Artigo publicado a 29 de Setembro de 2026
no Jornal “PÚBLICO”, por Mariana Durães e
Foto de Paulo Pimenta
“Sindicato acredita que “não foi feita a correcta avaliação dos riscos” na obra do empreendimento turístico onde morreram dois trabalhadores. Grupo Pestana envia condolências às famílias.
Ainda não são conhecidos pormenores sobre o acidente na construção de um empreendimento turístico do grupo Pestana em Porto Covo, que, nesta segunda-feira, vitimou dois cidadãos estrangeiros, um cabo-verdiano de 26 anos e um guineense de 28, identificou o Comando Sub-Regional de Emergência e Protecção Civil do Alentejo Litoral.
Ao PÚBLICO, a Autoridade para as Condições do Trabalho (ACT), responsável pelas perícias, não adiantou qualquer informação sobre os resultados da investigação a decorrer, referindo apenas que estes processos “demoram o tempo que demoram”.
Para a Federação Portuguesa dos Sindicatos da Construção, Cerâmica e Vidro (FEVICCOM), contudo, é claro que “houve uma tarefa desempenhada para a qual não foi feita a correcta avaliação de riscos e tomadas [as devidas] medidas preventivas”, afiança Nuno Gonçalves, da direcção do sindicato.
O acidente terá sido provocado por um aluimento de terras que fez com que os trabalhadores ficassem soterrados numa vala, indicou inicialmente à Lusa o presidente da Câmara Municipal de Sines, Álvaro Beijinha e confirmou o PÚBLICO junto do Comando Sub-Regional de Emergência e Protecção Civil do Alentejo Litoral, que não deu mais detalhes sobre o sucedido, remetendo para as autoridades competentes.
Para a FEVICCOM, acidentes como este são “consequência de opções que colocam o lucro acima da segurança, da pressão permanente para acelerar prazos, da insuficiência da prevenção, da degradação das relações laborais e da crescente desresponsabilização das entidades que intervêm nas obras”, lê-se em comunicado, que dá conta de quase 30 mil acidentes de trabalho e 41 mortes na construção, em 2023.
Nuno Gonçalves relembra que “qualquer obra tem de ter um Plano de Saúde e Segurança (PSS)”, que faz uma “avaliação de riscos das diferentes frentes de trabalho”. “Sem conhecer a obra e este caso em concreto (…) o aluimento de terras dá-se devido à natureza dos terrenos onde as obras estão a ser executadas. Abrir uma vala de um metro tem um risco, abrir uma de dois tem outro. [Mas se tivesse sido feita uma correcta avaliação] do local, das condições, do terreno, da envolvência (…) a probabilidade [de um acidente assim acontecer] é nula ou quase nula”, defende.
A Carvoeiro Golf, do grupo Pestana, emitiu nesta terça-feira um comunicado onde lamenta “profundamente que deste incidente tenham resultado duas vítimas” e apresenta “sentidas condolências às famílias”. “A empresa está, desde o primeiro momento, a acompanhar a situação, em estreita articulação com as autoridades prestando toda a colaboração necessária no apuramento das circunstâncias”, termina.
O novo projecto do grupo, “a apenas 50 metros da praia”, como se lê no seu site, prevê a construção de 236 apartamentos turísticos num terreno de oito hectares, com piscinas privativas e áreas de jardim. As obras estão a cargo da Carvoeiro Construções, uma empresa do Pestana Hotel Group.
O alerta para um deslizamento de terras foi dado às autoridades às 16h29 desta segunda-feira. Os dois trabalhadores estavam soterrados a uma “profundidade de cinco a seis metros”. O primeiro corpo foi encontrado pelas 18h15 e o segundo pelas 23h15.”





