><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">. <\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div>\n<p><a title=\"\" href=\"#_ftnref41\">[41]<\/a> Teixeira, Armando Sousa, <i>BARREIRO \u2013 Uma Hist\u00f3ria de Trabalho Resist\u00eancia e Luta (1926\/45<\/i>) Edi\u00e7\u00f5es Avante, Lisboa Outubro de 1997 p. 170<\/p>\n<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div>\n<p><a title=\"\" href=\"#_ftnref42\">[42]<\/a> Almeida, Pedro Ramos, <i>Biografia da Ditadura,<\/i> Edi\u00e7\u00f5es Avante, Lisboa, 1999 p. 64<\/p>\n<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div>\n<p><a title=\"\" href=\"#_ftnref43\">[43]<\/a> Em <i>Duas Interven\u00e7\u00f5es<\/i>, editorial Avante, Lisboa, 1996, \u00c1lvaro Cunhal caracteriza assim o \u00abreviralho\u00bb: \u00abfoi uma tend\u00eancia caracter\u00edstica dos meios republicanos \u2026a concep\u00e7\u00e3o de que com a participa\u00e7\u00e3o de alguns militares e civis dava-se um golpe, tomavam-se posi\u00e7\u00f5es estrat\u00e9gicas e atirava-se abaixo o Governo.\u00bb<\/p>\n<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div>\n<p><a title=\"\" href=\"#_ftnref44\">[44]<\/a> <i>A Defesa, <\/i>n\u00ba 1-2\u00aa s\u00e9rie, de 1 de Abril de 1927 fls. 1<\/p>\n<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div>\n<p><a title=\"\" href=\"#_ftnref45\">[45]<\/a> Idem, fls. 2<\/p>\n<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div>\n<p><a title=\"\" href=\"#_ftnref46\">[46]<\/a> Ibidem, fls. 1<\/p>\n<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div>\n<p><a title=\"\" href=\"#_ftnref47\">[47]<\/a> Gon\u00e7alves, Bento, Op. Cit. p. 128<\/p>\n<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div>\n<p><a title=\"\" href=\"#_ftnref48\">[48]<\/a> <i>A Defesa<\/i>, n\u00ba 3, 2\u00aa s\u00e9rie, de Setembro de 1927<\/p>\n<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div>\n<p><a title=\"\" href=\"#_ftnref49\">[49]<\/a> Soares, Pedro, <i>Bento Gon\u00e7alves \u2013 Organizador do Partido, <\/i>in Os Comunistas, Op. Cit. p. 37<\/p>\n<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div>\n<p><a title=\"\" href=\"#_ftnref50\">[50]<\/a> Rosas, Fernando IN <i>Hist\u00f3ria de Portugal <\/i>de Jos\u00e9 Mattoso Vol. 7 Editorial Estampa<\/p>\n<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div>\n<p><a title=\"\" href=\"#_ftnref51\">[51]<\/a> Gon\u00e7alves, Bento, op. Cit. P128<\/p>\n<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div>\n<p><a title=\"\" href=\"#_ftnref52\">[52]<\/a> <i>A Voz da Raz\u00e3o<\/i>, n\u00ba 5, de 1 de Abril de 1933, fls. 4, n\u00ba 6, de 1 de Maio de 1933, fls. 3 e n\u00ba 8, de Agosto de 1933, fls. 4<\/p>\n<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div>\n<p><a title=\"\" href=\"#_ftnref53\">[53]<\/a> Relat\u00f3rio sobre a situa\u00e7\u00e3o em Portugal, enviado \u00e0 Profintern, ICS, Doc. 251, ma\u00e7o 171, caixa 8<\/p>\n<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div>\n<p><a title=\"\" href=\"#_ftnref54\">[54]<\/a>\u00a0 Patriarca, F\u00e1tima, <i>A Quest\u00e3o Social No Salazarismo 1930 \u2013 1947<\/i>, Imprensa Nacional \u2013 casa da Moeda Maio de 1995, Vol. I pp. 198 \u2013 199<\/p>\n<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div>\n<p><a title=\"\" href=\"#_ftnref55\">[55]<\/a> PATRIARCA, F\u00e1tima, <i>A Quest\u00e3o Social no Salazarismo<\/i> <i>1930 \u2013 1947, 2<\/i> vol. Imprensa Nacional \u2013 Casa da Moeda, Maio de 1995, pp. 64-65<i> <\/i><\/p>\n<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div>\n<p><a title=\"\" href=\"#_ftnref56\">[56]<\/a> <i>Actas<\/i>, da Assembleia-geral do Sindicato Nacional dos Profissionais na Industria Hoteleira e similares do Distrito de Lisboa, n\u00ba 45 de 18 de Janeiro de 1945, n\u00ba46 de 16 de Maio de 1945 e n\u00ba 47 de 12 de Dezembro de 1945.<\/p>\n<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div>\n<p><a title=\"\" href=\"#_ftnref57\">[57]<\/a> <i>O Dever, <\/i>n\u00ba 1 de 10 de Novembro de 1932, fls. 2<\/p>\n<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div>\n<p><a title=\"\" href=\"#_ftnref58\">[58]<\/a> <i>Republica Social<\/i>, n\u00ba 612, de 16 de Dezembro de 1933, citado em, <i>Os Sindicatos Contra Salazar\u2026<\/i><\/p>\n<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div>\n<p><a title=\"\" href=\"#_ftnref59\">[59]<\/a> <i>Boletim n\u00ba 91 da Comiss\u00e3o de Censura de Lisboa \u2013 <\/i>cortes registados na semana de 18 a 24 de Dezembro de 1933, citado em, <i>Os sindicatos contra\u2026<\/i> <i>\u00a0\u00a0<\/i><\/p>\n<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div>\n<p><a title=\"\" href=\"#_ftnref60\">[60]<\/a> <i>Relat\u00f3rio e Contas da Cooperativa dos Empregados na Industria Hoteleira e Profiss\u00f5es anexas &#8211;\u00a0 <\/i>Relativo ao per\u00edodo de Janeiro de 1933 a 31 de Outubro de 1936<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h3><strong><span style=\"color: #000000;font-family: Arial\">TRAIDORES, CISIONISTAS, \u00abNACIONAIS\u00bb E FASCISTAS<\/span><\/strong><\/h3>\n<p><span style=\"font-size: medium\"><span style=\"color: #000000\"><b><span style=\"text-decoration: underline\">Como j\u00e1 se viu n\u00e3o foram poucos os sindicalistas de todas as tend\u00eancias que aderiram logo de in\u00edcio ao fascismo. <\/span><\/b>Uns por oportunismo e trai\u00e7\u00e3o, outros, empurrados pelo espectro do desemprego e da fome que os fazia deslizarem facilmente para a xenofobia, estimulada pelo regime, outros ainda, convertidos, ou entusiasmados, e sinceramente convencidos de que os fascistas queriam promover a justi\u00e7a social e a conc\u00f3rdia nacional.<\/span><\/span><\/p>\n<p><b><span style=\"text-decoration: underline\"><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">O fascismo escondia-se por detr\u00e1s de um discurso que n\u00e3o tinha pudor em utilizar os voc\u00e1bulos justi\u00e7a social, socialismo, revolu\u00e7\u00e3o, trabalho, e outros conceitos caros aos activistas sindicais, para levar a \u00e1gua ao seu moinho. <\/span><\/span><\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-size: medium\"><span style=\"color: #000000\"><b><span style=\"text-decoration: underline\">Na hotelaria, em finais de 1929 j\u00e1 existia um grupo activo de \u00abnacionais\u00bb com peso na Associa\u00e7\u00e3o, que tenta apoderar-se dela, primeiro por via eleitoral, e n\u00e3o o tendo conseguido, desenvolvendo depois uma guerra violent\u00edssima \u00e0 direc\u00e7\u00e3o leg\u00edtima.<\/span><\/b> Mas antes de se lan\u00e7arem na cis\u00e3o, trataram de aliciar um funcion\u00e1rio da Associa\u00e7\u00e3o, e com ele, sub-repticiamente \u00abextra\u00edram c\u00f3pias de documentos para lhes servirem de base \u00e0 montagem de um sindicato\u00bb.<\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">\u00abArvoraram o pend\u00e3o do nacionalismo para extasiar as gentes ignaras e mover guerra de morte aos galegos, seus companheiros de trabalho\u00bb. Guerra em que tinham como argumentos principais a acusa\u00e7\u00e3o de <i><span style=\"font-family: Arial\">os galegos<\/span><\/i> controlarem a Associa\u00e7\u00e3o, e de assim, \u00abtutelarem os portugueses quando deviam ser eles os tutelados\u00bb. E, a reivindica\u00e7\u00e3o de que \u00abenquanto houvesse portugueses desempregados n\u00e3o fosse dado trabalho a estrangeiros\u00bb. Estas duas quest\u00f5es seriam o mote que iria engrossar o movimento dos \u00abnacionais\u00bb at\u00e9 \u00e0 cis\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">No terreno ideol\u00f3gico, o maior confronto \u00e9 agora entre o sindicalismo internacionalista e solid\u00e1rio, que considera que \u00abo trabalho n\u00e3o tem fronteiras\u00bb e o nacional-sindicalismo, o \u00abregime alimentar <i><span style=\"font-family: Arial\">papas de Rol\u00e3o\u00bb<\/span><\/i> que os \u00abnacionais\u00bb adoptaram, ao \u00abfiliar-se num agrupamento politico, composto por meninos de leitarias a quem agora come\u00e7a a chegar a fala, e que n\u00e3o tendo modo de vida certo, criaram um jornal para se entreterem\u00bb<\/span><a title=\"\" href=\"#_ftn61\"><span style=\"color: #0066cc\">[61]<\/span><\/a><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">. <\/span><\/p>\n<p><b><span style=\"text-decoration: underline\"><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">A cis\u00e3o formal foi consumada pelos \u00abnacionais\u00bb no dia 10 de Abril de 1931, na Rua dos Correeiros, n\u00ba 284-4\u00ba andar, em Lisboa<\/span><\/span><\/b><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">. Nesse dia e local, reuniram-se pelas 21 horas, \u00ab<\/span><i><span style=\"color: #000000;font-family: Arial;font-size: medium\">30 indiv\u00edduos do sexo masculino, profissionais da industria hoteleira, para apreciar a crise que os portugueses atravessam por motivo da concorr\u00eancia que os estrangeiros lhes estavam fazendo\u2026 por isso <\/span><b><span style=\"text-decoration: underline\"><span style=\"color: #000000;font-family: Arial;font-size: medium\">foi resolvida a forma\u00e7\u00e3o de um sindicato em que s\u00f3 pudessem ser associados indiv\u00edduos portugueses, denominado, Sindicato Nacional dos Profissionais da Industria Hoteleira e Similares.\u00bb<\/span><a title=\"\" href=\"#_ftn62\"><b><span style=\"text-decoration: underline\"><span style=\"color: #0066cc\">[62]<\/span><\/span><\/b><\/a><\/span><\/b><\/i><\/p>\n<p><b><span style=\"text-decoration: underline\"><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">A Assembleia-geral seguinte para aprova\u00e7\u00e3o de estatutos, com 79 presen\u00e7as, realizou-se j\u00e1 na Rua da Oliveira ao Carmo, n\u00ba24, 1\u00ba, naquela que seria a primeira sede do sindicato \u00abnacional\u00bb.<\/span><a title=\"\" href=\"#_ftn63\"><b><span style=\"text-decoration: underline\"><span style=\"color: #0066cc\">[63]<\/span><\/span><\/b><\/a><\/span><\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-size: medium\"><span style=\"color: #000000\"><span style=\"font-family: Arial\">\u00a0<\/span>A reuni\u00e3o termina com a aprova\u00e7\u00e3o dos convites para a sess\u00e3o solene de inaugura\u00e7\u00e3o da bandeira e da tabuleta do sindicato. S\u00e3o convidados \u00abo Ministro do Interior, o Governador Civil, o Conselho Nacional de Turismo, o Intendente Geral da Seguran\u00e7a Publica, a Associa\u00e7\u00e3o dos Empregados dos Caf\u00e9s Restaurantes e Hot\u00e9is do Porto, todos os gr\u00e9mios do patronato e todas as associa\u00e7\u00f5es de classe, excepto as situadas na Travessa dos Inglesinhos.\u00bb<\/span><\/span><a title=\"\" href=\"#_ftn64\"><span style=\"color: #0066cc\">[64]<\/span><\/a><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Se mais informa\u00e7\u00e3o n\u00e3o houvesse, este lote de convidados j\u00e1 seria suficientemente elucidativo para nos mostrar a diferen\u00e7a de concep\u00e7\u00f5es sindicais em confronto. Era impens\u00e1vel que na Associa\u00e7\u00e3o se convidasse o inimigo de classe, o ministro das pol\u00edcias, e o pr\u00f3prio chefe da pol\u00edcia para uma iniciativa festiva da classe.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Mas as coisas n\u00e3o eram ainda pac\u00edficas no que respeita \u00e0 conota\u00e7\u00e3o do sindicato \u00abnacional\u00bb com o regime fascista. Por esta altura, um membro da direc\u00e7\u00e3o lamenta-se pelo facto de as outras associa\u00e7\u00f5es de classe os considerarem fascistas, ao mesmo tempo que as autoridades os consideravam bolchevistas. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Estava-se ainda no per\u00edodo em que o n\u00facleo duro dos \u00abnacionais\u00bb n\u00e3o se atrevia a exibir abertamente a sua orienta\u00e7\u00e3o fascista. Ali\u00e1s, no \u00abSindicato Nacional\u00bb havia muitos trabalhadores e activistas que tinham aderido ao movimento por raz\u00f5es profissionais e outras que nada tinham a ver com a ades\u00e3o ao fascismo.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Na sess\u00e3o solene para assinalar o 2\u00ba anivers\u00e1rio do sindicato ainda existem fortes contradi\u00e7\u00f5es entre associados quanto \u00e0 aceita\u00e7\u00e3o das regras do regime. Henrique dos Santos Vaz activista prestigiado, s\u00f3 depois de muito instado aceita presidir \u00e0 Assembleia-geral. Come\u00e7a por ler uma sauda\u00e7\u00e3o da associa\u00e7\u00e3o cong\u00e9nere de Coimbra, e anuncia \u00abcom bastante m\u00e1goa que tem de denunciar que, por ordem do representante da autoridade, os representantes dos sindicatos e dos gr\u00e9mios n\u00e3o podem fazer uso da palavra, a n\u00e3o ser para saudar o sindicato. S\u00f3 estava autorizado a falar o conferencista convidado pelo presidente da Direc\u00e7\u00e3o.\u00bb<\/span><a title=\"\" href=\"#_ftn65\"><span style=\"color: #0066cc\">[65]<\/span><\/a><span style=\"color: #000000;font-size: medium\"> A acta desta assembleia assinala ainda o o seguinte: ao notarem \u00abque o convidado se inclinava mais para a politica situacionista do que para os meios associativos\u2026soaram algumas palmas, mas com pouco entusiasmo\u00bb<\/span><a title=\"\" href=\"#_ftn66\"><span style=\"color: #0066cc\">[66]<\/span><\/a><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: medium\"><span style=\"color: #000000\"><b><span style=\"text-decoration: underline\">O n\u00ba 1 de <i><span style=\"font-family: Arial\">A Voz da Raz\u00e3o<\/span><\/i> sai a 1 de Dezembro de 1932, como \u00f3rg\u00e3o do Sindicato \u00abNacional\u00bb. O Director \u00e9 o Rodrigo Cardoso, Presidente do Sindicato.<\/span><\/b> No primeiro editorial do novo \u00f3rg\u00e3o, intitulado \u00abO Caminho\u00bb, podemos ler: <\/span><\/span><\/p>\n<p><i><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">\u00abA Voz da Raz\u00e3o \u00e9 um jornal de classe n\u00e3o para combater outra classe mas sim para defender os direitos dos portugueses contra os maus camaradas estrangeiros\u2026ser\u00e1 o ferro em brasa que causticar\u00e1 esses estrangeiros e os portugueses que atropelem os direitos dos nacionais.\u00bb<\/span><\/i><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">A Direc\u00e7\u00e3o dos \u00abnacionais\u00bb resolveu por esta altura levar a cabo uma purga, sob o lema, mais vale poucos, \u00abpuros\u00bb e \u00abduros\u00bb, do que albergar no sindicato quem lan\u00e7a a confus\u00e3o e n\u00e3o compreende os novos ventos do \u00absindicalismo\u00bb. Durante algum tempo sucedem-se as expuls\u00f5es e os processos disciplinares aos associados devido \u00e0 \u00abqualidade exigida\u00bb para se poder estar no sindicato.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">O Governo de Salazar, em conformidade com a sua natureza, alimenta o chauvinismo, e manda publicar em lei uma disposi\u00e7\u00e3o que imp\u00f5e que \u00abnenhum estabelecimento poder\u00e1 diminuir o n\u00famero de empregados ou oper\u00e1rios portugueses ao servi\u00e7o desde que empregue indiv\u00edduos de nacionalidade estrangeira.\u00bb<\/span><a title=\"\" href=\"#_ftn67\"><span style=\"color: #0066cc\">[67]<\/span><\/a><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">\u00c9 nas ac\u00e7\u00f5es em que os \u00abnacionais\u00bb visam expulsar os <i><span style=\"font-family: Arial\">galegos<\/span><\/i> para a Galiza, \u00abnas bicicletas em que aportam \u00e0 sede da Associa\u00e7\u00e3o, na Travessa dos Inglesinhos, \u00e0 procura do tio, do primo ou do padrinho, que ali se acoitam\u00bb que a confronta\u00e7\u00e3o atinge maior dramatismo.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">A contabilidade do n\u00famero de estrangeiros e de portugueses em cada empresa, e a reivindica\u00e7\u00e3o de uns serem substitu\u00eddos pelos outros, era agora o principal eixo da ac\u00e7\u00e3o dos \u00abnacionais\u00bb. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Num artigo assinado pela direc\u00e7\u00e3o, intitulado \u00abporque se fundou o sindicato\u00bb d\u00e1-se conta de um levantamento em \u00ab56 das melhores casas da ind\u00fastria em que, 235 empregados de mesa s\u00e3o estrangeiros, contra 46 nacionais; 110 cozinheiros estrangeiros, contra 34 nacionais\u00bb.<\/span><a title=\"\" href=\"#_ftn68\"><span style=\"color: #0066cc\">[68]<\/span><\/a><\/p>\n<p><b><span style=\"text-decoration: underline\"><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">O Caf\u00e9 Nicola, inaugurado no Rossio em 1929, \u00abno mesmo local onde existira um famoso botequim pertencente a um estanqueiro italiano de nome Nicola, outrora frequentado pelo poeta Bocage e outros literatos\u00bb<\/span><a title=\"\" href=\"#_ftn69\"><b><span style=\"text-decoration: underline\"><span style=\"color: #0066cc\">[69]<\/span><\/span><\/b><\/a><span style=\"color: #000000;font-size: medium\"> \u00e9 uma das empresas que responde ao inqu\u00e9rito dos \u00abnacionais\u00bb, e sol\u00edcito, demonstra atrav\u00e9s do quadro de pessoal ter muito mais portugueses que estrangeiros ao seu servi\u00e7o.<\/span><a title=\"\" href=\"#_ftn70\"><b><span style=\"text-decoration: underline\"><span style=\"color: #0066cc\">[70]<\/span><\/span><\/b><\/a><\/span><\/b><\/p>\n<p><b><span style=\"text-decoration: underline\"><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">O Hotel Central em Sintra, informa que n\u00e3o tem l\u00e1 estrangeiros.<\/span><a title=\"\" href=\"#_ftn71\"><b><span style=\"text-decoration: underline\"><span style=\"color: #0066cc\">[71]<\/span><\/span><\/b><\/a><\/span><\/b><\/p>\n<p><b><span style=\"text-decoration: underline\"><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Na cervejaria Trindade, o gerente, associado dos \u00abnacionais\u00bb, \u00absubstituiu todo o pessoal, que era na sua totalidade constitu\u00eddo por estrangeiros, por pessoal portugu\u00eas.\u00bb<\/span><a title=\"\" href=\"#_ftn72\"><b><span style=\"text-decoration: underline\"><span style=\"color: #0066cc\">[72]<\/span><\/span><\/b><\/a><\/span><\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-size: medium\"><span style=\"color: #000000\"><b><span style=\"text-decoration: underline\">No Casino Estoril, quatro cozinheiros galegos, s\u00f3cios da Associa\u00e7\u00e3o foram despedidos<\/span><\/b>, sob o pretexto de nas empresas concession\u00e1rios do jogo s\u00f3 poder haver portugueses a trabalhar. Os \u00abnacionais\u00bb aplaudiram, e apressaram-se a apontar o casino como um exemplo de patriotismo a seguir pelas outras empresas.<\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">N\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil, nem em democracia, em \u00e9pocas de crise, desemprego, fome, e sal\u00e1rios miser\u00e1veis, aos naturais de um pa\u00eds, assumirem a defesa dos estrangeiros que l\u00e1 trabalham. Muito mais dif\u00edcil ainda \u00e9 faz\u00ea-lo no quadro de uma ditadura fascista em que a xenofobia faz parte dos seus fundamentos ideol\u00f3gicos. Mas os activistas sindicais da Associa\u00e7\u00e3o fizeram-no corajosamente, at\u00e9 ao fim.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">A quest\u00e3o foi tamb\u00e9m objecto de viva troca de correspond\u00eancia entre a Associa\u00e7\u00e3o, e a sua cong\u00e9nere do Porto. Numa das cartas enviadas do Porto para Lisboa, acerca de uma posi\u00e7\u00e3o tomada na capital em defesa dos galegos que procuravam trabalho sazonal em Portugal, pode ler-se:<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-family: Arial;font-size: medium\">\u00a0<\/span><i><span style=\"color: #000000;font-family: Arial;font-size: medium\">\u00abRepelimos energicamente e com repugn\u00e2ncia o vosso procedimento pois que \u00e9 um facto haver espanh\u00f3is chegando ao nosso pa\u00eds como rebanhos de carneiros, afrontando com o seu esc\u00e1rnio o pessoal nacional que se encontra desempregado e a bra\u00e7os com a mis\u00e9ria, o que v\u00f3s n\u00e3o deveis desconhecer\u00bb.<\/span><a title=\"\" href=\"#_ftn73\"><b><span style=\"color: #0066cc\">[73]<\/span><\/b><\/a><\/i><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Na resposta da Associa\u00e7\u00e3o aos camaradas do Porto, longamente fundamentada, afirma-se:<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">\u00ab<\/span><i><span style=\"color: #000000;font-family: Arial;font-size: medium\">Com os trabalhadores portugueses nas \u00e9pocas de Ver\u00e3o acontece caso id\u00eantico. E sabem que trabalhadores s\u00e3o? Os ceifeiros. \u00c9 certo que n\u00e3o s\u00e3o da nossa ind\u00fastria, mas nem por isso deixam de ser portugueses\u2026ora \u00e9 f\u00e1cil compreender que n\u00e3o \u00e9 muito recomend\u00e1vel defenderem-se os ceifeiros e outros trabalhadores que se empregam em Espanha, a chamar nomes feios aos espanh\u00f3is\u00bb<\/span><a title=\"\" href=\"#_ftn74\"><b><span style=\"color: #0066cc\">[74]<\/span><\/b><\/a><\/i><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Em Julho de 1933, os \u00abnacionais\u00bb mudam-se para a <span style=\"font-family: Arial\"><b><span style=\"text-decoration: underline\">Pra\u00e7a do Munic\u00edpio n\u00ba 13, 3\u00ba, <\/span><\/b>\u00a0<\/span>por considerarem que a as instala\u00e7\u00f5es da sede na Rua da Oliveira se tinham tornado pequenas para a dimens\u00e3o que o sindicato adquirira entretanto. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Os \u00abnacionais\u00bb consideraram a aprova\u00e7\u00e3o da constitui\u00e7\u00e3o fascista uma vit\u00f3ria, e proclamam: \u00abagora seremos n\u00f3s os encarregados de fazer a fiscaliza\u00e7\u00e3o do incumprimento das leis de trabalho porque somos n\u00f3s quem fica dentro da lei.\u00bb<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Quando s\u00e3o publicados nos jornais os projectos de lei que iriam regulamentar os sindicatos e tomam conhecimento de que s\u00f3 viria a ser reconhecido um sindicato em cada profiss\u00e3o, e que todos os sindicatos se designariam \u00abnacionais\u00bb, mesmo que o seu \u00e2mbito fosse apenas distrital, clamam: \u00abat\u00e9 parece que fomos n\u00f3s que dit\u00e1mos o nome\u00bb. Agora que \u00aba doutrina que defendemos est\u00e1 dentro do Estado Novo devemos aceitar o fim da luta de classes, e substitui-la pela concilia\u00e7\u00e3o entre trabalho e capital.\u00bb<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">No entanto, ficam altamente perturbados quando se apercebem que n\u00e3o podem excluir expressamente os estrangeiros nos estatutos do sindicato face \u00e0 lei corporativa em discuss\u00e3o. Numa assembleia realizada em 19 de Julho para discutir o assunto, a agita\u00e7\u00e3o \u00e9 tal que n\u00e3o conseguem chegar a qualquer conclus\u00e3o. Na assembleia seguinte, com a presen\u00e7a de 120 s\u00f3cios, a proposta de estatutos apresentada pela Direc\u00e7\u00e3o foi recusada por 53 votos contra, e 39 a favor.<\/span><a title=\"\" href=\"#_ftn75\"><span style=\"color: #0066cc\">[75]<\/span><\/a><span style=\"color: #000000;font-size: medium\"> Manuel Ferreira, o autor de <i><span style=\"font-family: Arial\">A Cozinha Ideal<\/span><\/i>, situacionista convicto, acusa: \u00abfizeram a morte do sindicato.\u00bb<\/span><a title=\"\" href=\"#_ftn76\"><span style=\"color: #0066cc\">[76]<\/span><\/a><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Mas, os estatutos v\u00e3o para discuss\u00e3o em nova assembleia, onde Manuel Ferreira, muito activo, faz uma interven\u00e7\u00e3o em que afirma \u00absentir grande m\u00e1goa por serem obrigados a admitir estrangeiros.\u00bb<\/span><a title=\"\" href=\"#_ftn77\"><span style=\"color: #0066cc\">[77]<\/span><\/a><span style=\"color: #000000;font-size: medium\"> E para que os estatutos fiquem conforme a lei, prop\u00f5e que n\u00e3o se exclua a admiss\u00e3o de trabalhadores estrangeiros, mas que estes, \u00abbem como os portugueses que actualmente se encontram na Travessa dos Inglesinhos\u00bb<\/span><a title=\"\" href=\"#_ftn78\"><span style=\"color: #0066cc\">[78]<\/span><\/a><span style=\"color: #000000;font-size: medium\"> fiquem sujeitos ao pagamento de uma j\u00f3ia de valor elevado, se quiserem vir a ser admitidos como s\u00f3cios. A proposta acaba por ser aprovada, e os \u00abnacionais\u00bb preparam-se para ser o sindicato homologado pelo governo. <\/span><\/p>\n<p><b><span style=\"text-decoration: underline\"><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Por alvar\u00e1 de 15 de Dezembro de 1933, foram aprovados os estatutos do Sindicato Nacional dos Profissionais da Ind\u00fastria Hoteleira do Distrito de Lisboa<\/span><\/span><\/b><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">.<\/span><a title=\"\" href=\"#_ftn79\"><span style=\"color: #0066cc\">[79]<\/span><\/a><span style=\"color: #000000;font-size: medium\"> S\u00e3o um dos tr\u00eas primeiros sindicatos a ser considerados legais pelo regime fascista, juntamente com os banc\u00e1rios, e o pessoal da Carris.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">O facto \u00e9 assim assinalado pelos \u00abnacionais\u00bb: estamos \u00ab<\/span><i><span style=\"color: #000000;font-family: Arial;font-size: medium\">no nosso lugar leg\u00edtimo de \u00fanicos representantes dos empregados da ind\u00fastria hoteleira. Vamos entrar na realidade da ordem, trabalho e progresso. Unamo-nos no Sindicato, para que os homens que dirigem a Na\u00e7\u00e3o olhem para n\u00f3s com a simpatia de que somos dignos.\u00bb<\/span><a title=\"\" href=\"#_ftn80\"><b><span style=\"color: #0066cc\">[80]<\/span><\/b><\/a><\/i><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div>\n<p><a title=\"\" href=\"#_ftnref61\">[61]<\/a> <i>O Dever<\/i>, n\u00ba 10, de 15 de Agosto de 1933, fls. 4<\/p>\n<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div>\n<p><a title=\"\" href=\"#_ftnref62\">[62]<\/a> <i>Acta<\/i>, n\u00ba 1 da Assembleia-geral, de 10 de Abril de 1931<\/p>\n<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div>\n<p><a title=\"\" href=\"#_ftnref63\">[63]<\/a> <i>Acta,<\/i> n\u00ba 2 da AG, de 15 de Junho de 1931<\/p>\n<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div>\n<p><a title=\"\" href=\"#_ftnref64\">[64]<\/a> <i>Acta <\/i>n\u00ba 3 da AG, de 4 de Novembro de 1931<\/p>\n<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div>\n<p><a title=\"\" href=\"#_ftnref65\"><i><b>[65]<\/b><\/i><\/a><i> Acta<\/i> AG, n\u00ba 9, de 7 de Julho de 1933<\/p>\n<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div>\n<p><a title=\"\" href=\"#_ftnref66\">[66]<\/a> Idem<\/p>\n<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div>\n<p><a title=\"\" href=\"#_ftnref67\">[67]<\/a> Dec. Lei 21 699 de 30 de Setembro de 1932<\/p>\n<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div>\n<p><a title=\"\" href=\"#_ftnref68\">[68]<\/a> <i>A Voz da Raz\u00e3o, <\/i>n\u00ba 1, de 1 de Dezembro de 1932, fls. 4<\/p>\n<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div>\n<p><a title=\"\" href=\"#_ftnref69\">[69]<\/a> Saraiva, Jos\u00e9 Hermano, Hist\u00f3ria de Portugal, QUIDNOVI, Matosinhos, 2004. p. 20<\/p>\n<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div>\n<p><a title=\"\" href=\"#_ftnref70\">[70]<\/a> <i>A Voz da Raz\u00e3o, <\/i>n\u00ba 12, de Dezembro de 1933, fls. 2<\/p>\n<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div>\n<p><a title=\"\" href=\"#_ftnref71\">[71]<\/a> Ibidem.<\/p>\n<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div>\n<p><a title=\"\" href=\"#_ftnref72\">[72]<\/a><i> A Voz da Raz\u00e3o,<\/i> n\u00ba 1 de 1 de Dezembro de 1932, fls. 1<\/p>\n<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div>\n<p><a title=\"\" href=\"#_ftnref73\">[73]<\/a> <i>O Dever,<\/i> de 15 de Julho de 1933, fls. 3<\/p>\n<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div>\n<p><a title=\"\" href=\"#_ftnref74\">[74]<\/a> Ibidem<\/p>\n<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div>\n<p><a title=\"\" href=\"#_ftnref75\">[75]<\/a> <i>Acta,<\/i> AG, <i>n\u00ba<\/i> 12, de 26 de Outubro, de 1933<\/p>\n<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div>\n<p><a title=\"\" href=\"#_ftnref76\">[76]<\/a> Idem<\/p>\n<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div>\n<p><a title=\"\" href=\"#_ftnref77\">[77]<\/a> <i>Acta,<\/i> AG, n\u00ba 13, de 30 de Novembro de 1933<\/p>\n<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div>\n<p><a title=\"\" href=\"#_ftnref78\">[78]<\/a> Idem<\/p>\n<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div>\n<p><a title=\"\" href=\"#_ftnref79\">[79]<\/a> <i>Boletim do Instituto Nacional do Trabalho e Previd\u00eancia,<\/i> de 15 de Dezembro de 1933<\/p>\n<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div>\n<p><a title=\"\" href=\"#_ftnref80\">[80]<\/a> <i>A Voz da Raz\u00e3o<\/i>, de Dezembro de 1933 fls. 3<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h3><strong><span style=\"color: #000000;font-family: Arial\">A PROIBI\u00c7\u00c3O DA GORGETA, O FIM DA CONDI\u00c7\u00c3O LEGAL DE<\/span><\/strong><strong><\/strong><\/h3>\n<h3><strong><span style=\"color: #000000;font-family: Arial\">DOM\u00c9STICOS<\/span><\/strong><\/h3>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Protegido como nunca pela Ditadura, o patronato, sequioso do lucro que lhe advinha quase exclusivamente de uma politica de sal\u00e1rios baixos, levou a degrada\u00e7\u00e3o das condi\u00e7\u00f5es de vida e de trabalho \u00e1s ultimas consequ\u00eancias.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: medium\"><span style=\"color: #000000\"><span style=\"font-family: Arial\">\u00a0<\/span>No princ\u00edpio da d\u00e9cada de trinta, o desemprego e a fome grassavam no pa\u00eds, a lei do hor\u00e1rio de trabalho e do descanso semanal eram <b><span style=\"font-family: Arial\">letra<\/span><\/b> morta, e muitos trabalhadores que j\u00e1 tinham conquistado as oito horas voltaram a ver a sua jornada de trabalho aumentada. Os sal\u00e1rios foram reduzidos em termos reais e em termos nominais, situando-se muito abaixo dos m\u00ednimos de subsist\u00eancia.<\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">O prestigiado cozinheiro e activista Aleu Rocha, que desde muito jovem se destacava em defesa destes profissionais, menos de um ano depois da implanta\u00e7\u00e3o da Ditadura, em Abril de 1927, revoltava-se contra o facto de os patr\u00f5es terem ido junto do Ministro do Interior solicitar-lhe que o dia de descanso semanal fosse expressamente retirado \u00e0 classe, dado, segundo eles, serem considerados trabalhadores dom\u00e9sticos. E, conclu\u00eda, revoltado. Dom\u00e9sticos! Escravos\u2026 N\u00e3o!<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Seis anos mais tarde, em 1933, em exposi\u00e7\u00e3o da Associa\u00e7\u00e3o ao Ministro das Finan\u00e7as, a indigna\u00e7\u00e3o de Aleu Rocha, que continuava activo, expressava-se assim:<\/span><\/p>\n<p><i><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">\u00ab\u2026dispostos como estes empregados est\u00e3o a adquirir doen\u00e7as graves pelos gazes t\u00f3xicos e carb\u00f3nicos que respiram, f\u00e1cil \u00e9, reconhecer a gravidade e a viol\u00eancia dos servi\u00e7os de cozinha, ainda agravados com as prolongadas horas de trabalho di\u00e1rio, pois os cozinheiros e restante pessoal de cozinha chegam a trabalhar 14, 16 e 18 horas, nunca ou quase nunca trabalhando menos de 14 horas di\u00e1rias.<\/span><\/i><\/p>\n<p><i><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">\u2026Solicitamos portanto a V. Ex.\u00aa que a classe deixe de ser considerada dom\u00e9stica, e passe a usufruir dos benef\u00edcios da legisla\u00e7\u00e3o sobre o hor\u00e1rio de trabalho, visto nada haver que justifique tal classifica\u00e7\u00e3o, porquanto os oper\u00e1rios de cozinha que exercem fun\u00e7\u00f5es de servi\u00e7o nos hot\u00e9is, restaurantes e demais estabelecimentos, desempenham um trabalho industrial, pois que transformam e manipulam artigos para serem vendidos ao p\u00fablico.\u00bb<\/span><a title=\"\" href=\"#_ftn81\"><b><span style=\"color: #0066cc\">[81]<\/span><\/b><\/a><\/i><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Tamb\u00e9m a situa\u00e7\u00e3o dos empregados de mesa voltou a regredir. O conhecido costume patronal de ficar com parte das gratifica\u00e7\u00f5es tornou a alastrar. O Chave de Ouro, que fora um dos estabelecimentos que abolira o nefando costume, voltou a pratic\u00e1-lo, cobrando agora 4 escudos di\u00e1rios a cada empregado. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">No Caf\u00e9 Avenida e no Restaurante T\u00e1buas, o Costa do Marisco, antigo empregado de mesa, esqueceu-se que enquanto foi empregado sempre usufruiu do comer gratuitamente, e transformou-se num abutre que agora obriga cada trabalhador a pagar-lhe 10 escudos por dia, a troco de umas mais que frugais refei\u00e7\u00f5es, feitas com as aparas da carne e com os restos da comida dos clientes.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Em grande parte dos casos, aqueles que passam de explorados a exploradores transfiguram-se em patr\u00f5es da pior extirpe. No Bristol Club, na Rua Jardim do Regedor, estabeleceram-se mais duas \u00absanguessugas\u00bb deste quilate. Os birbantes, um, antigo cozinheiro, outro, antigo empregado de mesa, obrigam o pessoal a pagar 30 escudos por m\u00eas para as limpezas, assenhoreiam-se das gorjetas e dividem-nas a seu belo talante, incluindo-se a eles pr\u00f3prios entre os que recebem a maior fatia, tendo ainda a distinta lata de se continuarem a fazer passar por camaradas de trabalho dos desgra\u00e7ados que caiem sob a sua al\u00e7ada.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Maus-tratos e vexames de todo o tipo, multas institu\u00eddas pela entidade patronal, e mesmo a agress\u00e3o f\u00edsica aos trabalhadores, s\u00e3o frequentes. Um conhecido marialva, cavaleiro taurom\u00e1quico, propriet\u00e1rio de um hotel em Viseu, era temido pelos seus empregados porque tinha o costume de se passear pelo estabelecimento, de \u00abcavalo-marinho\u00bb em punho, chicoteando a torto e a direito os trabalhadores que encontrava pelo caminho. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Um alem\u00e3o propriet\u00e1rio da Pens\u00e3o Atl\u00e2ntica do Estoril, que cobra 10% de taxa de servi\u00e7o aos clientes mas n\u00e3o a distribui aos empregados, embolsando-a para si, desata \u00e0 bofetada e ao pontap\u00e9 aos trabalhadores ao m\u00ednimo gesto de descontentamento que estes manifestem. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">No Pal\u00e1cio Hotel do Estoril, classificado como <i><span style=\"font-family: Arial\">grande hotel de luxo<\/span><\/i>, \u00abum empregado que \u00e9 encontrado a comer um papo-seco, \u00e9 multado em 10 escudos, mais que o sal\u00e1rio de um dia, 5 escudos do p\u00e3o e 5 da manteiga. Empregado que assome \u00e0 janela, \u00e9 multado em cinco escudos. Empregado que leve o pequeno-almo\u00e7o a um cliente, no quarto, que por qualquer motivo o devolve \u00e0 cozinha, \u00e9 obrigado a pagar 20 escudos.\u00bb<\/span><a title=\"\" href=\"#_ftn82\"><span style=\"color: #0066cc\">[82]<\/span><\/a><span style=\"color: #000000;font-size: medium\"> Como se fosse o criado o respons\u00e1vel pela reclama\u00e7\u00e3o ou pelo mau humor do cliente.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Em v\u00e1rios caf\u00e9s de Lisboa e do Porto, os empregados de mesa eram obrigados a usar cal\u00e7as e casacos sem algibeiras, para, segundo os patr\u00f5es que a isso os obrigavam, n\u00e3o poderem levar as m\u00e3os aos bolsos com o produto dos roubos que faziam durante o servi\u00e7o.<\/span><\/p>\n<p><b><span style=\"text-decoration: underline\"><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">A redu\u00e7\u00e3o das gratifica\u00e7\u00f5es inerente ao comportamento dos clientes em tempo de crise, e a consequente diminui\u00e7\u00e3o das remunera\u00e7\u00f5es do trabalho, em simult\u00e2neo com o processo de reorganiza\u00e7\u00e3o e reactiva\u00e7\u00e3o sindical iniciado em 1929, e conclu\u00eddo em 1932, levaram a classe, na hotelaria, a retomar novamente com for\u00e7a, as campanhas pela aboli\u00e7\u00e3o da gorjeta e pela cria\u00e7\u00e3o de uma taxa de servi\u00e7o de 10% nos hot\u00e9is e restaurantes, e de 20% nos caf\u00e9s.<\/span><\/span><\/b><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Foram repetidos e amplificados os argumentos hist\u00f3ricos j\u00e1 conhecidos, de forma mais elaborada, tais como: a esmola e a gorjeta s\u00e3o irm\u00e3s g\u00e9meas; a remunera\u00e7\u00e3o deve ser feita pelo patr\u00e3o e n\u00e3o pode estar condicionada \u00e0 boa vontade da bolsa do cliente; a maioria dos estabelecimentos que durante a greve de 1924 aumentaram os pre\u00e7os em 20% com o argumento de que se destinavam \u00e0 taxa de servi\u00e7o acabaram por n\u00e3o a estabelecer, etc. etc.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">A acrescer a estas raz\u00f5es havia ainda hot\u00e9is, restaurantes e caf\u00e9s que j\u00e1 cobravam a percentagem aos clientes, mas depois n\u00e3o a distribu\u00edam aos empregados, ou distribu\u00edam-na apenas parcialmente, passando os clientes nestes casos, compreensivelmente, a recusarem-se a dar gratifica\u00e7\u00f5es dado que elas j\u00e1 estavam inclu\u00eddas na conta.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Entretanto, chegam not\u00edcias de outros pa\u00edses da Europa em que a gorjeta fora proibida e substitu\u00edda pela taxa de servi\u00e7o. Um acordo colectivo entre os propriet\u00e1rios de caf\u00e9s, bares e cervejarias de Madrid e os seus empregados, a estabelecer uma percentagem de servi\u00e7o de 20% foi festejado em Lisboa como uma vit\u00f3ria. \u00abEm Espanha dignificam-se os que trabalham. Ou a Rep\u00fablica ali, nos termos da constitui\u00e7\u00e3o, n\u00e3o se intitulasse de rep\u00fablica dos trabalhadores!\u00bb Escrevem.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">No Estoril, zona onde o sistema de percentagem est\u00e1 mais generalizado, esta passa a estender-se a outras regi\u00f5es. No <i><span style=\"font-family: Arial\">Suiss Atlantic Hotel<\/span><\/i>, em Lisboa, o patr\u00e3o resolveu autorizar a percentagem em substitui\u00e7\u00e3o da gorjeta, ap\u00f3s uma interven\u00e7\u00e3o do sindicato num conflito que ali ocorrera.<\/span><\/p>\n<p><b><span style=\"text-decoration: underline\"><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">A conflitualidade e a anarquia provocadas pelo vazio legal existente, o descontentamento, os protestos e a ac\u00e7\u00e3o dos trabalhadores, o facto consumado de, quer como resultado da luta e da negocia\u00e7\u00e3o colectiva quer por arrastamento e exemplo de outros casos, j\u00e1 estar a ser praticada a taxa de servi\u00e7o em muitos estabelecimentos, levou finalmente o Governo a legislar sobre o assunto. Mas, f\u00ea-lo de tal maneira que os trabalhadores consideraram que a situa\u00e7\u00e3o ficou ainda pior.<\/span><\/span><\/b><\/p>\n<p><b><span style=\"text-decoration: underline\"><span style=\"font-size: medium\"><span style=\"color: #000000\">O Decreto n\u00ba 21 861, de 11 de Novembro de 1932, n\u00e3o instituiu a percentagem como forma obrigat\u00f3ria de remunera\u00e7\u00e3o, como reivindicavam os trabalhadores, vindo apenas proibir as gratifica\u00e7\u00f5es \u00ab<i><span style=\"font-family: Arial\">nos estabelecimentos que adoptem o sistema de cobrar gratifica\u00e7\u00f5es destinadas ao pessoal.\u00bb<\/span><\/i> Reconhecia portanto a exist\u00eancia desta pr\u00e1tica, mas deixava a sua adop\u00e7\u00e3o ou n\u00e3o ao crit\u00e9rio dos patr\u00f5es. Ao mesmo tempo, a lei, obrigava \u00ab<span style=\"font-family: Arial\"><i>a afixar no vest\u00edbulo ou entrada, sala de jantar, botequins e quartos, letreiros em caracteres bem leg\u00edveis e em portugu\u00eas, franc\u00eas e ingl\u00eas, chamando a aten\u00e7\u00e3o dos clientes para a aboli\u00e7\u00e3o das propinas ao pessoal, que ficar\u00e1 sujeito a san\u00e7\u00f5es severas se as aceitar.\u00bb<\/i><\/span><\/span><\/span><\/span><\/b><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">A Associa\u00e7\u00e3o reagiu de imediato pedindo a introdu\u00e7\u00e3o de altera\u00e7\u00f5es ao decreto, no sentido de nele ficar expressa qual a percentagem a pagar pelo cliente, de torn\u00e1-la extensiva a todas as empresas e n\u00e3o apenas \u00e0quelas onde j\u00e1 existia, e de consagrar mecanismos de controlo que garantissem que a taxa cobrada se destinava exclusivamente ao pessoal, e evitassem que os patr\u00f5es lhe dessem destino diferente.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">A estas mais que justas raz\u00f5es o Governo fez ouvidos de mercador. O resultado foi que no imediato, a divulga\u00e7\u00e3o p\u00fablica e a afixa\u00e7\u00e3o obrigat\u00f3ria dos avisos sobre a proibir\u00e3o das gratifica\u00e7\u00f5es, levou os clientes, mesmo nos estabelecimentos onde n\u00e3o era praticada a taxa de servi\u00e7o, que eram a maioria, a deixarem de retribuir os servi\u00e7os com a gorjeta, reduzindo-se assim nestes casos drasticamente, a j\u00e1 de si prec\u00e1ria remunera\u00e7\u00e3o dos empregados de mesa.<\/span><\/p>\n<p><b><span style=\"text-decoration: underline\"><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Contudo, a partir da insuficiente e tortuosa base legal criada foi iniciado um longo processo de luta dos trabalhadores com vista a generalizar a taxa de servi\u00e7o, e a resolver os problemas mais dif\u00edceis da sua distribui\u00e7\u00e3o: garantir que os patr\u00f5es n\u00e3o ficassem com ela, fazendo o seu controlo, e definir se a taxa deveria ser distribu\u00edda em partes iguais por todos os trabalhadores, ou se deveriam estabelecer crit\u00e9rios diferenciados, em conformidade com as diferentes categorias profissionais, atribuindo uma parte maior aos mais qualificados e \u00e1s chefias, e assim sucessivamente.<\/span><\/span><\/b><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">A Assembleia-geral da Associa\u00e7\u00e3o, de 24 de Julho de 1933, que aprova o balancete do 1\u00ba semestre do ano, que reporta uma receita de 26 694 escudos e setenta centavos e uma despesa de 24 116$15, expulsou um s\u00f3cio por m\u00e1 conduta a fim de defender o bom-nome da classe, aprovou a filia\u00e7\u00e3o definitiva na Federa\u00e7\u00e3o das Associa\u00e7\u00f5es Oper\u00e1rias de Lisboa \u2013 FAO, e elegeu tamb\u00e9m uma comiss\u00e3o com a incumb\u00eancia de elaborar um trabalho sobre a percentagem.<\/span><a title=\"\" href=\"#_ftn83\"><span style=\"color: #0066cc\">[83]<\/span><\/a><\/p>\n<p><b><span style=\"text-decoration: underline\"><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">No plano das reivindica\u00e7\u00f5es, o \u00absindicato nacional\u00bb assumia as mesmas que a Associa\u00e7\u00e3o, e acrescentava-lhes o seu exclusivo distintivo. A exig\u00eancia da expuls\u00e3o dos estrangeiros.<\/span><\/span><\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-size: medium\"><span style=\"color: #000000\"><b><span style=\"text-decoration: underline\"><span style=\"font-family: Arial\">\u00a0<\/span>S\u00e3o os \u00abnacionais\u00bb quem toma a dianteira no tratamento da quest\u00e3o escaldante da reparti\u00e7\u00e3o do \u00abcaixa\u00bb ou da taxa de servi\u00e7o, defendendo partes diferentes para categorias profissionais e responsabilidades diferentes,<\/span><\/b> embora procurando atenuar algumas pr\u00e1ticas desproporcionadas existentes. Tomam como exemplo o \u00abEstoril Pal\u00e1cio Hotel\u00bb onde se praticava a seguinte tabela de distribui\u00e7\u00e3o:<\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">1\u00ba Chefe de Mesa \u2026\u2026\u2026\u2026. 3,2 Partes<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">2\u00ba Chefe de Mesa\u2026\u2026\u2026\u2026\u20262 \u201c<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">3\u00ba Chefe de Mesa\u2026\u2026\u2026\u2026\u20262 \u201c<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Chefe de Turno\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u20261 \u201c<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Ajudante de Turno\u2026\u2026\u2026.0, 85 \u201c<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">E promovem um abaixo-assinado nesta unidade de luxo, subscrito por toda a brigada do restaurante, abaixo-assinado que entregam \u00e0 administra\u00e7\u00e3o, propondo a redu\u00e7\u00e3o das diferen\u00e7as existentes entre as categorias. Fruto desta ac\u00e7\u00e3o, embora ainda longe da proposta do sindicato, a distribui\u00e7\u00e3o melhorou, e os ajudantes viram a diferen\u00e7a que os separava dos Chefes de Turno descer de 40% para 20%.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">\u00abA Administra\u00e7\u00e3o n\u00e3o quis tocar na parte dos chefes-de-mesa, dizendo que esta fora fixada por contrato.\u00bb<\/span><a title=\"\" href=\"#_ftn84\"><span style=\"color: #0066cc\">[84]<\/span><\/a><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Meses depois, dado o descontentamento que persistia, voltam a insistir junto do \u00abEstoril Pal\u00e1cio\u00bb, desta vez solicitando \u00e0 Administra\u00e7\u00e3o que aplicasse a tabela vigente no \u00abHotel Avenida Palace\u00bb, em Lisboa, onde n\u00e3o havia reclama\u00e7\u00f5es dos trabalhadores, e a distribui\u00e7\u00e3o da percentagem se fazia da seguinte forma:<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">1\u00ba Chefe\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u202620 Partes<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">2\u00ba Chefe\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026.15 \u201c<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Chefe de Turno\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026.10 \u201c<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Ajudantes\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026&#8230; 8 \u201c <\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Empregados de Andares\u2026\u202610 \u201c<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Prop\u00f5em ainda que sejam atribu\u00eddas 4,5 partes, aos aprendizes, e concluem:<\/span><\/p>\n<p><i><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">\u00abEsperamos que V.Exas. far\u00e3o por cumprir esta resolu\u00e7\u00e3o que \u00e9 de toda a classe, evitando assim as reclama\u00e7\u00f5es constantes.<\/span><\/i><\/p>\n<p><i><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">N\u00e3o queremos por enquanto agitar este assunto por entendermos que V. Exas. como bons portugueses defensores de todo o pessoal e em especial dos portugueses, como t\u00eam sido at\u00e9 agora, nos dispensar\u00e3o de o fazer.\u00bb<\/span><a title=\"\" href=\"#_ftn85\"><b><span style=\"color: #0066cc\">[85]<\/span><\/b><\/a><\/i><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Na Assembleia-geral de 26 de Outubro os \u00abnacionais\u00bb elegem uma comiss\u00e3o presidida por Manuel Mendes Leite Jr., que elabora um projecto de defini\u00e7\u00e3o do perfil das categorias profissionais existentes em todas as sec\u00e7\u00f5es de hot\u00e9is, caf\u00e9s e restaurantes, que prop\u00f5e tabelas de distribui\u00e7\u00e3o diferenciada da taxa<i><\/i>de servi\u00e7o em fun\u00e7\u00e3o da classifica\u00e7\u00e3o dos estabelecimentos, e das categorias profissionais existentes.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Mendes Leite Jr., empregado de mesa, s\u00f3cio fundador n\u00ba 20 dos \u00abnacionais\u00bb, jovem activo e ambicioso, destacava-se entre os adeptos do fascismo na classe, pela facilidade com que escrevia. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: medium\"><span style=\"color: #000000\">Era ele quem redigia mo\u00e7\u00f5es e requerimentos nas assembleias-gerais, que fazia as actas, a contabilidade e a correspond\u00eancia do sindicato, elaborava a defini\u00e7\u00e3o das categorias profissionais, redigia relat\u00f3rios e estudos de comiss\u00f5es, sobrando-lhe ainda tempo para publicar artigos sobre forma\u00e7\u00e3o profissional e organiza\u00e7\u00e3o hoteleira em quase todos os n\u00fameros de <span style=\"font-family: Arial\"><i>A Voz da Raz\u00e3o.<\/i><\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Assumia-se como defensor dos trabalhadores, mas, sem luta de classes, dizia. Dentro do regime corporativo. E, ao mesmo tempo que tecia votos de fidelidade ao fascismo, ia apresentando reivindica\u00e7\u00f5es, alertando as autoridades para a eventualidade de os trabalhadores poderem vir a ser desencaminhados caso n\u00e3o fossem feitas algumas concess\u00f5es.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Alem da distribui\u00e7\u00e3o pelos trabalhadores, o projecto redigido por Leite Jr. prop\u00f5e que ao n\u00edvel das sec\u00e7\u00f5es existentes num hotel, o \u00abbolo\u00bb da taxa de servi\u00e7o seja repartido em 50% para os trabalhadores da sec\u00e7\u00e3o de Mesas, 30% para a Porta, e 20 para os Quartos.<\/span><a title=\"\" href=\"#_ftn86\"><span style=\"color: #0066cc\">[86]<\/span><\/a><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Esta seria a matriz que ao longo dos lentos quarenta anos seguintes viria a ser consagrada, com alguns aperfei\u00e7oamentos, nos contractos colectivos, e depois num Regulamento de Distribui\u00e7\u00e3o da Taxa de Servi\u00e7o, negociados entre os gr\u00e9mios patronais e os \u00absindicatos nacionais\u00bb. <\/span><\/p>\n<p><b><span style=\"text-decoration: underline\"><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Na Assembleia-geral convocada ostensivamente para o dia marcado para a Greve Geral, em 18 de Fevereiro de 1934, os \u00abnacionais\u00bb com o prop\u00f3sito de motivar a participa\u00e7\u00e3o dos s\u00f3cios, alem do acto eleitoral, e do relat\u00f3rio e contas do ano anterior, propuseram uma nutrida ordem de trabalhos onde constavam para discuss\u00e3o, uma tabela de pre\u00e7os para os \u00abservi\u00e7os extra\u00bb em casamentos, baptizados e outros eventos, e o projecto de distribui\u00e7\u00e3o da taxa de servi\u00e7o elaborado pela comiss\u00e3o que tinha essa incumb\u00eancia. <\/span><\/span><\/b><\/p>\n<p><b><span style=\"text-decoration: underline\"><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Apesar do cuidado que tiveram propondo que onde j\u00e1 existisse o sistema de percentagem esta fosse distribu\u00edda \u00abem partes iguais sem distin\u00e7\u00e3o de categorias\u00bb, e tivessem defendido a distribui\u00e7\u00e3o diferenciada s\u00f3 para o futuro, os dirigentes dos \u00abnacionais\u00bb que acabavam de ser eleitos averbaram uma rotunda derrota. \u00abO estudo foi rejeitado por unanimidade.\u00bb<\/span><a title=\"\" href=\"#_ftn87\"><b><span style=\"text-decoration: underline\"><span style=\"color: #0066cc\">[87]<\/span><\/span><\/b><\/a><\/span><\/b><\/p>\n<p><b><span style=\"text-decoration: underline\"><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">A primeira Direc\u00e7\u00e3o eleita no quadro legal fascista n\u00e3o se subordinou \u00e0 decis\u00e3o da assembleia-geral sobre a distribui\u00e7\u00e3o da percentagem, e duas posi\u00e7\u00f5es sobre o assunto continuaram em confronto no sindicato. Uma, sob a batuta de Leite Jr., a defender que a distribui\u00e7\u00e3o igualit\u00e1ria era injusta, porque a categorias e responsabilidades diferentes deveriam corresponder fatias diferentes do \u00abbolo\u00bb.<\/span><\/span><\/b><\/p>\n<p><b><span style=\"text-decoration: underline\"><span style=\"font-size: medium\"><span style=\"color: #000000\"><span style=\"font-family: Arial\">\u00a0<\/span>Outra, a que tinha sa\u00edda vencedora na assembleia, a dizer que sim senhor, que fossem pagas remunera\u00e7\u00f5es maiores aos chefes e a categorias de 1\u00aa, mas que a diferen\u00e7a para mais fosse suportada pela entidade patronal, e n\u00e3o sa\u00edsse da percentagem, que devia continuar conforme a pr\u00e1tica corrente na maioria das casas a ser distribu\u00edda por todos em partes iguais, mantendo-se assim o \u00abcomunismo\u00bb caracter\u00edstico do \u00abcaixa\u00bb.<\/span><\/span><\/span><\/b><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Mas Leite Jr., de cariz autorit\u00e1rio, pessoa cheia de certezas e raz\u00f5es relativamente \u00e1s quais s\u00f3 com dificuldade admitia contesta\u00e7\u00e3o, n\u00e3o era homem para desistir perante uma contrariedade, e tinha um objectivo de poder. Passar de 1\u00ba Secret\u00e1rio a Presidente da Direc\u00e7\u00e3o, nas elei\u00e7\u00f5es seguintes.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Sobre o 18 de Janeiro e aquilo que considerava as virtudes da fascismo, escreveu:<\/span><\/p>\n<p><i><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">\u00abPelos manifestos que li, incitando \u00e0 Greve Geral Revolucion\u00e1ria, os oper\u00e1rios, que sempre andaram enganados, e que ca\u00edram em mais um logro, quando os videirinhos<\/span><a title=\"\" href=\"#_ftn88\"><b><span style=\"color: #0066cc\">[88]<\/span><\/b><\/a><span style=\"color: #000000;font-size: medium\"> nos diziam para n\u00e3o aderirmos ao Estado Novo, e repudiarmos o Dec. Lei 23 050, que regulamenta a transforma\u00e7\u00e3o porque passamos e vai permitir reivindica\u00e7\u00f5es que nunca os trabalhadores, com todas as lutas ideol\u00f3gicas conseguiram, cheguei \u00e1s seguintes conclus\u00f5es:<\/span><\/i><\/p>\n<p><i><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">At\u00e9 \u00e0 instaura\u00e7\u00e3o do regime corporativo, que papel tiveram as associa\u00e7\u00f5es de classe? Nenhum! Acontecia-lhes como aos peixes no mar, em que os grandes se alimentam com os pequenos que comem.<\/span><\/i><\/p>\n<p><i><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">(\u2026) Est\u00e1 na mem\u00f3ria de todos o que foi a Associa\u00e7\u00e3o que representava os empregados da ind\u00fastria hoteleira, em Lisboa.<\/span><\/i><\/p>\n<p><i><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">\u00c9 sabido que a ac\u00e7\u00e3o tumultuosa das associa\u00e7\u00f5es oper\u00e1rias obedecia quase sempre a comandos ou sugest\u00f5es mais ou menos obscuras de agitadores profissionais interessados em implantar a desordem e o descontentamento nos trabalhadores.<\/span><\/i><\/p>\n<p><i><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Vejamos por\u00e9m, o que oferece aos oper\u00e1rios, que se prezam de o ser, e aos organismos sindicais o novo regime corporativo.<\/span><\/i><\/p>\n<p><i><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">D\u00e1, a superior eleva\u00e7\u00e3o desses organismos a categoria de associa\u00e7\u00f5es de interesse p\u00fablico, que eles nunca tiveram.<\/span><\/i><\/p>\n<p><i><span style=\"font-size: medium\"><span style=\"color: #000000\"><span style=\"font-family: Arial\">\u00a0<\/span>Garante-lhes igualmente a fun\u00e7\u00e3o de colaboradores na vida politico-constitucional da Na\u00e7\u00e3o, mediante representa\u00e7\u00f5es id\u00f3neas e directas nos corpos consultivos e nas assembleias legislativas do Estado.<\/span><\/span><\/i><\/p>\n<p><i><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">D\u00e1, aos novos sindicatos nacionais, as garantias de contractos colectivos de trabalho, definidos no estatuto Nacional do Trabalho como instituto jur\u00eddico.<\/span><\/i><\/p>\n<p><i><span style=\"font-size: medium\"><span style=\"color: #000000\"><span style=\"font-family: Arial\">\u00a0<\/span>Alguma vez isto tinha sido feito em leis portuguesas, at\u00e9 hoje? N\u00e3o.\u00bb<\/span><\/span><a title=\"\" href=\"#_ftn89\"><b><span style=\"color: #0066cc\">[89]<\/span><\/b><\/a><\/i><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Mendes Leite Jr. declarava-se convicto de que os sacrif\u00edcios de hoje seriam compensados no futuro, e que, os conte\u00fados que a lei estipulava que deveriam constar obrigatoriamente dos contractos colectivos de trabalho: <i><span style=\"font-family: Arial\">\u00abhor\u00e1rio e disciplina de trabalho; sal\u00e1rios ou ordenados; faltas; descanso semanal; f\u00e9rias; condi\u00e7\u00f5es de suspens\u00e3o ou perda do emprego; per\u00edodo de garantia deste no caso de doen\u00e7a; per\u00edodo de aprendizagem ou de est\u00e1gio e quotas das entidades patronais e dos empregados para as organiza\u00e7\u00f5es sindicais e de previd\u00eancia\u00bb<\/span><\/i> em breve<i><\/i>seriam uma realidade.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">O \u00abbenjamim\u00bb do fascismo no Sindicato Nacional dos Profissionais da Industria Hoteleira, aproveita a sess\u00e3o comemorativa do 3\u00ba anivers\u00e1rio do sindicato, em que, depois da interven\u00e7\u00e3o do representante do Subsecret\u00e1rio de Estado das Corpora\u00e7\u00f5es e Previd\u00eancia Social foi ele a fazer o discurso de fundo, para tentar assumir-se como o novo l\u00edder dos \u00abnacionais\u00bb. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">O discurso que profere e a encena\u00e7\u00e3o que organiza e anima, que inclui um menino e uma menina a entregar um ramo de flores ao representante do Governo que preside \u00e0 sess\u00e3o, pedindo a protec\u00e7\u00e3o de Salazar, \u00e9 o prot\u00f3tipo do que viria a repetir nas mais variadas situa\u00e7\u00f5es, nos 40 anos que se seguiram.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Nesse discurso, apresenta assim as reivindica\u00e7\u00f5es: <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: medium\"><span style=\"color: #000000\">\u00ab<span style=\"font-family: Arial\"><i>A este sindicato, que foi o primeiro ou o segundo a integrar-se nas novas directrizes, de certeza o primeiro a ventilar o assunto em assembleia-geral, assiste-lhe o direito de pedir aos bons homens que nos governam que satisfa\u00e7am as suas leg\u00edtimas aspira\u00e7\u00f5es: a aboli\u00e7\u00e3o da gorjeta; a regulamenta\u00e7\u00e3o do trabalho dos estrangeiros; a aboli\u00e7\u00e3o da classifica\u00e7\u00e3o oficial de dom\u00e9sticos; a cria\u00e7\u00e3o de um habitat digno de pessoas civilizadas.\u00bb<\/i><\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">E conclui: \u00ab<\/span><i><span style=\"color: #000000;font-family: Arial;font-size: medium\">Tenhamos calma, saibamos esperar com f\u00e9, trabalhemos por unir no sindicato tanto nacionais como estrangeiros, tendo como legenda a ideia luminosa que guia Portugal, TUDO PELA NA\u00c7\u00c3O NADA CONTRA A NA\u00c7\u00c3O, e algumas coisas not\u00e1veis havemos de fazer nos anais de um sindicalismo ordeiro, mas sempre reivindicador.\u00bb<\/span><a title=\"\" href=\"#_ftn90\"><b><span style=\"color: #0066cc\">[90]<\/span><\/b><\/a><\/i><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">O activismo fren\u00e9tico de Manuel Mendes Leite Jr. no seu primeiro assalto ao cargo de Presidente do sindicato, n\u00e3o resultou. A defesa das propostas controversas sobre a distribui\u00e7\u00e3o da taxa de servi\u00e7o e sobre a admiss\u00e3o dos estrangeiros no \u00absindicato nacional\u00bb, os compromissos em que se envolveu com o patronato sobre o hor\u00e1rio de trabalho, em que admitia hor\u00e1rios mais longos do que os fixados na lei geral, e o claro e inequ\u00edvoco engajamento com o fascismo, acrescidos ao atrevimento de, t\u00e3o jovem, se querer assumir como \u00abchefe\u00bb, aumentaram o n\u00famero dos que se lhe opunham.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Uniu contra ele e os que o apoiavam, os trabalhadores que, embora tivessem embarcado na onda xen\u00f3foba, tinham uma cultura associativa forte e combativa em defesa dos seus direitos, os ultras, afectos aos camisas azuis de Rol\u00e3o Preto, que \u00e0 data ainda n\u00e3o tinha sido ostracisado por Salazar, e profissionais altamente qualificados e prestigiados, que n\u00e3o viam com bons olhos as ambi\u00e7\u00f5es desmedidas daquele jovem e atrevido salazarista.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">A pr\u00f3pria Direc\u00e7\u00e3o que integrava come\u00e7ou a desagregar-se devido \u00e1s contradi\u00e7\u00f5es geradas por posi\u00e7\u00f5es diferentes dos seus elementos, sobre quest\u00f5es cruciais, como a distribui\u00e7\u00e3o da percentagem e a dura\u00e7\u00e3o do hor\u00e1rio de trabalho.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: medium\"><span style=\"color: #000000\"><span style=\"font-family: Arial\">\u00a0<\/span>O desencanto daqueles que tinham aderido de boa f\u00e9 \u00e0 doutrina do Estado Novo, de nega\u00e7\u00e3o da luta de classes, come\u00e7ava mesmo a manifestar-se expressamente. \u00ab<\/span><\/span><i><span style=\"color: #000000;font-family: Arial;font-size: medium\">Se n\u00f3s fomos sinceros nos nossos prop\u00f3sitos, outro tanto n\u00e3o o tem sido a classe com quem n\u00f3s colaboramos. A classe patronal, salvo honrosas excep\u00e7\u00f5es que as h\u00e1, tem procurado torpedear malevolamente a obra do sindicato.\u00bb<\/span><a title=\"\" href=\"#_ftn91\"><b><span style=\"color: #0066cc\">[91]<\/span><\/b><\/a><span style=\"color: #000000;font-family: Arial;font-size: medium\">\u00a0 <\/span><\/i><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Lamentam-se.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: medium\"><span style=\"color: #000000\"><span style=\"font-family: Arial\">\u00a0<\/span>E prosseguem com um role de exemplos em que as empresas aproveitam os hiatos legais para estabelecerem unilateralmente, e em seu benef\u00edcio, formas diversas de arrecada\u00e7\u00e3o da percentagem. \u00abH\u00e1 hot\u00e9is em que o Chefe-de-servi\u00e7o recebe 11 vezes mais da percentagem do que o outro empregado que se lhe segue, tamb\u00e9m casado e com filhos.\u00bb Na Sociedade Estoril Plage, propriet\u00e1ria dos principais hot\u00e9is do Estoril e do Maxim\u2019s de Lisboa, a Administra\u00e7\u00e3o fica com 30% da taxa de servi\u00e7o com a justifica\u00e7\u00e3o de ser para suportar preju\u00edzos<\/span><\/span><a title=\"\" href=\"#_ftn92\"><span style=\"color: #0066cc\">[92]<\/span><\/a><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">. Nos hot\u00e9is Tivoli e Aviz, parte da percentagem \u00e9 desviada para pagar ordenados a empregados que sempre tiveram ordenados fixos suportados pela entidade patronal. E assim por diante. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">A agravar o ambiente de descontentamento existente na classe aparece o Governo a publicar nos jornais um projecto de lei do hor\u00e1rio de trabalho que, quanto \u00e0 dura\u00e7\u00e3o do trabalho di\u00e1rio n\u00e3o era mais do que a reafirma\u00e7\u00e3o da lei de 1919, e que mantinha os trabalhadores de hotelaria classificados como \u00abdom\u00e9sticos.\u00bb <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: medium\"><span style=\"color: #000000\"><span style=\"font-family: Arial\">\u00a0<\/span>Foi a gota de \u00e1gua que fez transbordar o copo. Parte da Direc\u00e7\u00e3o demitiu-se, e foram necess\u00e1rias duas assembleias tumultuosas para substituir os demission\u00e1rios. <\/span><\/span><\/p>\n<p><b><span style=\"text-decoration: underline\"><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">A classe tinha ficado em polvorosa com o projecto de hor\u00e1rio. De tal modo que os protestos foram suficientes para provocar um recuo nas inten\u00e7\u00f5es iniciais do Governo e, no Dec. Lei n\u00ba 24 402 de 24 de Agosto, acabou por ser inclu\u00edda uma disposi\u00e7\u00e3o que, embora remetendo a quest\u00e3o da dura\u00e7\u00e3o e organiza\u00e7\u00e3o do hor\u00e1rio para um regulamento especial a elaborar posteriormente, eliminava expressamente a classifica\u00e7\u00e3o dos trabalhadores de hotelaria como empregados dom\u00e9sticos.<\/span><\/span><\/b><\/p>\n<p><b><span style=\"text-decoration: underline\"><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">O facto foi assinalado como uma grande vit\u00f3ria e vivas a Salazar e ao Estado Novo pelo grupo de \u00abnacionais\u00bb que girava em torno de Leite Jr. <\/span><\/span><\/b><\/p>\n<p><b><span style=\"text-decoration: underline\"><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Na verdade, tratava-se da satisfa\u00e7\u00e3o de uma velha reivindica\u00e7\u00e3o da classe que abria caminho para a aplica\u00e7\u00e3o do hor\u00e1rio fixado na lei geral \u00e0 hotelaria. Mas esse caminho seria ainda muito longo. Nos hot\u00e9is, restaurantes e caf\u00e9s, o hor\u00e1rio continuou a ser de 14, 15 e 16 horas di\u00e1rias como at\u00e9 aqui. <\/span><\/span><\/b><\/p>\n<p><b><span style=\"text-decoration: underline\"><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">O patronato escudava-se agora no facto de ainda n\u00e3o ter constitu\u00eddo os gr\u00e9mios a que estava obrigado por lei, mas que impunemente demorava em cumprir, para se eximir \u00e0 participa\u00e7\u00e3o na elabora\u00e7\u00e3o do regulamento previsto na nova lei do hor\u00e1rio de trabalho.<\/span><\/span><\/b><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Mendes Leite Jr. valorizou ao m\u00e1ximo a legaliza\u00e7\u00e3o da bolsa de emprego criada no sindicato, a que os patr\u00f5es ficavam obrigados a recorrer quando necessitassem de admitir novos trabalhadores.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-family: Arial;font-size: medium\">\u00a0<\/span><b><span style=\"text-decoration: underline\"><span style=\"color: #000000;font-family: Arial;font-size: medium\">Mas, a quest\u00e3o da n\u00e3o aplica\u00e7\u00e3o da lei do hor\u00e1rio de trabalho \u00e0 industria hoteleira, facto pelo qual a Direc\u00e7\u00e3o de Leite Jr. tamb\u00e9m era responsabilizada, e at\u00e9 de ser conivente, chegando mesmo a ser acusada de ter sido subornada com 200 contos pelo patronato para o efeito<\/span><a title=\"\" href=\"#_ftn93\"><b><span style=\"text-decoration: underline\"><span style=\"color: #0066cc\">[93]<\/span><\/span><\/b><\/a><span style=\"color: #000000;font-family: Arial;font-size: medium\">, sobrepunha-se a todas as outras.<\/span><\/span><\/b><\/p>\n<p><b><span style=\"text-decoration: underline\"><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Por isso, nas elei\u00e7\u00f5es que se vieram a realizar em 21 de Fevereiro de 1935, a lista que Mendes Leite Jr. integra perde por dez votos, em favor de uma lista que defendia posi\u00e7\u00f5es mais combativas relativamente \u00e1s reivindica\u00e7\u00f5es da classe.<\/span><a title=\"\" href=\"#_ftn94\"><b><span style=\"text-decoration: underline\"><span style=\"color: #0066cc\">[94]<\/span><\/span><\/b><\/a><\/span><\/b><\/p>\n<p><b><span style=\"text-decoration: underline\"><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Uma das primeiras ac\u00e7\u00f5es da nova Direc\u00e7\u00e3o eleita foi uma desloca\u00e7\u00e3o colectiva ao Instituto Nacional do Trabalho e Previd\u00eancia \u2013 INTP, a exigir uma solu\u00e7\u00e3o para a quest\u00e3o do hor\u00e1rio de trabalho. <\/span><\/span><\/b><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">O Governo, na resposta \u00e0 valentia dos manifestantes, de forma mais suave que noutros casos, com a mais que prov\u00e1vel media\u00e7\u00e3o de Leite Jr., oficiou o Presidente da Mesa da Assembleia-geral da seguinte forma: \u00ab<\/span><i><span style=\"color: #000000;font-family: Arial;font-size: medium\">o Subsecret\u00e1rio de Estado das Corpora\u00e7\u00f5es retira a confian\u00e7a \u00e0 Direc\u00e7\u00e3o pelo facto de alguns dos seus elementos terem sido menos correctos com um dos seus representantes do INTP, e como desejava continuar a tratar das quest\u00f5es de trabalho com a coopera\u00e7\u00e3o do nosso sindicato pedia previd\u00eancias para a situa\u00e7\u00e3o.\u00bb<\/span><a title=\"\" href=\"#_ftn95\"><b><span style=\"color: #0066cc\">[95]<\/span><\/b><\/a><\/i><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Mendes Leite Jr. apresenta na Assembleia-geral que se realizou para tomar as previd\u00eancias pedidas pelo Governo, uma mo\u00e7\u00e3o em que prop\u00f5e que esta \u00ab<\/span><i><span style=\"color: #000000;font-family: Arial;font-size: medium\">lamente o acto impensado e reitera na pessoa do Dr. Pedro Teot\u00f3nio Pereira a confian\u00e7a de que os problemas da classe, em especial o hor\u00e1rio de trabalho sejam resolvidos em curto espa\u00e7o de tempo para bem da classe, prest\u00edgio do sindicato e honra do Estado Corporativo.\u00bb<\/span><a title=\"\" href=\"#_ftn96\"><b><span style=\"color: #0066cc\">[96]<\/span><\/b><\/a><\/i><span style=\"font-size: medium\"><span style=\"color: #000000\"><span style=\"font-family: Arial\">\u00a0 <\/span>Prop\u00f5e ainda que sejam demitidos e substitu\u00eddos, n\u00e3o toda a Direc\u00e7\u00e3o, mas apenas <span style=\"font-family: Arial\">Paulo<\/span> Vaz de Carvalho e Domingos Morais, os dirigentes que tinham estado \u00e0 frente dos protestos dos trabalhadores junto do INTP.<\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Os dirigentes sindicais visados, de forma s\u00f3bria e cheia de dignidade, em sua defesa, disseram na assembleia que, apenas tinham querido defender a classe. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">A Direc\u00e7\u00e3o, solid\u00e1ria com os camaradas que o Governo queria expulsar, n\u00e3o aceitou a proposta de Leite Jr., pediu a demiss\u00e3o colectiva, e entregou as chaves do sindicato ao Presidente da MAG, que promoveu uma nova elei\u00e7\u00e3o, de onde emergiu como Presidente, Manuel Mendes Leite Jr., claro.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: medium\"><span style=\"color: #000000\">Mas os protestos e a contesta\u00e7\u00e3o dos trabalhadores em defesa dos seus direitos n\u00e3o abrandaram, e as assembleias-gerais continuaram a ser tempestuosas. <span style=\"font-family: Arial\"><b><span style=\"text-decoration: underline\">Na vez seguinte em que o Governo teve que dar a m\u00e3o a Leite Jr. para o manter \u00e0 frente do sindicato foi menos ardiloso e mais\u00a0 conforme com a sua natureza anti-democr\u00e1tica\u00a0 do que na primeira vez.<\/span><\/b><\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p><b><span style=\"text-decoration: underline\"><span style=\"font-size: medium\"><span style=\"color: #000000\"><span style=\"font-family: Arial\">\u00a0<\/span>Nomeou-o Presidente de uma Comiss\u00e3o Administrativa, que em vez de eleita foi imposta \u00e0 classe coercivamente, por despacho, condi\u00e7\u00e3o em que se manteve durante mais de dois anos, ap\u00f3s o que veio a deixar novamente o cargo para que fora nomeado, debaixo de grande contesta\u00e7\u00e3o dos trabalhadores. <\/span><\/span><\/span><\/b><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">S\u00f3 depois de as gera\u00e7\u00f5es de activistas oriundas da escola de sindicalismo da Primeira Republica se terem desvanecido muito, e passadas muitas perip\u00e9cias com elei\u00e7\u00f5es e destitui\u00e7\u00f5es no sindicato, \u00e9 que este homem do corporativismo fascista voltou novamente ao sindicato, como Presidente da Direc\u00e7\u00e3o, cargo em que se manteria at\u00e9 ser apeado numa fabulosa assembleia-geral com mais de mil trabalhadores, que come\u00e7ou nas salas da sede do sindicato, e que por falta de espa\u00e7o para tanta gente, terminou nas escadinhas e becos circundantes ao P\u00e1tio do Salema, em Lisboa, no dia 29 de Abril de 1974. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Nesse dia, ap\u00f3s a elei\u00e7\u00e3o de uma Comiss\u00e3o Directiva Provis\u00f3ria para dirigir o sindicato at\u00e9 \u00e0 realiza\u00e7\u00e3o de elei\u00e7\u00f5es livres e democr\u00e1ticas, dezenas de activistas inundaram as instala\u00e7\u00f5es do sindicato, a gritar, Liberdade! Liberdade! Fascistas para a rua!<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div>\n<p><a title=\"\" href=\"#_ftnref81\">[81]<\/a> <i>O dever<\/i>, n\u00ba 3 de 10 de Janeiro de 1933, fls. 4<\/p>\n<\/div>\n<div>\n<p><a title=\"\" href=\"#_ftnref82\">[82]<\/a> <i>O dever,<\/i> n\u00ba 1 de 10 de Novembro de 1932, fls. 3<\/p>\n<\/div>\n<div>\n<p><a title=\"\" href=\"#_ftnref83\">[83]<\/a> <i>O dever,<\/i> n\u00ba 10 de 15 de Agosto de 1933, fls. 4<\/p>\n<\/div>\n<div>\n<p><a title=\"\" href=\"#_ftnref84\">[84]<\/a> <i>A Voz da Raz\u00e3o,<\/i> n\u00ba 3 de 1 de Fevereiro de 1933, fls. 4<\/p>\n<\/div>\n<div>\n<p><a title=\"\" href=\"#_ftnref85\">[85]<\/a> <i>A Voz da Raz\u00e3o, <\/i>n\u00ba 10 de Outubro de 1933, fls.2<\/p>\n<\/div>\n<div>\n<p><a title=\"\" href=\"#_ftnref86\">[86]<\/a> <i>A Voz da Raz\u00e3o,<\/i> n\u00ba 11<i> <\/i>de Novembro de 1933, fls.2<\/p>\n<\/div>\n<div>\n<p><a title=\"\" href=\"#_ftnref87\">[87]<\/a> <i>Acta da AG<\/i>, de 18 de Janeiro de 1934<\/p>\n<\/div>\n<div>\n<p><a title=\"\" href=\"#_ftnref88\">[88]<\/a> Leite Jr. utiliza aqui o apodo de videirinhos,\u00a0 segundo David de Carvalho, dado pelos anarquistas aos comunistas e uma das causas de maior antagonismo e divis\u00e3o entre estas duas tend\u00eancias sindicais.<\/p>\n<\/div>\n<div>\n<p><a title=\"\" href=\"#_ftnref89\">[89]<\/a> <i>A Voz da Raz\u00e3o,<\/i> n\u00ba 14 de Fevereiro de 1934, fls. 2<\/p>\n<\/div>\n<div>\n<p><a title=\"\" href=\"#_ftnref90\">[90]<\/a> <i>A Voz da Raz\u00e3o,<\/i> n\u00ba 17 de Maio de 1934, fls.1 e 4<\/p>\n<\/div>\n<div>\n<p><a title=\"\" href=\"#_ftnref91\">[91]<\/a> <i>A Voz da Raz\u00e3o<\/i>, n\u00ba 19 de Julho de 1934 fls. 1<\/p>\n<\/div>\n<div>\n<p><a title=\"\" href=\"#_ftnref92\">[92]<\/a> <i>A Voz da Raz\u00e3o, <\/i>n\u00ba 23 de Janeiro de 1935 fls. 1<\/p>\n<\/div>\n<div>\n<p><a title=\"\" href=\"#_ftnref93\">[93]<\/a> <i>Acta <\/i>AG n\u00ba 20, de 9 de Fevereiro de 1935<\/p>\n<\/div>\n<div>\n<p><a title=\"\" href=\"#_ftnref94\">[94]<\/a> <i>Acta <\/i>da AG n\u00ba 21, de 21 de Fevereiro de 1935<\/p>\n<\/div>\n<div>\n<p><a title=\"\" href=\"#_ftnref95\">[95]<\/a> <i>Acta <\/i>da AG n\u00ba22, de 23 de Maio de 1935 e Oficio n\u00ba 28112 de 14 de Maio de 1935 da Reparti\u00e7\u00e3o do Trabalho e corpora\u00e7\u00f5es, dirigido ao Presidente da AG.<\/p>\n<\/div>\n<div>\n<p><a title=\"\" href=\"#_ftnref96\">[96]<\/a> Idem<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<\/div>\n<h3><strong><span style=\"color: #000000;font-family: Arial\">Unir For\u00e7as e Reorganizar Para Resistir \u2013 A Inter-Sindical<\/span><\/strong><b><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">\u00a0<\/span><\/b><\/h3>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">A ideia de unidade e de sindicato \u00fanico \u00e9 uma aspira\u00e7\u00e3o sempre latente desde as origens do sindicato. Corresponde \u00e0 ideia de, todos juntos, independentemente da profiss\u00e3o, do partido ou da religi\u00e3o, somos mais fortes para enfrentar o patronato e conseguirmos os nossos objectivos. E, ciclicamente, surge na forma de proposta em assembleias-gerais. Mas, \u00e9 a partir de 1919, com o aperfei\u00e7oamento do conceito de \u00absindicatos \u00fanicos de ind\u00fastria\u00bb e de federa\u00e7\u00f5es nacionais correspondentes, no movimento sindical, que a ideia ganha for\u00e7a suficiente para se come\u00e7ar a materializar. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Na hotelaria, Ant\u00f3nio Quintela Maia \u00e9 um activo dinamizador da unidade org\u00e2nica, e faz propostas sucessivas para a concretizar. J\u00e1 em 1919, escreve: \u00ab\u00c9 uma quest\u00e3o de vida ou de morte que apare\u00e7a um engenheiro dentro da classe, n\u00e3o importa que seja ou n\u00e3o diplomado, o que interessa \u00e9 que seja capaz de montar a m\u00e1quina de que necessitamos para a luta. As pe\u00e7as j\u00e1 se encontram constru\u00eddas, o que est\u00e3o \u00e9 dispersas, e necessitam de ser agrupadas. S\u00e3o as associa\u00e7\u00f5es dos criados, dos culin\u00e1rios, dos empregados dos hot\u00e9is, e a dos corretores. A m\u00e1quina poder\u00e1 denominar-se: <i><span style=\"font-family: Arial\">Federa\u00e7\u00e3o dos Empregados na Industria Hoteleira e Artes Similares. <\/span><\/i>Debaixo da bandeira que este nome simboliza cabem todos: cabe o cozinheiro, o ajudante, o mo\u00e7o, o criado de mesa, o copeiro, o criado de quartos, porteiros e criados de casas particulares, corretores de hot\u00e9is e pasteleiros. Enfim, todos os que da industria vivem para n\u00e3o morrerem de fome.\u00bb<\/span><a title=\"\" href=\"#_ftn97\"><span style=\"color: #0066cc\">[97]<\/span><\/a><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Quintela Maia informa ainda que a soma dos s\u00f3cios das quatro associa\u00e7\u00f5es a federar vai ultrapassar os mil, de entre os cerca de oito mil que constituem a classe, em Lisboa. E, num racioc\u00ednio mais economicista do que politico, fundamenta: assim, poderemos estar todos na mesma casa, ter um empregado de escrit\u00f3rio efectivo, competente e bem pago, um cobrador e dois cont\u00ednuos e, feitas as contas, pagarmos menos estando juntos do que o que pagamos agora, estando separados.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Quintela tira uma \u00faltima conclus\u00e3o, e remata com um remoque: \u00abpara conseguirmos isto, h\u00e1 de facto direitos adquiridos, que conv\u00e9m que sejam respeitados, e h\u00e1 tamb\u00e9m alguns caturras das quatro associa\u00e7\u00f5es, que n\u00e3o abdicam com facilidade do seu amor-pr\u00f3prio, mas face ao interesse geral, talvez venham a mudar de opini\u00e3o, um dia.\u00bb<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">O projecto acaba por n\u00e3o vingar, nesta altura, mas n\u00e3o morre. Entre 1922 e 1924, a direc\u00e7\u00e3o anarquista insiste na ideia, e chega a sugerir uma proposta de \u00e2mbito ainda mais alargado, atrav\u00e9s da realiza\u00e7\u00e3o de um congresso dos oper\u00e1rios da alimenta\u00e7\u00e3o, afim de lan\u00e7ar as bases de uma <i><span style=\"font-family: Arial\">Federa\u00e7\u00e3o de Ind\u00fastria,<\/span><\/i> que organize os \u00abmanipuladores de p\u00e3o, pescadores, manipuladores de massas, farinhas e bolachas, empregados de hot\u00e9is, restaurantes e caf\u00e9s, trabalhadores em conservas, etc.\u00bb<\/span><a title=\"\" href=\"#_ftn98\"><span style=\"color: #0066cc\">[98]<\/span><\/a><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Tamb\u00e9m esta proposta n\u00e3o vinga e, \u00e9 j\u00e1 em plena Ditadura, no quadro de um processo mais amplo de reorganiza\u00e7\u00e3o sindical, que o projecto volta a ganhar corpo, e com o Quintela Maia novamente empenhado na sua concretiza\u00e7\u00e3o, acaba por realizar-se <\/span><b><span style=\"text-decoration: underline\"><span style=\"color: #000000;font-family: Arial;font-size: medium\">em 1929, atrav\u00e9s da fus\u00e3o da Associa\u00e7\u00e3o de Classe dos Empregados dos Hot\u00e9is e Restaurantes e a Associa\u00e7\u00e3o dos Criados de Mesa. Processo de que resulta a cria\u00e7\u00e3o da Associa\u00e7\u00e3o de Classe dos Empregados na Ind\u00fastria Hoteleira e Profiss\u00f5es Anexas<\/span><a title=\"\" href=\"#_ftn99\"><b><span style=\"text-decoration: underline\"><span style=\"color: #0066cc\">[99]<\/span><\/span><\/b><\/a><span style=\"color: #000000;font-family: Arial;font-size: medium\">. Em 1932, integram-se na associa\u00e7\u00e3o resultante da fus\u00e3o, as associa\u00e7\u00f5es dos Culin\u00e1rios e a dos Corretores de Hot\u00e9is de Lisboa, integra\u00e7\u00e3o a que se segue o ingresso colectivo dos int\u00e9rpretes, que criam uma sec\u00e7\u00e3o profissional dentro do sindicato.<\/span><a title=\"\" href=\"#_ftn100\"><b><span style=\"text-decoration: underline\"><span style=\"color: #0066cc\">[100]<\/span><\/span><\/b><\/a><\/span><\/b><\/p>\n<p><b><span style=\"text-decoration: underline\"><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Estava assim constitu\u00eddo o sindicato \u00fanico da hotelaria em Lisboa, com cerca de 2 mil s\u00f3cios.<\/span><a title=\"\" href=\"#_ftn101\"><b><span style=\"text-decoration: underline\"><span style=\"color: #0066cc\">[101]<\/span><\/span><\/b><\/a><span style=\"color: #000000;font-size: medium\"> \u00danico, porque o seu \u00e2mbito abrangia todos os trabalhadores da ind\u00fastria hoteleira. Mas na verdade, j\u00e1 n\u00e3o era \u00fanico, porque entretanto o grupo divisionista tinha constitu\u00eddo em 1931, o sindicato que s\u00f3 admitia \u00abnacionais\u00bb, na Rua da Oliveira ao Carmo<\/span><\/span><\/b><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">.<\/span><\/p>\n<p><b><span style=\"text-decoration: underline\"><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">No dia 30 de Abril de 1933, o sindicato que resultou do processo de reorganiza\u00e7\u00e3o festejou o 29\u00ba anivers\u00e1rio. Data que resulta do facto de ter sido considerada a funda\u00e7\u00e3o da Associa\u00e7\u00e3o dos Criados de Mesa, em Abril de 1904, a mais antiga das que se fundiram, como data refer\u00eancia para o efeito. <\/span><\/span><\/b><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Na sess\u00e3o comemorativa, onde por determina\u00e7\u00e3o das autoridades s\u00f3 puderam usar da palavra os filiados na Associa\u00e7\u00e3o, fizeram-se representar 20 associa\u00e7\u00f5es de classe, de que se destacam, a dos tip\u00f3grafos, os correios e tel\u00e9grafos, a Carris, os alfaiates, os ferrovi\u00e1rios, os tabacos, os m\u00fasicos, os banc\u00e1rios, os carregadores das margens do Tejo, os fragateiros, os vendedores de leite, os f\u00f3sforos de Lisboa, os confeiteiros, e a do Arsenal da Marinha<\/span><a title=\"\" href=\"#_ftn102\"><span style=\"color: #0066cc\">[102]<\/span><\/a><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">. A sess\u00e3o solene terminou com um minuto de sil\u00eancio em homenagem aos sete arsenalistas do ex\u00e9rcito que pereceram incinerados na horrorosa cat\u00e1strofe de Barcarena.<\/span><\/p>\n<p><b><span style=\"text-decoration: underline\"><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">A primeira direc\u00e7\u00e3o da Associa\u00e7\u00e3o depois das fus\u00f5es, que tem Pinho Ribeiro como Presidente e Quintela Maia como tesoureiro, assume como medidas reivindicativas imediatas, forcejar pela a extin\u00e7\u00e3o da gorjeta, a revoga\u00e7\u00e3o do decreto que descrimina os galegos no trabalho, e a negocia\u00e7\u00e3o de regulamentos colectivos que definam os deveres e direitos de cada profiss\u00e3o no exerc\u00edcio das suas fun\u00e7\u00f5es.<\/span><a title=\"\" href=\"#_ftn103\"><b><span style=\"text-decoration: underline\"><span style=\"color: #0066cc\">[103]<\/span><\/span><\/b><\/a><\/span><\/b><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Na composi\u00e7\u00e3o da massa associativa e dos corpos gerentes havia activistas filiados ou simpatizantes de todos os credos pol\u00edticos. Mas a corrente mais influente era a dos socialistas, seguida dos anarquistas, tendo os dois grupos como refer\u00eancias de linha sindical a seguir, as centrais sindicais espanholas UGT e CNT, respectivamente. Havia tamb\u00e9m alguns simpatizantes comunistas, como indiciam algumas posi\u00e7\u00f5es da associa\u00e7\u00e3o, cita\u00e7\u00f5es e artigos publicados no jornal. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Uma das formas que neste per\u00edodo os sindicalistas encontraram de criticar o fascismo, no plano interno, e de lhe contraporem o socialismo era atrav\u00e9s da publica\u00e7\u00e3o de cita\u00e7\u00f5es antag\u00f3nicas, no jornal. Seleccionavam e publicavam algumas das afirma\u00e7\u00f5es e teses mais caracter\u00edsticas dos amigos de Salazar, Hitler e Mussolini, e na mesma edi\u00e7\u00e3o, inseriam cita\u00e7\u00f5es apropriadas de Marx, Engels e outros, em contraposi\u00e7\u00e3o. Em 1933, os comunistas Vladimir Ilitch<\/span><a title=\"\" href=\"#_ftn104\"><span style=\"color: #0066cc\">[104]<\/span><\/a><span style=\"color: #000000;font-size: medium\"> e Losowski passaram a ser alguns dos citados, em <\/span><span style=\"color: #000000;font-family: Arial;font-size: medium\"><i>O Dever.<\/i><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: medium\"><span style=\"color: #000000\">Mas as tend\u00eancias minorit\u00e1rias aceitavam sem grande contesta\u00e7\u00e3o que a Associa\u00e7\u00e3o girasse em torno da mais pequena das tr\u00eas centrais sindicais portuguesas. A Federa\u00e7\u00e3o das Associa\u00e7\u00f5es Oper\u00e1rias de Lisboa \u2013 FAO, de influencia socialista. <span style=\"font-family: Arial\"><b><span style=\"text-decoration: underline\">A filia\u00e7\u00e3o definitiva da Associa\u00e7\u00e3o na FAO foi aprovada apenas com um voto contra na assembleia-geral de 24 de Julho de 1933.<\/span><\/b><\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Nesta mesma assembleia foi eleita uma comiss\u00e3o para elaborar um estudo sobre a adop\u00e7\u00e3o da taxa de servi\u00e7o nos hot\u00e9is.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Nos primeiros anos, a resist\u00eancia politica \u00e0 Ditadura \u00e9 principalmente levada a cabo pelos republicanos que, com os partidos desacreditados e desmoronados, se constituem em grupos de civis e militares dedicados a organizar tentativas de \u00abreviralho\u00bb, nas quais se envolvem habitualmente os anarco-sindicalistas e boa parte dos sindicalistas comunistas que, por n\u00e3o terem uma direc\u00e7\u00e3o politica consistente, acabam por ser apenas tropa de choque no plano social e seguir a reboque do \u00abreviralhismo\u00bb dos republicanos.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">S\u00f3 o Partido Comunista sob a direc\u00e7\u00e3o de Bento Gon\u00e7alves se apercebe que a luta contra a Ditadura exige novos m\u00e9todos e novas formas de organiza\u00e7\u00e3o, para o que se est\u00e1 a preparar, atrav\u00e9s da reorganiza\u00e7\u00e3o, que implica a adop\u00e7\u00e3o da doutrina de Lenine sobre o partido de novo tipo, com novas formas org\u00e2nicas e de ac\u00e7\u00e3o que lhe v\u00e3o permitir resistir e actuar mesmo nas dif\u00edceis condi\u00e7\u00f5es da clandestinidade.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: medium\"><span style=\"color: #000000\"><span style=\"font-family: Arial\">\u00a0 <\/span>No espa\u00e7o de tr\u00eas anos ap\u00f3s a realiza\u00e7\u00e3o da confer\u00eancia que despoletou o processo de reorganiza\u00e7\u00e3o, em Abril de 1929, onde Bento Gon\u00e7alves foi eleito Secret\u00e1rio-geral, o Partido ganhou implanta\u00e7\u00e3o e prestigio junto dos trabalhadores, e os sindicatos vermelhos, de influ\u00eancia comunista, ultrapassaram a representatividade dos anarquistas da CGT.<\/span><\/span><a title=\"\" href=\"#_ftn105\"><span style=\"color: #0066cc\">[105]<\/span><\/a><\/p>\n<p><i><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">\u00abQuase todos n\u00f3s prov\u00ednhamos do movimento sindical, onde uns \u00e9ramos mais velhos, outros mais novos. E isto explica a aten\u00e7\u00e3o politica que os sindicatos nos mereceram\u00bb<\/span><a title=\"\" href=\"#_ftn106\"><b><span style=\"color: #0066cc\">[106]<\/span><\/b><\/a><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">,<\/span><\/i><span style=\"color: #000000;font-size: medium\"> diz<i><\/i>o Secret\u00e1rio-geral do PCP.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">A contesta\u00e7\u00e3o a uma das traves mestras da ideologia fascista, a nega\u00e7\u00e3o da luta de classes, tendo por base a ideia de que os interesses do trabalho e do capital s\u00e3o os mesmos, corporizada na constitui\u00e7\u00e3o de organismos corporativos de concerta\u00e7\u00e3o social compostos por patr\u00f5es, representantes do Governo e trabalhadores, foi a mola ideol\u00f3gica que impulsionou a cria\u00e7\u00e3o da Comiss\u00e3o Inter-Sindical, no in\u00edcio do m\u00eas de Mar\u00e7o, em 1930.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Na discuss\u00e3o desencadeada no movimento sindical sobre a entrada ou n\u00e3o para as comiss\u00f5es parit\u00e1rias e tripartidas propostas pelo Governo fascista, defrontavam-se duas t\u00e1cticas: a dos socialistas, que conduzia \u00e0 participa\u00e7\u00e3o e ao colaboracionismo, e a dos comunistas, que preconizavam a n\u00e3o participa\u00e7\u00e3o e a independ\u00eancia dos sindicatos face ao patronado e ao Estado burgu\u00eas.<\/span><a title=\"\" href=\"#_ftn107\"><span style=\"color: #0066cc\">[107]<\/span><\/a><span style=\"font-size: medium\"><span style=\"color: #000000\"><span style=\"font-family: Arial\">\u00a0 <\/span>Por sua vez, os anarquistas mantinham-se fi\u00e9is ao princ\u00edpio de nada quererem saber do que quer que tivesse a ver com o Estado, apenas queriam v\u00ea-lo destru\u00eddo. O que objectivamente os colocava numa posi\u00e7\u00e3o convergente com os comunistas nesta quest\u00e3o.<\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Quando o Sindicato dos Empregados do Com\u00e9rcio e Ind\u00fastria e a Associa\u00e7\u00e3o dos Caixeiros foram convidados pelo Governo a integrar uma comiss\u00e3o tripartida para o estudo da lei do hor\u00e1rio de trabalho, e queriam faz\u00ea-lo, embora com o apoio dos restantes sindicatos de Lisboa, convocaram uma reuni\u00e3o de sindicatos que veio a realizar-se a 25 de Fevereiro de 1930, na sede do Sindicato do Pessoal Ferrovi\u00e1rio da CP.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Nesta reuni\u00e3o reinou a maior das confus\u00f5es. A CGT n\u00e3o tomou posi\u00e7\u00e3o oficial. Os sindicatos da constru\u00e7\u00e3o civil e dos arsenalistas do ex\u00e9rcito n\u00e3o estavam contra. S\u00f3 o sindicato dos arsenalistas da Marinha, pela voz de Bento Gon\u00e7alves rejeitou claramente o convite do Governo, e apresentou uma mo\u00e7\u00e3o para \u00ab<\/span><i><span style=\"color: #000000;font-family: Arial;font-size: medium\">a constitui\u00e7\u00e3o duma Comiss\u00e3o dos Sindicatos de Lisboa, de car\u00e1cter permanente, tendo por tarefa tratar da situa\u00e7\u00e3o dos trabalhadores, particularmente das quest\u00f5es do hor\u00e1rio de trabalho e do desemprego\u00bb<\/span><a title=\"\" href=\"#_ftn108\"><b><span style=\"color: #0066cc\">[108]<\/span><\/b><\/a><span style=\"color: #000000;font-family: Arial;font-size: medium\">.<\/span><\/i><span style=\"color: #000000;font-size: medium\"> Uma Comiss\u00e3o exclusivamente constitu\u00edda por sindicatos com objectivos mais amplos do que a quest\u00e3o do hor\u00e1rio.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: medium\"><span style=\"color: #000000\"><span style=\"font-family: Arial\">\u00a0<\/span>Dos sindicatos presentes, 14 apoiaram a mo\u00e7\u00e3o dos arsenalistas da Marinha, e 7 votaram contra. <\/span><\/span><\/p>\n<p><b><span style=\"text-decoration: underline\"><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">A Associa\u00e7\u00e3o de Classe dos Empregados da Industria Hoteleira e profiss\u00f5es Anexas, presente nesta reuni\u00e3o, alinhou com o grupo dos que queriam integrar a comiss\u00e3o parit\u00e1ria, oficial.<\/span><\/span><\/b><\/p>\n<p><b><span style=\"text-decoration: underline\"><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">J\u00e1 a Associa\u00e7\u00e3o dos Profissionais Culin\u00e1rios, cujo Presidente \u00e9 Aleu Rocha, que \u00e0 data ainda n\u00e3o se tinha fundido com a outra associa\u00e7\u00e3o da hotelaria inclinou-se para o grupo dos n\u00e3o participacionistas.<\/span><\/span><\/b><\/p>\n<p><b><span style=\"text-decoration: underline\"><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">A Comiss\u00e3o Inter-Sindical \u2013 CIS, iria assim ser uma realidade, formalizada dez dias depois numa segunda reuni\u00e3o, realizada a 6 de Mar\u00e7o no Sindicato do Arsenal da Marinha, no dia da jornada internacional contra o \u00abch\u00f4mage\u00bb<\/span><a title=\"\" href=\"#_ftn109\"><b><span style=\"text-decoration: underline\"><span style=\"color: #0066cc\">[109]<\/span><\/span><\/b><\/a><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">. <\/span><\/span><\/b><\/p>\n<p><b><span style=\"text-decoration: underline\"><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">A esta reuni\u00e3o aparecem novas associa\u00e7\u00f5es e faltam algumas das que estiveram na anterior, entre as quais, a da Industria Hoteleira. Mas a Associa\u00e7\u00e3o de Classe dos Profissionais Culin\u00e1rios est\u00e1 presente, e \u00e9 eleita para a Comiss\u00e3o Inter-Sindical, juntamente<\/span><\/span><\/b><span style=\"color: #000000;font-size: medium\"> com os Manufactores de Cal\u00e7ado, Compositores Tipogr\u00e1ficos, Maquinistas Fluviais, Constru\u00e7\u00e3o Civil, Arsenalistas da Marinha e barbeiros, sob proposta apresentada pelo delegado dos Alfaiates<\/span><a title=\"\" href=\"#_ftn110\"><span style=\"color: #0066cc\">[110]<\/span><\/a><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">O interesses comuns dos trabalhadores e a posi\u00e7\u00e3o convergente quanto \u00e0 n\u00e3o participa\u00e7\u00e3o na Comiss\u00e3o proposta pelo Governo levaram comunistas e anarquistas a unirem-se nesta primeira Comiss\u00e3o Inter \u2013 Sindical eleita, ficando de fora apenas os que defendiam a participa\u00e7\u00e3o na comiss\u00e3o tripartida. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Alem da elei\u00e7\u00e3o, os sindicalistas presentes discutiram a quest\u00e3o do o hor\u00e1rio de trabalho, em particular o n\u00e3o cumprimento da lei por parte do patronato. Era uma das quest\u00f5es mais candentes para trabalhadores e para movimento sindical e, a par da luta contra o desemprego foi um dos eixos principais unificadores em torno dos quais nasceu e se desenvolveu a CIS.<\/span><\/p>\n<p><b><span style=\"text-decoration: underline\"><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Em Abril, num dos seus primeiros documentos, a CIS exige que o hor\u00e1rio de trabalho de oito horas seja tamb\u00e9m extensivo aos camponeses e aos trabalhadores dos Hot\u00e9is, C<\/span><\/span><\/b><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">af\u00e9s e restaurantes.<\/span><a title=\"\" href=\"#_ftn111\"><span style=\"color: #0066cc\">[111]<\/span><\/a><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">\u00c9 todo um processo de reorganiza\u00e7\u00e3o sindical que \u00e9 levado a cabo por todas as tend\u00eancias sindicais existentes nesta altura, onde se inserem tamb\u00e9m as fus\u00f5es que ocorrem na hotelaria.<\/span><\/p>\n<p><b><span style=\"text-decoration: underline\"><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Os socialistas, na sua tentativa de aumentarem a influ\u00eancia no movimento sindical, privilegiam a cria\u00e7\u00e3o de associa\u00e7\u00f5es de classe em zonas brancas e a reactiva\u00e7\u00e3o de outras que estavam inactivas. Tudo indica que no decorrer do processo de reestrutura\u00e7\u00e3o iniciado em 1929 na Associa\u00e7\u00e3o dos Hot\u00e9is Caf\u00e9s e Restaurantes, esta se transformou na mais importante organiza\u00e7\u00e3o onde a influ\u00eancia socialista era maiorit\u00e1ria.<\/span><\/span><\/b><\/p>\n<p><b><span style=\"text-decoration: underline\"><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">A FAO de Lisboa, criada em Fevereiro de 1931, na sua primeira reuni\u00e3o a 9 de Mar\u00e7o, elege Jos\u00e9 Pinho Ribeiro, Presidente da Associa\u00e7\u00e3o da Hotelaria para a Comiss\u00e3o Executiva<\/span><\/span><\/b><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">,<\/span><a title=\"\" href=\"#_ftn112\"><span style=\"color: #0066cc\">[112]<\/span><\/a><span style=\"color: #000000;font-family: Arial;font-size: medium\"><b><span style=\"text-decoration: underline\">e passa a ser liderada por Jos\u00e9 Augusto Machado, destacado sindicalista socialista ligado \u00e0 Associa\u00e7\u00e3o. A sede da ef\u00e9mera central sindical regional foi a mesma da Associa\u00e7\u00e3o, na Travessa dos Inglesinhos.<\/span><\/b><\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">O desaparecimento do Partido Socialista em 1933 teve tamb\u00e9m como consequ\u00eancia o fim da pequena tend\u00eancia sindical que suportava ficando os activistas sindicais entregues a si pr\u00f3prios, desmobilizando-se, ou juntando-se aos anarquistas ou aos comunistas.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Foi neste longo processo de luta e reorganiza\u00e7\u00e3o que se caldearam e refor\u00e7aram as caracter\u00edsticas unit\u00e1rias, democr\u00e1ticas, de massas, de independ\u00eancia e de classe do movimento sindical unit\u00e1rio ao longo dos anos, na pr\u00f3pria clandestinidade, e que ainda hoje s\u00e3o princ\u00edpios fundamentais do sindicalismo consubstanciado na actual CGTP-INTERSINDICAL NACIONAL.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Sindicalismo que mant\u00e9m como marca distintiva uma cultura e pr\u00e1ticas sindicais, que alia \u00e0 luta reivindicativa econ\u00f3mica e por direitos laborais a luta politica por direitos fundamentais.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div>\n<p><a title=\"\" href=\"#_ftnref97\">[97]<\/a> <i>A Defesa<\/i>, n\u00ba 113, de 2 de Outubro de 1919, fls. 1<\/p>\n<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div>\n<p><a title=\"\" href=\"#_ftnref98\">[98]<\/a> <i>A Defesa, <\/i>n\u00ba 135, de 1 de Maio de 1923, fls. 2<\/p>\n<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div>\n<p><a title=\"\" href=\"#_ftnref99\">[99]<\/a> <i>O Dever, <\/i>n\u00ba 7, de 10 de Maio de 1933, fls. 3<\/p>\n<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div>\n<p><a title=\"\" href=\"#_ftnref100\">[100]<\/a> Ibidem<\/p>\n<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div>\n<p><a title=\"\" href=\"#_ftnref101\">[101]<\/a> <i>O Dever,<\/i> n\u00ba 6, de 10 de Abril de 1933 fls. 4<\/p>\n<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div>\n<p><a title=\"\" href=\"#_ftnref102\">[102]<\/a> Ibidem<\/p>\n<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div>\n<p><a title=\"\" href=\"#_ftnref103\">[103]<\/a> <i>O Dever,<\/i> n\u00ba 4 de 10 de Fevereiro de 1933<\/p>\n<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div>\n<p><a title=\"\" href=\"#_ftnref104\">[104]<\/a> Nome de fam\u00edlia de LENINE, que em regra era desconhecido dos censores, que apenas conheciam o nome de guerra do revolucion\u00e1rio russo.<\/p>\n<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div>\n<p><a title=\"\" href=\"#_ftnref105\">[105]<\/a> Gon\u00e7alves, Bento, Op. Cit.<\/p>\n<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div>\n<p><a title=\"\" href=\"#_ftnref106\">[106]<\/a> Idem.\u00a0 Op. Cit. p. 125<\/p>\n<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div>\n<p><a title=\"\" href=\"#_ftnref107\">[107]<\/a> Ibid. p. 127<\/p>\n<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div>\n<p><a title=\"\" href=\"#_ftnref108\">[108]<\/a> Ibid. p. 128<\/p>\n<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div>\n<p><a title=\"\" href=\"#_ftnref109\">[109]<\/a> ibid,. p. 129<\/p>\n<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div>\n<p><a title=\"\" href=\"#_ftnref110\">[110]<\/a> <i>O Prolet\u00e1rio,<\/i> n\u00ba 24, de 29 de Mar\u00e7o de 1930, p. 5<\/p>\n<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div>\n<p><a title=\"\" href=\"#_ftnref111\">[111]<\/a> <i>O Prolet\u00e1rio, <\/i>n\u00ba 26 de 1 de Maio de 1930, p. 4<\/p>\n<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div>\n<p><a title=\"\" href=\"#_ftnref112\">[112]<\/a>\u00a0 Patriarca, F\u00e1tima Op. Cit. vol I p. 113<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h3><strong><span style=\"color: #000000;font-family: Arial\">A CLASSE NA GREVE GERAL DE 18 DE FEVEREIRO DE 1934, A COOPERATIVA COMO REF\u00daGIO, A CLANDESTINIDADE<\/span><\/strong><\/h3>\n<p><b><span style=\"text-decoration: underline\"><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">O ano de 1933 foi o ano da consolida\u00e7\u00e3o do fascismo. Ap\u00f3s a promulga\u00e7\u00e3o da constitui\u00e7\u00e3o, \u00e9 publicado em Setembro, para entrar em vigor no dia 1 de Janeiro de 1934, o pacote laboral salazarista de seis decretos que, no que respeita aos sindicatos constitui um terramoto devastador.<\/span><\/span><\/b><\/p>\n<p><b><span style=\"text-decoration: underline\"><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Obrigava-os a um figurino \u00fanico, a negar expressamente a luta de classes nos estatutos, a sujeitar os corpos gerentes \u00e0 aprova\u00e7\u00e3o do Governo, que tamb\u00e9m se outorgava o poder de demitir as direc\u00e7\u00f5es se estas n\u00e3o lhe agradassem e de nomear comiss\u00f5es administrativas da confian\u00e7a do regime para o seu lugar. <\/span><\/span><\/b><\/p>\n<p><b><span style=\"text-decoration: underline\"><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">A lei sindical fascista previa ainda a dissolu\u00e7\u00e3o administrativa dos sindicatos \u00abque se desviassem dos seus fins\u00bb, proibia as centrais sindicais, a constitui\u00e7\u00e3o de federa\u00e7\u00f5es de sindicatos e a filia\u00e7\u00e3o internacional. Os trabalhadores da fun\u00e7\u00e3o p\u00fablica, os pescadores e os agr\u00edcolas ficavam impedidos de formar sindicatos, mesmo que fossem do figurino corporativo imposto.<\/span><\/span><\/b><\/p>\n<p><b><span style=\"text-decoration: underline\"><span style=\"font-size: medium\"><span style=\"color: #000000\"><span style=\"font-family: Arial\">\u00a0<\/span>Os sindicatos n\u00e3o demoram em come\u00e7ar a preparar a resposta ao Ditador.<\/span><\/span><\/span><\/b><\/p>\n<p><b><span style=\"text-decoration: underline\"><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">A 7 de Agosto de 1933, ap\u00f3s a divulga\u00e7\u00e3o p\u00fablica dos projectos de lei que visavam a liquida\u00e7\u00e3o dos sindicatos, a CIS, liderada por Jos\u00e9 de Sousa, envia uma carta \u00aba toda a organiza\u00e7\u00e3o sindical oper\u00e1ria\u00bb<\/span><a title=\"\" href=\"#_ftn113\"><b><span style=\"text-decoration: underline\"><span style=\"color: #0066cc\">[113]<\/span><\/span><\/b><\/a><span style=\"color: #000000;font-size: medium\"> em que prop\u00f5e a realiza\u00e7\u00e3o de uma Greve Geral contra a lei sindical fascista. <\/span><\/span><\/b><\/p>\n<p><b><span style=\"text-decoration: underline\"><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">A carta termina com a proposta de constitui\u00e7\u00e3o de uma \u00abfrente \u00fanica\u00bb a formar pela CIS, a CGT e a Federa\u00e7\u00e3o dos Transportes. <\/span><\/span><\/b><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Exclu\u00edam, nesta fase, a \u00abFAO social reformista\u00bb por considerarem que esta, \u00ab\u00e0 sombra da protec\u00e7\u00e3o governamental, levava o proletariado \u00e0 capitula\u00e7\u00e3o e \u00e0 confus\u00e3o de classes e, ou em \u00faltima an\u00e1lise, ao fascismo\u00bb.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Por sua vez, a CGT re\u00fane o seu Conselho Federal a 25 de Agosto, e desta reuni\u00e3o sai luz verde para um entendimento com \u00abas restantes for\u00e7as do proletariado\u00bb<\/span><\/p>\n<p><b><span style=\"text-decoration: underline\"><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Entretanto, a FAO de Lisboa, liderada por Jos\u00e9 Augusto Machado (ligado \u00e0 Associa\u00e7\u00e3o de Classe da hotelaria) tudo indica que \u00e0 revelia do seu partido, o Partido Socialista, que n\u00e3o apoiava a ideia da greve geral, chegara \u00ab\u00e0 conclus\u00e3o de que s\u00f3 pela ac\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria se poderia lutar contra a legisla\u00e7\u00e3o fascista\u00bb e prop\u00f5e-se participar na luta em prepara\u00e7\u00e3o, colocando para tal, como condi\u00e7\u00e3o, ter representantes no comit\u00e9 nacional.<\/span><\/span><\/b><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Como sempre acontece na dif\u00edcil tarefa de constru\u00e7\u00e3o da unidade sindical para a ac\u00e7\u00e3o comum entre organiza\u00e7\u00f5es de op\u00e7\u00f5es politicas e ideol\u00f3gicas diferentes e de concep\u00e7\u00e3o e pr\u00e1ticas sindicais distintas, os obst\u00e1culos a vencer foram muitos.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Mas, os sindicalistas acabaram por acordar no conte\u00fado de um manifesto conjunto, e na composi\u00e7\u00e3o e fun\u00e7\u00f5es da Frente \u00danica, salvaguardando a autonomia de organiza\u00e7\u00e3o e de informa\u00e7\u00e3o e propaganda de cada organiza\u00e7\u00e3o integrante. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">A CGT, embora afirmando que n\u00e3o abdicaria \u00abde deixar de figurar como a central oper\u00e1ria, orientadora do movimento sindicalista revolucion\u00e1rio\u00bb \u00e9 aquela que faz a concess\u00e3o de princ\u00edpio de maior vulto. Pois, embora afirmando que n\u00e3o abdicaria de ser a \u00fanica central sindical leg\u00edtima, a verdade \u00e9 que com a constitui\u00e7\u00e3o da Frente \u00danica reconhece de facto a CIS, o que at\u00e9 \u00e0 data se tinha recusado a fazer.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: medium\"><span style=\"color: #000000\"><span style=\"font-family: Arial\">\u00a0 <\/span>A CIS abdica de parte das reivindica\u00e7\u00f5es que prop\u00f5e, faz concess\u00f5es na proposta de composi\u00e7\u00e3o da Frente \u00danica e aceita a participa\u00e7\u00e3o da FAO de Lisboa, sob a condi\u00e7\u00e3o de esta se entender com a FAO do Porto para que ambas participem, e assim esteja representado \u00abo movimento social-democrata do pa\u00eds\u00bb. Isto, apesar de considerar que a posi\u00e7\u00e3o de Augusto Machado se deve ao facto de ter medo de perder o p\u00e9 nas associa\u00e7\u00f5es que influencia, e n\u00e3o porque esteja sinceramente empenhado na luta.<\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Mais tarde, sob pris\u00e3o, Augusto Machado parece dar raz\u00e3o aos que duvidavam do seu empenhamento, porque, embora admitindo ter pertencido \u00e0 Frente \u00danica, negar\u00e1 perante a pol\u00edcia politica que a FAO tenha feito qualquer esfor\u00e7o na prepara\u00e7\u00e3o da greve, e dir\u00e1 \u00abter recebido ordens terminantes do Partido Socialista para se desligar, desligando, por consequ\u00eancia, a fac\u00e7\u00e3o que ali representava\u00bb.<\/span><a title=\"\" href=\"#_ftn114\"><span style=\"color: #0066cc\">[114]<\/span><\/a><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Mas nada nos diz que estas declara\u00e7\u00f5es n\u00e3o tenham sido feitas para tentar n\u00e3o ser condenado, o que, se foi assim, conseguiu, visto que o Tribunal Militar Especial o veio a despronunciar, em finais de Fevereiro de 1934.<\/span><a title=\"\" href=\"#_ftn115\"><span style=\"color: #0066cc\">[115]<\/span><\/a><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Todavia, h\u00e1 informa\u00e7\u00f5es contradit\u00f3rias nesta quest\u00e3o. O Secret\u00e1rio-geral da CGT, M\u00e1rio Castelhano, confirma que, por acordo da CGT e da FAO, as desloca\u00e7\u00f5es preparat\u00f3rias da greve a Estremoz, Abrantes, Portalegre e Campo Maior, foram feitas por delegados da FAO, qualificando algumas delas de \u00abrazoavelmente bem sucedidas\u00bb.<\/span><a title=\"\" href=\"#_ftn116\"><span style=\"color: #0066cc\">[116]<\/span><\/a><\/p>\n<p><b><span style=\"text-decoration: underline\"><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Seja como for, desta vez, as organiza\u00e7\u00f5es sindicais n\u00e3o cometeram o mesmo erro de 1926, agindo cada uma para seu lado. Ap\u00f3s as longas, conflituosas e dif\u00edceis negocia\u00e7\u00f5es foi finalmente formada t\u00e3o almejada Frente \u00danica, constitu\u00edda pela CIS (comunista), a CGT (anarquista), a FAO (socialista), a Comiss\u00e3o dos sindicatos Aut\u00f3nomos, e a Comiss\u00e3o de Trabalhadores do Estado.<\/span><\/span><\/b><\/p>\n<p><b><span style=\"text-decoration: underline\"><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Dos 754 sindicatos existentes, apenas 57 tinham aceite adaptar-se \u00e0 lei fascista, e destes, alguns, como era o caso na hotelaria, provinham de cis\u00f5es nas associa\u00e7\u00f5es de classe promovidas por adeptos do novo regime.<\/span><\/span><\/b><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">O \u00faltimo n\u00famero de <i><span style=\"font-family: Arial\">O Dever, <\/span><\/i>que anuncia a sua pr\u00f3pria suspens\u00e3o por motivos contr\u00e1rios \u00e0 sua vontade, <\/span><i><span style=\"color: #000000;font-family: Arial;font-size: medium\">\u00abn\u00e3o sabemos quanto tempo durar\u00e1 a suspens\u00e3o, talvez muito, talvez pouco ou talvez n\u00e3o volte a publicar-se\u00bb<\/span><a title=\"\" href=\"#_ftn117\"><b><span style=\"color: #0066cc\">[117]<\/span><\/b><\/a><\/i><span style=\"color: #000000;font-size: medium\"> d\u00e1 voz a outro grito de ang\u00fastia da associa\u00e7\u00e3o de classe dos trabalhadores de hotelaria. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Num balan\u00e7o dram\u00e1tico, em que se adivinham maus press\u00e1gios para o futuro, os dirigentes da Associa\u00e7\u00e3o fazem quest\u00e3o de acentuar que sempre se pautaram pela solu\u00e7\u00e3o dos conflitos dentro da lei, obedecendo inclusive \u00e0 notifica\u00e7\u00e3o da autoridade quando esta os avisou que nenhum estrangeiro poderia fazer parte dos corpos gerentes, apesar de a ela pertenceram muitos s\u00fabditos espanh\u00f3is. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: medium\"><span style=\"color: #000000\">\u00abH<span style=\"font-family: Arial\"><i>avendo certos per\u00edodos da vida colectiva em que foram eles os principais sustent\u00e1culos da organiza\u00e7\u00e3o, n\u00e3o deixando nunca de obedecer \u00e0 lei (\u2026)<\/i><\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p><i><span style=\"font-size: medium\"><span style=\"color: #000000\"><span style=\"font-family: Arial\">\u00a0<\/span>Estranham, por isso, que tendo sempre cumprido com os seus deveres sociais n\u00e3o se lhes reconhe\u00e7a agora o direito de continuarem defendendo os seus pontos de vista na sua organiza\u00e7\u00e3o, obrigando-os a filiarem-se num organismo dirigido pelos seus ferozes inimigos.<\/span><\/span><\/i><\/p>\n<p><i><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Por isso, todos os componentes da organiza\u00e7\u00e3o est\u00e3o firmemente dispostos a preferir o desaparecimento da sua organiza\u00e7\u00e3o, a terem de render vassalagem aos que em todas as conjuras os guerrearam, e preferem robustecer a sua cooperativa, e dentro dela viverem colectivamente, a entregarem-se manietados, \u00e0 vontade dos dissidentes da sua organiza\u00e7\u00e3o.\u00bb<\/span><a title=\"\" href=\"#_ftn118\"><b><span style=\"color: #0066cc\">[118]<\/span><\/b><\/a><\/i><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">A assump\u00e7\u00e3o expressa da cooperativa como ref\u00fagio significava em si, sentirem-se e considerarem-se derrotados \u00e0 partida, antes da refrega, e darem o ouro ao bandido, \u00abos nacionais\u00bb, sem luta.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">N\u00e3o foram os \u00fanicos dos que n\u00e3o aceitaram a lei corporativa a tentar dar continuidade legal \u00e0 sua associa\u00e7\u00e3o de classe atrav\u00e9s da sua transforma\u00e7\u00e3o noutro tipo de organiza\u00e7\u00e3o. O Sindicato dos Banc\u00e1rios de Portugal conseguiu obter o alvar\u00e1 para um \u00abGr\u00e9mio dos Empregados Banc\u00e1rios\u00bb.<\/span><a title=\"\" href=\"#_ftn119\"><span style=\"color: #0066cc\">[119]<\/span><\/a><span style=\"color: #000000;font-size: medium\"> Outros tentaram transformar-se em associa\u00e7\u00f5es culturais, recreativas e desportivas. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Mas estes artif\u00edcios eram demasiado ing\u00e9nuos e vis\u00edveis para escaparem \u00e0 vigil\u00e2ncia da pol\u00edcia politica. \u00c1s primeira tentativas do g\u00e9nero, o Governo tomou medidas para as impedir, considerando-as \u00abm\u00e1scaras legais\u00bb para \u00abuma organiza\u00e7\u00e3o de classe absolutamente ilegal\u00bb<\/span><a title=\"\" href=\"#_ftn120\"><span style=\"color: #0066cc\">[120]<\/span><\/a><\/p>\n<p><b><span style=\"text-decoration: underline\"><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Mesmo assim, Associa\u00e7\u00e3o da hotelaria apoiou a proposta de greve geral, e envolveu-se na sua prepara\u00e7\u00e3o. Chegaram mesmo a fazer das tripas cora\u00e7\u00e3o, e, em prol da unidade, foram falar com os \u00abnacionais\u00bb que mais tarde, interpretam assim a dilig\u00eancia: <\/span><\/span><\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-size: medium\"><span style=\"color: #000000\"><span style=\"font-family: Arial\">\u00a0<\/span>\u00ab<i><span style=\"font-family: Arial\">Os chefes<\/span><\/i> <span style=\"font-family: Arial\"><i>das classes oper\u00e1rias acabam de escrever mais uma p\u00e1gina de sangue nos anais da vida dos oper\u00e1rios portugueses (\u2026) A classe a que pertencemos foi uma das mais flageladas pelos chefes, onde nestes \u00faltimos tempos, fabulavam, chegando a ter na sua sede da Travessa dos Inglezinhos, a direc\u00e7\u00e3o das federa\u00e7\u00f5es e confedera\u00e7\u00f5es gerais (\u2026)<\/i><\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p><i><span style=\"font-size: medium\"><span style=\"color: #000000\"><span style=\"font-family: Arial\">\u00a0<\/span>Para a greve geral, abordaram alguns elementos do \u00absindicato nacional\u00bb, e como a resposta fosse negativa e terminante, fomos tamb\u00e9m inscritos no rol negro, para, caso a arrancada triunfasse, assaltarem o Sindicato e fazerem pagar com a vida a alguns dos que tiveram o atrevimento de os guerrear e de dizer n\u00e3o.\u00bb<\/span><\/span><a title=\"\" href=\"#_ftn121\"><b><span style=\"color: #0066cc\">[121]<\/span><\/b><\/a><\/i><\/p>\n<p><b><span style=\"text-decoration: underline\"><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Os \u00abnacionais\u00bb n\u00e3o se limitaram a recusar aderir \u00e0 Greve Geral, combateram-na, e foram longe no afrontamento e na provoca\u00e7\u00e3o. Marcaram precisamente para o dia 18 de Janeiro, as primeiras elei\u00e7\u00f5es do sindicato ap\u00f3s a adapta\u00e7\u00e3o dos estatutos \u00e0 lei fascista e da publica\u00e7\u00e3o do correspondente alvar\u00e1 corporativo.<\/span><\/span><\/b><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Concorreram ao acto eleitoral duas listas, ganhando a que era encabe\u00e7ada por Manuel Ferreira e tinha como segundo nome, Manuel Mendes Leite Jr.<\/span><a title=\"\" href=\"#_ftn122\"><span style=\"color: #0066cc\">[122]<\/span><\/a><\/p>\n<p><b><span style=\"text-decoration: underline\"><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Os \u00abnacionais\u00bb vangloriavam-se de ter sido os primeiros a aderir ao Estado Novo, e explicavam porqu\u00ea: \u00abas classes oper\u00e1rias s\u00f3 vegetavam ao sabor dos mais audaciosos porque lhes faltava uma doutrina com uma finalidade, e um guia como Salazar.\u00bb<\/span><a title=\"\" href=\"#_ftn123\"><b><span style=\"text-decoration: underline\"><span style=\"color: #0066cc\">[123]<\/span><\/span><\/b><\/a><\/span><\/b><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Saudavam cada \u00absindicato nacional\u00bb que ia surgindo, como um \u00abnovo filho\u00bb do sindicato da hotelaria, tal era o empenhamento que punham ao servi\u00e7o da Ditadura nos seus objectivos de corporativiza\u00e7\u00e3o dos sindicatos.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">O Governo programou e tomou medidas para desmantelar a Greve Geral. Entre as quais, a pris\u00e3o de activistas preponderantes na sua organiza\u00e7\u00e3o. <\/span><\/p>\n<p><b><span style=\"text-decoration: underline\"><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">A Greve Geral de 18 de Fevereiro de 1934 teve ades\u00e3o total em Silves, Sines, Almada, Coimbra, e na Marinha Grande, onde os oper\u00e1rios desarmaram a GNR, ocuparam os correios e telecomunica\u00e7\u00f5es, a C\u00e2mara Municipal, e elegeram um soviete, assumindo o poder pol\u00edtico na vila durante v\u00e1rias horas.<\/span><\/span><\/b><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Em Lisboa e um pouco por todo o pa\u00eds, a ades\u00e3o foi fraca, tendo falhado quase completamente o sector estrat\u00e9gico dos ferrovi\u00e1rios e a Carris de Lisboa. Apenas deixaram de circular alguns comboios que foram alvo de sabotagens e que por esse motivo descarrilaram.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">A repress\u00e3o que se abateu sobre os grevistas foi enorme. A Marinha grande ficou ocupada pelos militares que a retomaram, durante v\u00e1rios dias. Foram feitas milhares de pris\u00f5es em todo o pa\u00eds. Para n\u00e3o serem presos, muitos sindicalistas passaram \u00e0 clandestinidade ou refugiaram-se em Espanha, onde a Rep\u00fablica, que tanta esperan\u00e7a tinha trazido aos revolucion\u00e1rios portugueses, fora implantada h\u00e1 tr\u00eas anos.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Dia 19, Salazar re\u00fane o Conselho de Ministros, assume directamente a direc\u00e7\u00e3o da repress\u00e3o, anuncia a demiss\u00e3o dos funcion\u00e1rios p\u00fablicos que participaram nos acontecimentos, pro\u00edbe as empresas de deixar reentrar os grevistas ao servi\u00e7o, avisa que vai regulamentar a proibi\u00e7\u00e3o da greve, instituir san\u00e7\u00f5es contra os sindicalistas que instiguem \u00e0 greve, e mandar julgar os activistas sindicais presos nos tribunais especiais que havia criado h\u00e1 dois meses.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Em 29 de Abril, morre, sob tortura da pol\u00edcia politica, o dirigente sindical dos ferrovi\u00e1rios e militante do PCP, Manuel Vieira Tom\u00e9. A vers\u00e3o oficial \u00e9 que este se suicidou na sua cela.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Dias depois, morre V\u00edtor Constantino, da fun\u00e7\u00e3o p\u00fablica, destacado sindicalista anarquista e um dos principais dirigentes do \u00ab18 de Janeiro\u00bb, que se encontrava em greve da fome.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">A tortura sobre os prisioneiros por parte da pol\u00edcia torna-se norma.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Em comunicado emitido no m\u00eas de Maio pela \u00abFrac\u00e7\u00e3o dos Comunistas Presos\u00bb, numa altura em que o Tribunal Militar Especial j\u00e1 tinha proferido dezenas de senten\u00e7as, afirma-se, sobre o cataclismo repressivo que se abateu sobre os grevistas: Quatro Mortos! Cinco Loucos! Dezenas de estropiados! 500 Pris\u00f5es! Senten\u00e7as que montam a s\u00e9culos!\u00bb<\/span><a title=\"\" href=\"#_ftn124\"><span style=\"color: #0066cc\">[124]<\/span><\/a><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">A contagem feita na altura pelos comunistas estava ainda aqu\u00e9m da realidade. De facto, foram presos de Norte a Sul do pa\u00eds 696 activistas, ligados \u00e0 Greve Geral. 76 Antes da greve, 599 no pr\u00f3prio dia, e 21 posteriormente<\/span><a title=\"\" href=\"#_ftn125\"><span style=\"color: #0066cc\">[125]<\/span><\/a><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Muitos dos detidos s\u00e3o deportados para os A\u00e7ores, e posteriormente para os campos de concentra\u00e7\u00e3o entretanto criados, em Cabo Verde e Angola, onde uns penaram em alguns casos dezenas de anos at\u00e9 serem libertados, e outros morreram nos calabou\u00e7os de condi\u00e7\u00f5es miser\u00e1veis e propositadamente insalubres e doentias sem chegar a ver a liberdade.<\/span><\/p>\n<p><b><span style=\"text-decoration: underline\"><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">A Greve Geral de 18 de Janeiro tem sido objecto de aprecia\u00e7\u00f5es diversas, na sua maioria, mesmo as oriundas de sectores pol\u00edticos ligados aos trabalhadores, salientando principalmente os erros e as insufici\u00eancias na sua condu\u00e7\u00e3o, concluindo em regra pelo seu fracasso. Onde h\u00e1 heroicidade e resist\u00eancia, grande parte dos analistas s\u00f3 tem visto fraqueza, erros e disparates.<\/span><\/span><\/b><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Mas, n\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil de perceber que com todo o dispositivo repressivo montado pelo Governo de Salazar, n\u00e3o foi apenas por erros de direc\u00e7\u00e3o e organiza\u00e7\u00e3o que a greve n\u00e3o teve maior \u00eaxito.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Se \u00e9 certo que houve erros graves no processo de organiza\u00e7\u00e3o e condu\u00e7\u00e3o da luta, tamb\u00e9m \u00e9 verdade que \u00e9 muito mais f\u00e1cil apontar esses erros \u00e0 posteriori, do que preveni-los antecipadamente.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">\u00c9 verdade que o fascismo n\u00e3o foi derrotado pelo 18 de Janeiro, e dificilmente o teria sido naquela correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as e naquele contexto nacional e internacional, por maior que tivesse sido a ades\u00e3o \u00e0 greve. Mas, tivesse o Ditador sido derrubado, e a hist\u00f3ria e as an\u00e1lises seriam outras.<\/span><\/p>\n<p><b><span style=\"text-decoration: underline\"><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Uma coisa \u00e9 certa. O 18 de Janeiro foi uma resposta corajosa e her\u00f3ica dos trabalhadores portugueses \u00e0 Fascisa\u00e7\u00e3o, de luta pela liberdade, e de defesa dos seus sindicatos.<\/span><\/span><\/b><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-size: medium\">Com os sindicatos encerrados pelo regime fascista e a consequente perda de apoios log\u00edsticos e financeiros, \u00f3rg\u00e3o de imprensa, e grande parte dos dirigentes presos, exilados, ou em deser\u00e7\u00e3o, o movimento sindical foi praticamente decapitado e destro\u00e7ado.<\/span><\/p>\n<p><b><span style=\"text-decoration: underline\"><span style=\"font-size: medium\"><span style=\"color: #000000\"><span style=\"font-family: Arial\">\u00a0<\/span>Mas, os que sobreviveram e continuaram, em condi\u00e7\u00f5es dific\u00edlimas, muitas vezes depois de terem sa\u00eddo ou fugido das pris\u00f5es, na clandestinidade, iniciaram um novo e longo ciclo do sindicalismo e da luta dos trabalhadores portugueses. Um per\u00edodo her\u00f3ico de resist\u00eancia e combate contra a ditadura fascista, em que muitos foram parar \u00e1s masmorras, foram torturados, e pereceram. Ciclo de que sair\u00edamos com o 25 de Abril de 1974, abrindo uma p\u00e1gina de ouro na hist\u00f3ria de Portugal, e na do sindicalismo portugu\u00eas, que iniciou aqui uma das etapas mais pujantes e frutuosas do seu percurso, em benef\u00edcios obtidos para os trabalhadores.<\/span><\/span><\/span><\/b><\/p>\n<div>\n<hr align=\"left\" size=\"1\" width=\"33%\" \/>\n<div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<\/div>\n<div>\n<p><a title=\"\" href=\"#_ftnref113\"><span style=\"color: #0066cc\">[113]<\/span><\/a><span style=\"color: #000000;font-family: Times New Roman;font-size: small\"> BN-AHS, n\u00fac. CGT, caixa 63<\/span><\/p>\n<\/div>\n<div>\n<p><a title=\"\" href=\"#_ftnref114\"><span style=\"color: #0066cc\">[114]<\/span><\/a><span style=\"font-size: small\"><span style=\"color: #000000\"><span style=\"font-family: Times New Roman\"> Auto de declara\u00e7\u00f5es de Jos\u00e9 Augusto Machado de 27-1-34, pr\u00f3. 1011-SPS, citado em <i>Os Sindicatos Contra\u2026<\/i><\/span><\/span><\/span><\/p>\n<\/div>\n<div>\n<p><a title=\"\" href=\"#_ftnref115\"><span style=\"color: #0066cc\">[115]<\/span><\/a><span style=\"font-size: small\"><span style=\"color: #000000\"><span style=\"font-family: Times New Roman\"> PATRIARCA, F\u00e1tima, Op. Cit, p. 505<\/span><\/span><\/span><\/p>\n<\/div>\n<div>\n<p><a title=\"\" href=\"#_ftnref116\"><span style=\"color: #0066cc\">[116]<\/span><\/a><span style=\"color: #000000;font-family: Times New Roman;font-size: small\"> Auto de declara\u00e7\u00f5es de M\u00e1rio Castelhano de 29-1-1934, proc. 1011-SPS<\/span><\/p>\n<\/div>\n<div>\n<p><a title=\"\" href=\"#_ftnref117\"><span style=\"color: #0066cc\">[117]<\/span><\/a><span style=\"color: #000000;font-family: Times New Roman;font-size: small\"> <i>O Dever, <\/i>n\u00ba 14, de 15 de Dezembro de 1933, fls. 4<\/span><\/p>\n<\/div>\n<div>\n<p><a title=\"\" href=\"#_ftnref118\"><span style=\"color: #0066cc\">[118]<\/span><\/a><span style=\"color: #000000;font-family: Times New Roman;font-size: small\"> Ibidem, fls.1<\/span><\/p>\n<\/div>\n<div>\n<p><a title=\"\" href=\"#_ftnref119\"><span style=\"color: #0066cc\">[119]<\/span><\/a><span style=\"font-size: small\"><span style=\"color: #000000\"><span style=\"font-family: Times New Roman\"> Patriarca, F\u00e1tima, <i>A Quest\u00e3o Social no Salazarismo\u2026pp.255,256.<\/i><\/span><\/span><\/span><\/p>\n<\/div>\n<div>\n<p><a title=\"\" href=\"#_ftnref120\"><span style=\"color: #0066cc\">[120]<\/span><\/a><span style=\"font-size: small\"><span style=\"color: #000000\"><span style=\"font-family: Times New Roman\"> Circular do Ministro do Interior, citada em <i>Quest\u00e3o Social\u2026<\/i><\/span><\/span><\/span><\/p>\n<\/div>\n<div>\n<p><a title=\"\" href=\"#_ftnref121\"><span style=\"color: #0066cc\">[121]<\/span><\/a><span style=\"color: #000000;font-family: Times New Roman;font-size: small\"> <i>A Voz da Raz\u00e3o,<\/i> n\u00ba 13, de Janeiro de 1934<\/span><\/p>\n<\/div>\n<div>\n<p><a title=\"\" href=\"#_ftnref122\"><span style=\"color: #0066cc\">[122]<\/span><\/a><span style=\"color: #000000;font-family: Times New Roman;font-size: small\"> <i>Acta, <\/i>da AG, n\u00ba 13 de 18 de Janeiro de 1934<\/span><\/p>\n<\/div>\n<div>\n<p><a title=\"\" href=\"#_ftnref123\"><span style=\"color: #0066cc\">[123]<\/span><\/a><span style=\"color: #000000;font-family: Times New Roman;font-size: small\"> <i>A Voz da Raz\u00e3o<\/i>, n\u00ba 15, de Mar\u00e7o de 1934, fls. 3<\/span><\/p>\n<\/div>\n<div>\n<p><a title=\"\" href=\"#_ftnref124\"><span style=\"color: #0066cc\">[124]<\/span><\/a><span style=\"font-size: small\"><span style=\"color: #000000\"><span style=\"font-family: Times New Roman\"> <i>Avante! <\/i>II s\u00e9rie, n\u00ba 1, de Junho de 1934, Citado em <i>Os Sindicatos Contra\u2026<\/i><\/span><\/span><\/span><\/p>\n<\/div>\n<div>\n<p><a title=\"\" href=\"#_ftnref125\"><span style=\"color: #0066cc\">[125]<\/span><\/a><span style=\"color: #000000;font-family: Times New Roman;font-size: small\"> PATRIARCA, F\u00e1tima, op. Cit. p458<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Este trabalho foi elaborado por Am\u00e9rico Nunes a partir do livro de sua autoria <i>Di\u00e1logo Com a Hist\u00f3ria Sindical \u2013 Edi\u00e7\u00f5es<\/i> Avante, Lisboa \u2013 2007<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp;<\/p>\n","protected":false},"author":31,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[16],"tags":[],"class_list":["post-279","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-historia-do-sindicato"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sindicatos.cgtp.pt\/hotelaria-sul\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/279","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sindicatos.cgtp.pt\/hotelaria-sul\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sindicatos.cgtp.pt\/hotelaria-sul\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sindicatos.cgtp.pt\/hotelaria-sul\/wp-json\/wp\/v2\/users\/31"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sindicatos.cgtp.pt\/hotelaria-sul\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=279"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/sindicatos.cgtp.pt\/hotelaria-sul\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/279\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":289,"href":"https:\/\/sindicatos.cgtp.pt\/hotelaria-sul\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/279\/revisions\/289"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sindicatos.cgtp.pt\/hotelaria-sul\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=279"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sindicatos.cgtp.pt\/hotelaria-sul\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=279"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sindicatos.cgtp.pt\/hotelaria-sul\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=279"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}