{"id":225,"date":"2013-04-27T18:54:10","date_gmt":"2013-04-27T18:54:10","guid":{"rendered":"http:\/\/sindicatos.cgtp.pt\/uniao-santarem\/?p=225"},"modified":"2013-05-29T16:01:23","modified_gmt":"2013-05-29T16:01:23","slug":"estudo-historico-sobre-a-conquista-das-8-horas-de-trabalho","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sindicatos.cgtp.pt\/uniao-santarem\/2013\/04\/27\/estudo-historico-sobre-a-conquista-das-8-horas-de-trabalho\/","title":{"rendered":"Estudo Hist\u00f3rico sobre a Conquista das 8 Horas de Trabalho"},"content":{"rendered":"<p align=\"center\"><b>\u00a0<a href=\"https:\/\/sindicatos.cgtp.pt\/uniao-santarem\/wp-content\/blogs.dir\/37\/files\/sites\/37\/2013\/04\/Sem-t\u00edtulo.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-full wp-image-226\" style=\"width: 419px;height: 298px\" alt=\"Sem t\u00edtulo\" src=\"https:\/\/sindicatos.cgtp.pt\/uniao-santarem\/wp-content\/blogs.dir\/37\/files\/sites\/37\/2013\/04\/Sem-t\u00edtulo.jpg\" width=\"419\" height=\"334\" \/><\/a><\/b><\/p>\n<p align=\"center\"><b>A LUTA DO OPERARIADO AGR\u00cdCOLA <\/b><\/p>\n<p align=\"center\"><b>PELO HOR\u00c1RIO DE TRABALHO <\/b><\/p>\n<p><b>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 <\/b>Comemora-se este ano o 50.\u00ba anivers\u00e1rio da conquista da jornada de trabalho de 8 horas pelos trabalhadores agr\u00edcolas. Foi em 1962 que mais de cem mil trabalhadores rurais do Alentejo e do Ribatejo, depois de terem recorrido \u00e0 greve, puseram fim ao hor\u00e1rio de trabalho medieval de \u201csol a sol\u201d, que vigorava nos campos. Enquanto os trabalhadores da ind\u00fastria e do com\u00e9rcio tinham conquistado o hor\u00e1rio de 8 horas em Maio de 1919, durante a I Rep\u00fablica, os trabalhadores do campo s\u00f3 em 1962, durante o regime fascista, alcan\u00e7aram esse objetivo. <!--more-->Essa vit\u00f3ria hist\u00f3rica do proletariado alentejano e ribatejano est\u00e1 indissoluvelmente ligada \u00e0s jornadas do 1.\u00ba de Maio, Dia Mundial do Trabalhador, que no ano de 1962 atingiram um dos pontos mais altos na luta contra o fascismo.<\/p>\n<p><b>Introdu\u00e7\u00e3o<\/b><\/p>\n<p><b>\u00a0\u00a0 <\/b>Qualquer trabalhador com consci\u00eancia de classe sabe, por experi\u00eancia pr\u00f3pria e pela experi\u00eancia coletiva, que o patronato aceita mais facilmente aumentar os sal\u00e1rios do que reduzir a jornada de trabalho. \u00c9 que enquanto o crescimento dos sal\u00e1rios \u00e9 rapidamente anulado pelo aumento dos pre\u00e7os dos produtos, a redu\u00e7\u00e3o da jornada de trabalho implica, de facto, uma redu\u00e7\u00e3o dos seus lucros. Por isso, o patronato op\u00f4s sempre uma resist\u00eancia encarni\u00e7ada a qualquer redu\u00e7\u00e3o do hor\u00e1rio de trabalho. E a luta pela jornada de trabalho de 8 horas, corporizada nas jornadas hist\u00f3ricas do 1.\u00ba de Maio, a\u00ed est\u00e1 para comprov\u00e1-lo.<\/p>\n<p>Essa luta foi iniciada em 1886, no Congresso de Genebra da <i>I Internacional<\/i>, e generalizada depois em 1890. No entanto, em Portugal a jornada de trabalho de 8 horas s\u00f3 foi promulgada em Maio de 1919, e apenas para os trabalhadores da ind\u00fastria e do com\u00e9rcio. Os trabalhadores rurais tiveram de conquist\u00e1-la com as greves de Maio de 1962, isto \u00e9, quase meio s\u00e9culo depois. Entretanto, os sal\u00e1rios subiram milhares de vezes o seu valor nominal. Basta dizer que durante a greve de 1911 os trabalhadores rurais de Alpiar\u00e7a conquistaram o sal\u00e1rio (jorna) de 500 r\u00e9is, enquanto durante a greve de 1973 obtiveram o sal\u00e1rio de 140$00 (140 000 r\u00e9is).<\/p>\n<p>Tudo isto para dizer que a limita\u00e7\u00e3o legal da jornada de trabalho foi considerada, desde 1886, como a condi\u00e7\u00e3o preliminar para o \u00eaxito de todos os outros esfor\u00e7os visando a emancipa\u00e7\u00e3o dos trabalhadores. E que essa luta foi, juntamente com a luta pelos sal\u00e1rios, o objetivo principal das lutas oper\u00e1rias dos \u00faltimos cem anos, que o mesmo \u00e9 dizer, do movimento sindical. Ali\u00e1s, o objetivo primitivo dos sindicatos era conduzir a luta dos trabalhadores nas quest\u00f5es dos sal\u00e1rios e do tempo de trabalho. Esse objetivo mant\u00e9m ainda hoje toda a sua atualidade.<\/p>\n<p><b>\u00a0\u00a0 O Movimento Sindical Rural<\/b><\/p>\n<p>O movimento associativo que se esbo\u00e7a em Portugal a partir de 1852, e que come\u00e7a a ganhar um not\u00e1vel desenvolvimento no in\u00edcio da d\u00e9cada de 70, processa-se quase exclusivamente nos centros industriais e urbanos. O mundo rural, a esmagadora maioria da popula\u00e7\u00e3o, permanece \u00e0 margem desse associativismo de car\u00e1cter mutualista.<\/p>\n<p>A dispers\u00e3o populacional, as migra\u00e7\u00f5es e o elevado \u00edndice de analfabetismo, eram fatores que condicionavam esse associativismo. Por isso, n\u00e3o surpreende que o historiador do associativismo do s\u00e9culo XIX, Costa Goodolphim indique, em 1876 apenas vinte associa\u00e7\u00f5es para todo o Alentejo e onze para o Ribatejo. Destas, tr\u00eas eram nas vilas de Alpiar\u00e7a (Montepio da N.\u00aa Sr.\u00aa do Ros\u00e1rio, fundado em 1872, com 50 s\u00f3cios), na Chamusca (Montepio Art\u00edstico de S. Br\u00e1s, fundado em 1873, com 60 s\u00f3cios) e em Salvaterra de Magos (Montepio do Senhor Jesus das Almas, criado em 1872, com 100 s\u00f3cios). Mas mesmo estas associa\u00e7\u00f5es limitavam-se aos centros urbanos, n\u00e3o incluindo, pois, a popula\u00e7\u00e3o rural.<\/p>\n<p>Assim se compreende que nos congressos e reuni\u00f5es oper\u00e1rias que tiveram lugar nos finais do s\u00e9culo XIX, n\u00e3o tivessem tomado parte trabalhadores rurais. Isto motivou a que no Congresso Oper\u00e1rio de Aveiro de 1902 fosse aprovada uma resolu\u00e7\u00e3o relativa a esses trabalhadores, na qual se conclu\u00eda da necessidade de \u201cenviar miss\u00f5es de propaganda ao campo\u201d. Apesar de tudo, em 1901 era constitu\u00edda em Beja a Associa\u00e7\u00e3o de Classe dos Trabalhadores Rurais de Beja, por iniciativa do socialista Francisco Galinoti.<\/p>\n<p>Com o avento da I Rep\u00fablica assiste-se, por um lado, a um intenso movimento grevista que abala o novo regime, e por outro, a um surto de associa\u00e7\u00f5es de classe (designa\u00e7\u00e3o legal dos sindicatos), que ultrapassa todas as expectativas. Logo em 1910 \u00e9 formada a Associa\u00e7\u00e3o de Classe de Vendas Novas e, em 1 de Janeiro do ano seguinte, cabe a vez \u00e0 de Coruche, a qual, dirigida pelo destacado sindicalista Manuel Ferreira Quartel, estar\u00e1 na vanguarda da luta dos trabalhadores rurais, levando a cabo, ainda em 1911, uma greve que foi violentamente reprimida, donde resultou a morte de um trabalhador rural. Ainda nesse ano s\u00e3o criados os sindicatos de \u00c9vora, Ferreira do Alentejo, Montemor-o-Novo, Reguengos de Monsar\u00e1s, Portel, Viana do Alentejo, Aldegalega (atual Montijo), Moura, Cabe\u00e7o de Vide, Arronches e Serpa. Em 1912 s\u00e3o fundados os sindicatos de Alpiar\u00e7a (com 400 s\u00f3cios), Vale de Cavalos, Benavente, Chamusca e Cou\u00e7o.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s a greve geral dos trabalhadores rurais de 1912, por melhores sal\u00e1rios, que p\u00f4s o Sul do Pa\u00eds a ferro e fogo, um grupo de destacados sindicalistas revolucion\u00e1rios, encabe\u00e7ado por Carlos Rates leva a efeito uma \u201ctourn\u00e9e\u201d de propaganda pelo Alentejo e Ribatejo, divulgando o sindicalismo revolucion\u00e1rio e ajudando \u00e0 constitui\u00e7\u00e3o de dezenas de sindicatos. Deste grupo faziam parte alguns dos que vir\u00e3o a ser os mais prestigiados dirigentes da Federa\u00e7\u00e3o dos Rurais, como Joaquim Jos\u00e9 Candieira, Vital Jos\u00e9 e Sebasti\u00e3o Cebola.<\/p>\n<p>Merc\u00ea desse esfor\u00e7o organizativo o Alentejo e o Ribatejo cobrem-se duma larga rede de sindicatos, agrupados na Federa\u00e7\u00e3o Nacional dos Trabalhadores Rurais. Esta foi constitu\u00edda no I Congresso dos Trabalhadores Rurais, realizado em Agosto de 1912, em \u00c9vora. Em Janeiro de 1912 o n\u00famero de sindicatos rurais era de 32; em Agosto do mesmo ano esse n\u00famero passou para 67: em Fevereiro do ano seguinte era j\u00e1 de 94 e, em Abril, passou a ser de 127.<\/p>\n<p>Mas 1913 \u00e9 o ano do I Governo de Afonso Costa, alcunhado pelos trabalhadores de \u201cracha-sindicalistas\u201d. Foi um ano de persegui\u00e7\u00f5es ao movimento oper\u00e1rio, como nunca tinha acontecido desde a proclama\u00e7\u00e3o da Rep\u00fablica, em 1910. Em Fevereiro de 1913 estavam presos 110 trabalhadores rurais. Dezenas de sindicatos foram encerrados e mais de uma centena de sindicalistas foram encarcerados no Forte da Gra\u00e7a, em Elvas.<\/p>\n<p>O sindicato de Coruche \u00e9 fechado e os seus bens s\u00e3o vendidos em hasta p\u00fablica. Em Outubro de 1913, durante um conflito que opunha os trabalhadores rurais aos latifundi\u00e1rios de Coruche, a GNR abate dois oper\u00e1rios e fere v\u00e1rios outros. Revoltado com o sucedido, o povo corunchense destr\u00f3i inteiramente o posto da GNR. Em Abril de 1914 centenas de trabalhadores rurais s\u00e3o julgados em Coruche.<\/p>\n<p>O sindicato de Alpiar\u00e7a \u00e9 encerrado tamb\u00e9m em 1913 e preso o sindicalista Ant\u00f3nio Nunes Canha, s\u00f3 sendo reaberto em 1918. Mas em 1921 \u00e9 novamente encerrado, acabando por ser dissolvido pelos corpos gerentes, devido \u00e0 persegui\u00e7\u00e3o constante que lhe era movida. O sindicato de Vale de Cavalos foi encerrado em 1914, e j\u00e1 n\u00e3o voltou a funcionar. Quanto ao da Azinhaga, foi encerrado em 1918, acusado de ter formado um \u201csoviete\u201d durante a greve geral de 1918. Os seus bens foram destru\u00eddos, e n\u00e3o voltou mais a ser reaberto.<\/p>\n<p>Quando o fascismo chegou, os sindicatos rurais estavam quase desfeitos pela repress\u00e3o levada a cabo pelos v\u00e1rios governos republicanos, sempre apostados em defender os grandes propriet\u00e1rios agr\u00edcolas, e caluniando os sindicalistas de conluiados com os mon\u00e1rquicos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>As Lutas durante a I Rep\u00fablica<\/b><\/p>\n<p>Ao contr\u00e1rio do Ribatejo, o Alentejo rural era muito pouco conhecido do movimento oper\u00e1rio organizado antes da implanta\u00e7\u00e3o da Rep\u00fablica. Na realidade, os ribatejanos t\u00eam um passado de lutas anterior \u00e0 Rep\u00fablica, as quais revestiram algumas vezes a forma de greve, a \u00faltima das quais foi a dos trabalhadores agr\u00edcolas de Alpiar\u00e7a, no terceiro trimestre de 1909, por aumento de sal\u00e1rio.<\/p>\n<p>Em consequ\u00eancia da propaganda republicana, ap\u00f3s a queda Monarquia, fervilha por quase todo o Alentejo uma agita\u00e7\u00e3o social, que se expressa em v\u00e1rios conflitos locais. Em Junho de 1911 esses conflitos desembocam numa greve geral a n\u00edvel do distrito de \u00c9vora.<\/p>\n<p>Entretanto, no m\u00eas anterior t\u00eam lugar as greves no Ribatejo. Assim, em 24 de Maio s\u00e3o os trabalhadores agr\u00edcolas da Chamusca que, ap\u00f3s um dia de greve, conseguem aumento de sal\u00e1rio. No dia seguinte a greve rebenta em S. Vicente do Pa\u00fal, Alviela, Reguengos e Vale de Figueira. Esta greve dura quatro dias e salda-se por uma vit\u00f3ria completa. No dia 26 \u00e9 a vez de Alpiar\u00e7a e Almeirim, cujas greves duram somente um dia, obtendo os trabalhadores a satisfa\u00e7\u00e3o das suas reivindica\u00e7\u00f5es, ou seja: sal\u00e1rio de 400 r\u00e9is no Ver\u00e3o (exceto nas ceifas) e 300 r\u00e9is no Inverno. No dia 28 s\u00e3o os trabalhadores agr\u00edcolas de Santar\u00e9m a entrar em greve, que dura dois dias e, por fim, no dia 29 lan\u00e7am-se em greve os trabalhadores de Benavente e Salvaterra de Magos. Tamb\u00e9m aqui a vit\u00f3ria foi completa.<\/p>\n<p>A greve de Junho no distrito de \u00c9vora come\u00e7ou no dia 31 de Maio. Era o tempo das ceifas e a ades\u00e3o dos trabalhadores \u00e0 greve foi maci\u00e7a. No dia 1 de Junho todas as classes profissionais de \u00c9vora entram tamb\u00e9m em greve, em solidariedade com os trabalhadores rurais. Nessa altura mais de 15 000 grevistas, vindos de todo o distrito, concentram-se em \u00c9vora. Impedidos de entrar na cidade acampam no Rossio de S\u00e3o Br\u00e1s.<\/p>\n<p>Resistindo a todas as amea\u00e7as e provoca\u00e7\u00f5es, os grevistas concentram-se depois na pra\u00e7a de touros, para tomar conhecimento da contraproposta dos lavradores. Ap\u00f3s v\u00e1rias discuss\u00f5es estes cedem, e \u00e9 assinado um acordo composto de treze pontos, que ficou conhecido como a \u201cTabela de \u00c9vora\u201d.<\/p>\n<p>Os aspetos mais importantes desse acordo eram dois: aumento de sal\u00e1rio e fixa\u00e7\u00e3o, pela primeira vez, da jornada de trabalho. Assim: de Maio a Agosto \u2013 700 r\u00e9is por dia; de Setembro a Dezembro \u2013 400 r\u00e9is; de Janeiro a Abril \u2013 500 r\u00e9is. Aboli\u00e7\u00e3o do trabalho noturno, largar ao s\u00e1bado com um quarto de dia.<\/p>\n<p>Este acordo passou a ser o modelo de todas as negocia\u00e7\u00f5es no Alentejo, nas greves que foram desencadeadas durante o m\u00eas de Junho, sendo melhorado nalguns casos. Assim, em Vendas Novas, foi acordado, quanto \u00e0 jornada de trabalho, o seguinte: uma hora para o almo\u00e7o, duas horas para o jantar e meia hora para a merenda. Al\u00e9m disso, de 15 de Abril a 8 de Setembro a entrada ao trabalho passou a ser \u00e0s 6 horas e a largada ao p\u00f4r-do-sol, menos ao s\u00e1bado, que era com uma hora de sol.<\/p>\n<p>Logo que puderam os lavradores contestaram o acordo e come\u00e7aram a recusar dar cumprimento ao mesmo. Os sindicatos recorreram ao governador-civil de \u00c9vora, Paulino de Andrade, para que este fizesse cumprir a lei. Mas ele p\u00f4-se ao lado dos lavradores e chamou as for\u00e7as militares e policiais para reprimir os trabalhadores. Perante isto, em Janeiro de 1912 os sindicatos declaram a greve geral no distrito de \u00c9vora. Esta greve em breve se transformou num acontecimento social e pol\u00edtico com implica\u00e7\u00f5es nacionais, dando origem \u00e0 primeira greve geral em Portugal, desencadeada em Lisboa pela Comiss\u00e3o Executiva do Congresso Sindicalista, em solidariedade com os trabalhadores agr\u00edcolas.<\/p>\n<p>Colhidas de surpresa, as autoridades republicanas perderam a cabe\u00e7a e entram na repress\u00e3o desesperada. Suspendem as liberdades constitucionais e entregam o governo de Lisboa \u00e0 autoridade militar. Esta manda encerrar a \u201cCasa Sindical\u201d, sede do movimento sindical portugu\u00eas, inaugurada quinze dias antes, onde s\u00e3o presos mais de 500 sindicalistas, que s\u00e3o transportados para bordo do navio Pero de Alenquer.<\/p>\n<p>A posi\u00e7\u00e3o do Governo Republicano fez ruir todas as esperan\u00e7as e ilus\u00f5es que os trabalhadores alimentavam em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 Rep\u00fablica, provocando o seu div\u00f3rcio, o que veio a ter consequ\u00eancias funestas para o regime instaurado em 5 de Outubro 1910.<\/p>\n<p>Apesar dessa repress\u00e3o, em Outubro de 1912 os trabalhadores de Alpiar\u00e7a e de Coruche lan\u00e7am-se em greve para obrigar os lavradores a cumprir o que tinham assinado, ou seja, o sal\u00e1rio de Inverno, que funcionava como um verdadeiro sal\u00e1rio m\u00ednimo. Em Maio de 1913 s\u00e3o os trabalhadores agr\u00edcolas de Vale de Cavalos qu e fazem greve pelo mesmo motivo. \u00c9 na sequ\u00eancia destas greves que v\u00eam a ser encerrados os sindicatos agr\u00edcolas de Coruche, Alpiar\u00e7a e Vale de Cavalos.<\/p>\n<p>Em Junho de 1913 (\u00e9poca das ceifas) de novo os trabalhadores rurais alentejanos se lan\u00e7am em greve, enquanto em Lisboa era fechada a segunda \u201cCasa Sindical\u201d. Perante a repress\u00e3o governamental e a recusa patronal a Federa\u00e7\u00e3o Nacional dos Trabalhadores Rurais prepara uma greve geral para 1913, a qual seria contra os patr\u00f5es e contra o Estado: contra patr\u00f5es, pela fixa\u00e7\u00e3o de hor\u00e1rios de trabalho e novas tabelas salariais; contra o Estado, por causa da lei sobre os terrenos incultos e o desrespeito da lei sindical. Mas a greve n\u00e3o vai avante, por v\u00e1rias raz\u00f5es, uma das quais era que os mais destacados sindicalistas encontravam-se presos no Forte da Gra\u00e7a em Elvas e noutras cadeias do Pa\u00eds.<\/p>\n<p>E assim se chega a 1916, ano em que Portugal entra na Primeira Guerra Mundial, e em que o governo chamado de \u201cUni\u00e3o Sagrada\u201d manda encerrar e dissolver a Uni\u00e3o Oper\u00e1ria Nacional (UON), a primeira central sindical portuguesa, fundada em 1914, no I Congresso Oper\u00e1rio Nacional, realizado em Tomar. Al\u00e9m da Uni\u00e3o foram encerradas tamb\u00e9m a Uni\u00e3o dos Sindicatos Oper\u00e1rios de Lisboa (USO), a Federa\u00e7\u00e3o da Constru\u00e7\u00e3o Civil e a Federa\u00e7\u00e3o dos Metal\u00fargicos. Tudo isto por estes organismos oper\u00e1rios se oporem \u00e0 entrada de Portugal no conflito que vai ensanguentar a Europa durante cinco anos.<\/p>\n<p>Terminada a guerra, e ap\u00f3s a greve geral de 1918, contra a carestia da vida, depois da derrota da Monarquia do Norte em 1919, com larga participa\u00e7\u00e3o do operariado, \u00e9 promulgada, em Maio desse ano, a lei que estabelecia a jornada de trabalho de 8 horas. Mas s\u00f3 para os trabalhadores da ind\u00fastria e do com\u00e9rcio. Perante isto, os trabalhadores agr\u00edcolas protestam e reivindicam a mesma jornada de trabalho. Mas em v\u00e3o. Os tempos j\u00e1 n\u00e3o iam de fei\u00e7\u00e3o para os trabalhadores. No horizonte perfilhava-se o fascismo, sa\u00eddo do golpe de Estado militar de 1926.<\/p>\n<p><b>As Lutas durante o Regime Fascista<\/b><\/p>\n<p>A conjuntura internacional, primeiro com a Guerra Civil de Espanha, (1936-1939), e depois com a II Guerra Mundial (1939-1945), n\u00e3o favorecia a movimenta\u00e7\u00e3o dos trabalhadores, particularmente os do campo, que se viram privados dos seus sindicatos.<\/p>\n<p>Mas no in\u00edcio dos 40, pressionados pela fome e a mis\u00e9ria provocadas pela guerra e pela pol\u00edtica salazarista, eles voltam \u00e0 luta. E assim, de 1943 a 1962 vai-se verificar um movimento constante de lutas e greves dos trabalhadores agr\u00edcolas, os quais passam a ter, a partir de 1946, um \u00f3rg\u00e3o clandestino, <i>O Campon\u00eas<\/i>, editado pelo PCP.<\/p>\n<p>Em 1943 os trabalhadores agr\u00edcolas do Ribatejo (Santar\u00e9m, Vila Franca de Xira, Riachos) entram em greve contra o despacho de limita\u00e7\u00e3o das jornas, promulgado em 14-V-1943. A greve dura 15 dias e foi vitoriosa, tendo os trabalhadores conquistado um aumento de 9$00 acima do que estipulava o referido despacho.<\/p>\n<p>Em 1944 nova vaga de greves dos trabalhadores agr\u00edcolas do Baixo Ribatejo e, no ano seguinte, rebentam greves em \u00c9vora, Montemor-o-Novo, Portel, Reguengos, S\u00e3o Man\u00e7os, Ermidas, etc. \u00c9 nesta altura que, a exemplo do que passava nas f\u00e1bricas e oficinas, come\u00e7am a aparecer as \u201ccomiss\u00f5es de unidade\u201d, que se passam a chamar \u201ccomiss\u00f5es de pra\u00e7a de jorna\u201d, ou s\u00f3 \u201dcomiss\u00f5es de pra\u00e7a\u201d, \u201ccomiss\u00f5es de rancho\u201d ou \u201ccomiss\u00f5es de herdade\u201d.<\/p>\n<p>Em 1947 surge entre os trabalhadores alentejanos e ribatejanos um \u201cCaderno de reivindica\u00e7\u00f5es dos ceifeiros\u201d, o qual, segundo <i>O Campon\u00eas <\/i>de 1-V-1947, tinha por objectivo unificar a luta em todos os lados. Esse \u201cCaderno\u201d propunha, al\u00e9m de novos sal\u00e1rios, as seguintes reivindica\u00e7\u00f5es, quanto ao hor\u00e1rio de trabalho: \u201cenregar com uma hora de sol\u201d, \u201ctr\u00eas horas e meia de descanso ou seis fuma\u00e7as, aguadas ou cigarros durante o dia\u201d, e \u201cum quartel ao s\u00e1bado e outro \u00e0 segunda-feira, com sal\u00e1rio por inteiro e sem preju\u00edzo das horas de descanso\u201d. Al\u00e9m disso, reivindicava-se ainda que acabassem as empreitadas e o trabalho \u00e0 tarefa.<\/p>\n<p>As \u201ccomiss\u00f5es de pra\u00e7a de jorna\u201d tornaram-se na principal forma de organiza\u00e7\u00e3o dos trabalhadores, pois eram elas que intervinham nas negocia\u00e7\u00f5es, quer de sal\u00e1rios, quer de hor\u00e1rios de trabalho. Por outro lado, a pra\u00e7a de jorna torna-se no local onde se concentram os trabalhadores e onde decorre todo o processo contratual. Ali\u00e1s, as pra\u00e7as de jorna transformaram-se elas pr\u00f3prias no centro da luta, pois os lavradores tudo fazem para acabar com elas e, dada a resist\u00eancia dos trabalhadores, tentam alterar o seu hor\u00e1rio de funcionamento.<\/p>\n<p>Merc\u00ea do papel desempenhado pelas \u201ccomiss\u00f5es de pra\u00e7a\u201d, as lutas levadas a efeito durante as ceifas de 1947 saldam-se por uma vit\u00f3ria completa dos trabalhadores. Segundo o jornal <i>O Campon\u00eas<\/i>, participaram nessas lutas cerca de 40 000 trabalhadores, tendo os sal\u00e1rios subido at\u00e9 40$00\/dia, quando os lavradores pretendiam pagar somente 20$00. \u00c9 dentro deste quadro que ir\u00e3o decorrer as lutas durante a d\u00e9cada de 50.<\/p>\n<p>Entretanto, a mecaniza\u00e7\u00e3o da agricultura e a introdu\u00e7\u00e3o da monda qu\u00edmica, come\u00e7am a alterar as condi\u00e7\u00f5es sociais, agravando o desemprego. Por isso, em 1960 surge no Alentejo e Ribatejo uma proposta para um contrato coletivo de trabalho, que inclu\u00eda, entre outras, as seguintes reivindica\u00e7\u00f5es: sal\u00e1rio m\u00ednimo de 30$00 por dia, para uma semana de seis dias de trabalho de 8 horas. Mas a luta pelo contrato n\u00e3o teve sucesso, at\u00e9 porque a organiza\u00e7\u00e3o corporativa salazarista nunca funcionou nos campos, ao n\u00edvel da contrata\u00e7\u00e3o, ao contr\u00e1rio do que acontecia na ind\u00fastria e no com\u00e9rcio.<\/p>\n<p>E \u00e9 neste contexto que surge a luta pelas 8 horas, a qual revestia tamb\u00e9m uma forma de combater o desemprego. Assim, n\u00e3o surpreende que sejam as 8 horas que v\u00e3o dominar as greves de Abril-Maio de 1962. Essas greves abrangeram quase todo o Alentejo e parte do Ribatejo. Durante todo o m\u00eas de Maio um vasto movimento grevista varre os campos, no qual participam mais de 100 000 trabalhadores.<\/p>\n<p>Come\u00e7ando no final de Abril em Montargil, esse movimento finda na quarta semana de Maio, com as greves de Benavente, Salvaterra de Magos, Coruche, Cou\u00e7o e Alpiar\u00e7a. A greve em Alpiar\u00e7a foi no dia 31 de Maio, onde os trabalhadores (que haviam paralisado o trabalho no dia 1\u00ba. de Maio) n\u00e3o aceitaram os 35$00 que os lavradores lhes ofereciam. Recusaram trabalhar nesse dia e conquistaram, no dia seguinte, o sal\u00e1rio de 40$00. Com esta luta os trabalhadores agr\u00edcolas conquistavam, pela primeira vez, a jornada de 8 horas, 43 anos depois dos oper\u00e1rios industriais.<\/p>\n<p><b>\u00a0Considera\u00e7\u00f5es Finais<\/b><\/p>\n<p>A partir dos anos 60 a situa\u00e7\u00e3o nos campos modifica-se profundamente. A emigra\u00e7\u00e3o, interna e externa, a guerra colonial e a mecaniza\u00e7\u00e3o da agricultura, aceleram o despovoamento dos campos. Por isso, as lutas nos campos decrescem acentuadamente. No entanto, os trabalhadores agr\u00edcolas de Alpiar\u00e7a continuam na vanguarda dessas lutas e assim ser\u00e1 at\u00e9 \u00e0 Revolu\u00e7\u00e3o de Abril de 1974.<\/p>\n<p>Veja-se a greve de Novembro de 1972, greve que durou 10 dias; as greves de Mar\u00e7o e Setembro de 1973, tendo esta durado uma semana. E por fim a greve de Novembro, tamb\u00e9m em 1973, que envolveu 6 000 trabalhadores de Alpiar\u00e7a, Almeirim, Benfica do Ribatejo e Fazendas de Almeirim.<\/p>\n<p>Os primeiros a entrar na greve foram os trabalhadores de Alpiar\u00e7a, que \u201cdepois de uma longa discuss\u00e3o, dcidiram n\u00e3o pegar ao trabalho por menos de 140$00\u201d. A greve come\u00e7ou no dia 26 de Novembro, com uma concentra\u00e7\u00e3o na Casa do Povo, apoiando a comiss\u00e3o eleita para discutir com os lavradores. No dia seguinte nova concentra\u00e7\u00e3o na Casa do Povo, que se repetiu nos dias 28 e 29, findos os quais os lavradores cederam pagar 140$00 para os homens e 70$00 para as mulheres, o que representava um aumento de 40 e 20$00, respetivamente, segundo o jornal <i>Avante!<\/i>, de Janeiro de 1974.<\/p>\n<p>E assim continuou a luta at\u00e9 ao triunfo da Revolu\u00e7\u00e3o Democr\u00e1tica de 25 de Abril de 1974, que legalizou a conquista hist\u00f3rica da jornada de 8 de horas de trabalho, conseguida pelos oper\u00e1rios agr\u00edcolas dos campos do Alentejo e Ribatejo em 1962, cujo quinquag\u00e9simo anivers\u00e1rio agora se assinala.<\/p>\n<p>Recordar essa luta heroica \u00e9 n\u00e3o s\u00f3 um dever de todos os trabalhadores, mas tamb\u00e9m uma forma de combater os que pretendem branquear o fascismo e apagar as lutas do proletariado contra a explora\u00e7\u00e3o e o salazarismo, pela Democracia e a Liberdade.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Ver\u00e3o de 2012<\/p>\n<p>Francisco Canais Rocha<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00a0 A LUTA DO OPERARIADO AGR\u00cdCOLA PELO HOR\u00c1RIO DE TRABALHO \u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Comemora-se este ano o 50.\u00ba anivers\u00e1rio da conquista da jornada de trabalho de 8 horas pelos trabalhadores agr\u00edcolas. 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